Tudo tem um final só a salsicha tem dois (Parte 1)
Analice percebeu o fim antes de vê-lo. Não houve anúncio, não houve vinheta, não houve o tipo de fanfarra que a redação tanto amava quando precisava chamar de “encerramento” aquilo que era só cansaço. Houve, primeiro, uma mudança no ar. Depois, uma quietude estranha, dessas que não trazem paz, apenas a suspeita de que alguma coisa foi desligada no andar de cima.
Ela estava de volta a um corredor de fios e luzes, mas agora o corredor parecia menos um caminho e mais uma lembrança mal editada. As paredes de vidro tremiam com reflexos de telas antigas. Em cada uma, uma manchete viva piscava, respirava e se repetia como um hábito ruim. O Coelho-Âncora corria ao longe, atrasado para um bloco que já tinha passado. A Rainha das Más Notícias não estava mais em seu trono; restava dela apenas o contorno de uma ordem antiga, como uma coroa esquecida sobre uma mesa de corte.
Analice passou a mão pela parede e sentiu calor.
— Então era isso — murmurou. — A redação não era um lugar. Era um jeito de prender o mundo dentro de uma urgência sem fim.
A voz do Gato do Auditório veio de algum lugar entre o chiado e a memória.
— E você só percebeu agora porque finalmente parou de correr.
Ela tentou responder, mas o corredor abriu-se diante dela em uma sala circular. Era impossível não reconhecer o formato: o mesmo salão das primeiras quedas, o mesmo espaço onde as portas em forma de televisão aguardavam notícias como bocas famintas. Só que agora havia algo diferente. A mesa do centro estava vazia. Não havia folhas vivas. Não havia manchetes pulsando. Apenas um papel branco, limpo demais para aquele mundo.
Analice se aproximou.
No papel, escrito à mão, havia apenas uma linha:
VOLTE AO INÍCIO.
Ela sorriu sem alegria.
— Claro. O final sempre quer parecer começo, não é?
O Gato surgiu sobre uma das televisões, só sorriso e uma sombra de paletó.
— Não. O que gosta de parecer começo é a máquina. Ela precisa fingir que ainda há novidade para o ciclo continuar.
Analice encarou o papel branco. Não havia nada nele, e justamente por isso parecia mais ameaçador do que qualquer manchete. Ela lembrou do primeiro tombo, da primeira queda, da primeira frase que a jogara para dentro daquele mundo. Lembrou do susto inicial, da curiosidade, da arrogância de quem ainda acha que consegue sair de uma história só porque entendeu a lógica dela.
— Se eu voltar, tudo recomeça? — perguntou.
— Se você voltar, tudo continua — respondeu o Gato. — Recomeçar é o nome educado que os finais dão para a própria falência.
Ela sentou-se na borda da mesa. O corredor inteiro parecia respirar com ela.
— E se eu não voltar?
O Gato olhou para as televisões, que agora exibiam apenas estática.
— Então alguém vai escrever você de novo. E provavelmente pior.
Analice ficou em silêncio. Em algum ponto do salão, uma sirene distante quis começar e desistiu antes da metade. O som morreu no ar como uma notícia sem editor.
A fresta
Foi então que ela percebeu uma fresta no chão. Pequena, quase invisível, entre duas placas de azulejo. Dela saía uma luz pálida, branca demais para ser luz de estúdio. Abaixou-se e espiou. Havia ali embaixo não um porão, mas outro corredor. E nesse outro corredor, outro salão. E nesse outro salão, a mesma mesa. E sobre essa mesa, outra Analice, ou a promessa dela, ou talvez só a ideia de que tudo isso ainda não tinha terminado.
— Eu já estive aqui — disse, e não era pergunta.
— Sim — respondeu o Gato. — E foi por isso que veio parar de novo.
O chão estalou. As paredes pareciam ajustar-se, como se a própria arquitetura quisesse admitir a verdade: aquele lugar não era um destino, mas um circuito. Um mecanismo de retorno. Um editorial que nunca fecha porque sempre encontra um modo de voltar à primeira linha.
Analice respirou fundo.
— Então o livro não acaba.
O Gato abriu mais o sorriso.
— Acaba sim. Só que não para você.
A decisão
Do outro lado do salão, o Coelho-Âncora reapareceu, agora mais lento, quase cansado. Consultava o relógio, mas o relógio, pela primeira vez, parecia não ter pressa.
— Estamos atrasados — disse ele, com menos pânico do que costume. — Muito atrasados.
— Para quê? — perguntou Analice.
O Coelho olhou para ela com um ar quase humano.
— Para o que quer que venha depois da última página.
Ela levantou-se devagar. O papel branco continuava sobre a mesa, esperando uma frase que o completasse. Ou talvez esperando apenas que ela admitisse que nenhum final é definitivo quando o jornalismo insiste em transformar tudo em retorno, repetição e fechamento malfeito.
Analice olhou para o salão, para as portas-TV, para o chão de papel, para o sorriso suspenso do Gato.
— Então escrevam o que quiserem — disse. — Eu já entendi o truque.
— E qual é? — perguntou o Gato.
Ela deu de ombros.
— Que sair daqui talvez seja só uma maneira elegante de voltar.
O Gato riu baixo, satisfeito.
As televisões começaram a piscar. Não com manchetes, mas com a primeira cena de novo: a queda. O vazio. O papel amassado. O salão circular. A mesa. As folhas vivas. Tudo retornando como se a história tivesse dado meia-volta para fingir que ainda estava indo adiante.
Analice sentiu o chão ceder sob os pés.
Dessa vez, no entanto, ela não caiu em desespero. Caiu com a estranha serenidade de quem já conhece o terreno e, mesmo assim, aceita a queda porque sabe que é assim que o mecanismo se mantém.
E, enquanto despencava, ouviu o Gato dizer, muito ao longe:
— Agora sim, minha cara. Você está no começo.
[continua....]
Reacties
Een reactie posten