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Posts uit juni, 2026 tonen

O ini mini micro nano empresário (por Frederico Ileck)

Era um dia desses qualquer. Uma tarde como essas qualquer. A campainha tocou e era Gerardo. Seu cabelo de cientista maluco e sua voz ultra acelerada me diziam algo: queria reclamar, porém não sabia como. Seu sorriso amarelado trazia nos seus ombros uma câmera Polaroid. Eu era vendedor da marca. Meus últimos meses como microempresário foram vendendo fotos instantâneas. Apenas da marca Polaroid. O ano era 2016 e eu já estava fazendo aquilo há cinco anos. Os primeiros meses comecei com as mais caras — da minha própria coleção —, depois terminei vendendo as mais baratas. Que até aquele dia saíam, e muito bem, obrigada. Gerardo era uma figurinha fácil na minha casa. Estudava numa escola na esquina e nas pausas passava só pra dizer oi ou falar alguma coisa. Numa dessas conversas rápidas, mostrei a ele um lote que havia comprado numa feira em Liège, na Bélgica. Se encantou com uma câmera que eu tinha acabado de testar. Ficou mais louco do que já era. Semanas depois voltou com uma ...

Você é mesmo brasileiro? (por Frederico Ileck)

“Você é mesmo brasileiro?”, perguntou uma colega, espantada, com as mãos sobre os meus ombros e os olhos cravados nos meus. “Sou, respondi. E qual é o problema?” Ela se levantou e foi para a sala de reuniões com as outras colegas, onde avaliavam os candidatos. Era uma terça-feira, e eu participava, pela primeira vez, de uma seleção interna numa multinacional de móveis. O objetivo era simples: tornar o produto da empresa ainda mais atraente ao consumidor. Os preços eram baixos, mas a qualidade era duvidosa. Eu via isso todos os dias no processo logístico. Com frequência, um colega derrubava um pallet. A facilidade com que aquilo quebrava era inacreditável. “Nem esquenta. Esse aqui é barato demais. Ainda bem que não é um dos modelos de ponta”, dizia ele, sorrindo de orelha a orelha. Foi ali que comecei a olhar com mais criticidade para a qualidade daqueles móveis, mesmo antes de entrar na empresa. Nos primeiros meses na Holanda, compramos guarda-roupas, cama, mesa e banho nes...

Analice no País das Más Notícias - Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Final dos Finais, finalmente)

Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Final dos Finais, finalmente) O tique-taque sob a mesa cresceu até virar rumor, depois batida, depois a certeza incômoda de que alguma coisa ali embaixo estava tentando nascer de novo. A sala inteira pareceu prender a respiração. As janelas nas paredes, que exibiam fragmentos de vidas discretas, começaram a tremer como se soubessem que o centro da história estava prestes a dar meia-volta sobre si mesmo. Analice se levantou devagar. A salsicha, agora muito séria para um objeto tão absurdo, olhava para ela como quem assiste à última cena de um programa repetido há décadas. — É aqui? — perguntou Analice. — Sempre foi — respondeu a salsicha. O Gato do Auditório apareceu no alto da parede, só o sorriso, suspenso como uma última observação editorial. — O truque do final — disse ele — é fingir que chega tarde. Assim ninguém percebe que ele já estava esperando desde a primeira página. Analice olhou para a porta. Ou melhor: pa...

Analice no País das Más Notícias- Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Parte 1 1/3)

Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Parte 1/3) Analice escolheu a porta sem escolher. Foi mais um deslize do corpo do que uma decisão da consciência. No instante em que tocou a maçaneta, o corredor fez um ruído de papel amassado e se desfez como notícia corrigida tarde demais. Do outro lado, havia uma sala estreita, comprida e baixa, que lembrava uma redação em dia de fechamento, só que vista por dentro de um microfone. As paredes eram forradas de recortes sobre recortes, manchetes em camadas, frases repetidas até perderem o sentido, e cada frase parecia ter sido publicada por uma versão ligeiramente mais nervosa da mesma pessoa. No centro, uma mesa pequena. Em cima dela, uma salsicha repousava como se fosse um objeto sagrado ou uma ameaça. — Ah, ótimo — disse Analice. — Agora o mundo me oferece uma linguiça metafísica. A salsicha abriu um olho. Depois o outro. Não tinha braços, nem pernas, nem moral, mas possuía um olhar cansado de quem já ...

Analice no País das Más Notícias- Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Parte 1 1/2)

Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Parte 1 1/2) Analice ainda estava caindo, mas já não sabia se caía para baixo, para dentro ou para a página seguinte. O salão havia desaparecido num rasgo de papel, e agora tudo era um corredor feito de miolos de jornal, fios de antena e palavras mastigadas. Havia uma sensação desagradável de que o universo inteiro fora dobrado de modo errado por um estagiário distraído. No meio da queda, uma placa atravessou o ar girando como se tivesse sido jogada por alguém de dentro do próprio texto: “SAÍDA FINAL: AQUI TERMINA O QUE NUNCA COMEÇOU” — Ah, claro — disse Analice, sem surpresa nenhuma, o que era em si uma surpresa. — Isso explica tudo. Mas não explicava. Nunca explicava. Só servia para piorar a geometria do mundo. Abaixo dela, uma fila de salsichas voadoras passava em marcha lenta, cada uma carregando um pequeno relógio pendurado no pescoço. Eram salsichas sérias, burocráticas, com o ar de quem tinha muito ...

Analice no País das Más Notícias, Capítulo 12 - Tudo tem um final só a salsicha tem dois (Parte 1)

Tudo tem um final só a salsicha tem dois (Parte 1) Analice percebeu o fim antes de vê-lo. Não houve anúncio, não houve vinheta, não houve o tipo de fanfarra que a redação tanto amava quando precisava chamar de “encerramento” aquilo que era só cansaço. Houve, primeiro, uma mudança no ar. Depois, uma quietude estranha, dessas que não trazem paz, apenas a suspeita de que alguma coisa foi desligada no andar de cima. Ela estava de volta a um corredor de fios e luzes, mas agora o corredor parecia menos um caminho e mais uma lembrança mal editada. As paredes de vidro tremiam com reflexos de telas antigas. Em cada uma, uma manchete viva piscava, respirava e se repetia como um hábito ruim. O Coelho-Âncora corria ao longe, atrasado para um bloco que já tinha passado. A Rainha das Más Notícias não estava mais em seu trono; restava dela apenas o contorno de uma ordem antiga, como uma coroa esquecida sobre uma mesa de corte. Analice passou a mão pela parede e sentiu calor. ...

Santos 1999 - Capítulo 7 – Parte 1 (Carla, chá e despedida) por Frederico Ileck

Santos 1999 — Capítulo 7: Carla, Chá e Despedida ​O som do teclado preenchia a sala do apartamento no Gonzaga. Carla estava sentada diante do computador, um bule de chá verde ainda fumegando ao lado. Os óculos de leitura deslizavam no nariz, e o reflexo da tela iluminava seu rosto determinado. ​— Você vai longe demais nesses projetos — comentou Ivan, encostado na porta, fingindo ironia. ​— Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Isso é o que eu sinto quando você está aqui. Sua cabeça sempre está naquele programa fracassado. Fica naquelas festinha noturnas movido a coisas estranhas com aquele Paulo Maluco. Cara, deixa eu terminar o que estou escrevendo, por favor, Ivan — respondeu ela, sem tirar os olhos da tela. — E você devia agradecer ao seu pai, seu ingrato. Se não fosse o talento dele, talvez nem estivéssemos conversando aqui. ​Ivan franziu a testa. Na época, em 1999, aquela frase soava só como uma cutucada ou algo emnvão que ele ouvia todos os dias e nemndav...