Era um dia desses qualquer. Uma tarde como essas qualquer. A campainha tocou e era Gerardo. Seu cabelo de cientista maluco e sua voz ultra acelerada me diziam algo: queria reclamar, porém não sabia como.
Seu sorriso amarelado trazia nos seus ombros uma câmera Polaroid. Eu era vendedor da marca. Meus últimos meses como microempresário foram vendendo fotos instantâneas. Apenas da marca Polaroid. O ano era 2016 e eu já estava fazendo aquilo há cinco anos. Os primeiros meses comecei com as mais caras — da minha própria coleção —, depois terminei vendendo as mais baratas. Que até aquele dia saíam, e muito bem, obrigada.
Gerardo era uma figurinha fácil na minha casa. Estudava numa escola na esquina e nas pausas passava só pra dizer oi ou falar alguma coisa. Numa dessas conversas rápidas, mostrei a ele um lote que havia comprado numa feira em Liège, na Bélgica. Se encantou com uma câmera que eu tinha acabado de testar. Ficou mais louco do que já era. Semanas depois voltou com uma frase na ponta da língua. Parecia que havia decorado por horas em frente ao espelho.
— Não funciona e quero meu dinheiro de volta, disse Gerardo sem nem dizer boa tarde.
— Impossível — respondi — revisei várias vezes antes de te entregar. Cara, acontece. Não tem problema. Se não está satisfeito, devolvo o dinheiro.
Havia percebido que o cartucho ainda estava dentro da máquina. Daí me veio uma ideia.
— Antes de devolver o dinheiro, queria fazer um retrato seu. Quer?
Gerardo aceitou sem pestanejar. Fui até os fundos da minha casa e, pimba, a foto saiu. E um detalhe: ficou acima da média.
— Caramba, que legal. Mesmo assim quero meu dinheiro de volta, afirmou sorrindo de forma nervosa.
Peguei meu cartão e fiz a transferência dos 40 euros que ele havia gasto. Gerardo esperou alguns minutos e abriu sua conta. Nela havia mais de 10 mil euros.
— Poxa, olha quanto de grana eu tenho. E olha que fiz uma viagem para o Japão!, disse orgulhoso.
Pensei: por que esse cara fez isso? Pra não parecer por baixo? Que havia gastado os tubos numas férias? Que vantagem mané leva nisso? Onde estavam as fotos dessa incrível viagem? E que tipo de complexo de inferioridade é esse que nunca vi antes? Pobre com complexo de rico?
Daí falei amigavelmente:
— Pois é, meu amigo... deve ter trabalhado duro pra juntar essa grana. Se quiser outro modelo de Polaroid, tenho aqui de bate-pronto. É só levar.
— Nem pensar. Já gastei muito nessa brincadeira. Cada cartucho custa uns 25 euros. Só tomei prejuízo nessa história. Fica com ela ou acha outra pessoa que a compre, respondeu com um pouco de desconforto.
Gerardo foi a gota d'água que faltava para eu terminar as minhas aventuras como ini mini micro nano empresário. Tudo começava e terminava da mesma maneira. A pessoa tinha que se sentir com muita vantagem em cima de mim, e eu não conseguia mentir. Só uma vez, com uma câmera Yashica, um cliente falou que viria em casa tomar meus equipamentos. A câmera quebrou no transporte, acho eu. Bem, tô até hoje esperando ele aparecer. Deve ter esquecido. Já se passaram nove anos, né? Ninguém atualmente tem memória de elefante.
Ser microempresário nunca foi das coisas que mais gostei na Holanda. Traumas, quantos traumas. Clientes que me ofereceram três trabalhos fotográficos e só pagaram dois. A demolição de um edifício no qual entrei sem sapato de proteção, onde um dos peões me ligou avisando que iam implodir o prédio inteiro no dia seguinte. Que trollada. E eu acreditei, pode? Jantares com comida vegana de gosto estranho de papel — e olha que eu tinha que fotografar os anfitriões satisfeitos. Difícil.
Pra ser franco, eu até gostava dessas desventuras. E esse desastre todo era dividido em três setores: correspondências, serviços fotográficos e compra e venda de câmeras. Simples!
O dia tinha sua própria lógica: das 8h30 às 10h30, entrega de correspondências para empresas, tudo de bicicleta. Depois um longo intervalo — almoço, cafezinho, o mundo. À tarde, das 15h às 18h, as câmeras e, quando aparecia, um trabalho fotográfico lá ou cá. Um a cada dois ou três meses, por algum projeto na cidade. As câmeras eram o que me davam mais satisfação. Até o ignorante do meu contador aparecer em casa achando que eu estava desviando dinheiro.
— Quantas câmeras você tem realmente?
— Em estoque, mais de 52. Por quê?
— Onde você guarda o dinheiro delas?
— Na minha conta bancária. Por quê?
— Mesmo?
— Sim. O que você pensa que eu sou?
Marcel Cesco Rezzia, quanta ignorância. E muitos diziam que isso era uma das virtudes dele. Direto. Eu o achava mal-educado. Uma vez cometeu um erro que me custou caro demais. Calculou meu imposto de qualquer jeito — estava de saco cheio, era visível. Resultado: uma multa salgada que me forçou a fechar a empresa para pagar tudo de volta.
— Vocês deveriam ter guardado um dinheiro extra, não acham?
Falou a minha esposa numa das nossas últimas conversas sobre o assunto. Daí eu, o ini mini nano micro empresário, tive que botar sebo nas canelas. Pagar aquela quantia em menos de seis meses. E pior: consegui, acreditam? Me admiti numa empresa e os três primeiros salários foram direto para quitar a dívida. Na última parcela, jurei por Deus que nunca mais abriria uma empresa. Autônomo nunca mais.
Um dia, caminhando pelo armazém onde trabalhava, um sujeito veio até mim e disse:
— Você não era aquele cara que ficava pra lá e pra cá de bicicleta na cidade e de vez em quando estava com uma câmera?
— Eu mesmo. Por quê?
— Como você ganhava grana com aquilo?
Respondi de forma educada. Ele não acreditou nem na metade. Daí resolveu me explicar o trabalho dele como autônomo: detetive.
— Acho várias encrencas no Facebook! Tenho um software que rastreia a conta bancária das pessoas.
— Mesmo?
Ele me explicou tudo com detalhes e saquei que era mentira. Essa figura merece crônica própria — mas isso fica para outro dia. Voltemos ao Gerardo. O dinheirão que tinha na conta vinha do emprego da mulher. Só que ele se orgulhava como se tivesse construído tudo sozinho. Ele mesmo teria montado aquele "império".
Sim, ele aparecia do nada. Tocava a campainha só pra bater papo — ou assim dizia. Não era bem assim. Ele entrava só pra ver o que a gente tinha lá dentro. E Gerardo, diga-se de passagem, se dizia Punk, marxista anti-materialista. Um dia parou de aparecer. Sem explicação, sem despedida. Sumiu como sumem as pessoas que nunca estiveram de fato presentes. Papo furado, afinal. Acho que quem era anti-matéria era eu — pelo fato de a grana entrar e virar pó em segundos. Mas pelo menos eu não precisava mostrar o saldo pra ninguém.
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