Analice no País das Más Notícias- Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Parte 1 1/3)
Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Parte 1/3)
Analice escolheu a porta sem escolher. Foi mais um deslize do corpo do que uma decisão da consciência. No instante em que tocou a maçaneta, o corredor fez um ruído de papel amassado e se desfez como notícia corrigida tarde demais.
Do outro lado, havia uma sala estreita, comprida e baixa, que lembrava uma redação em dia de fechamento, só que vista por dentro de um microfone. As paredes eram forradas de recortes sobre recortes, manchetes em camadas, frases repetidas até perderem o sentido, e cada frase parecia ter sido publicada por uma versão ligeiramente mais nervosa da mesma pessoa.
No centro, uma mesa pequena. Em cima dela, uma salsicha repousava como se fosse um objeto sagrado ou uma ameaça.
— Ah, ótimo — disse Analice. — Agora o mundo me oferece uma linguiça metafísica.
A salsicha abriu um olho. Depois o outro. Não tinha braços, nem pernas, nem moral, mas possuía um olhar cansado de quem já tinha sido virada em estatística.
— Não me subestime — disse ela. — Sou uma salsicha de terceiro grau.
— Terceiro grau de quê?
— De importância, de cozimento e de culpa. Depende do plantão.
Analice puxou uma cadeira, mas a cadeira recusou o gesto e virou um banquinho de intervalo. Sentou-se mesmo assim.
— Então é aqui que eu vim parar?
— Não exatamente. — A salsicha pigarreou com dignidade. — Aqui é o lugar onde o final ensaia seu próprio teatro. Você ainda está entre o quase e o já foi.
— E isso não é o fim?
— Para o jornalismo, nunca. O jornalismo não conhece fim; conhece fechamento.
A palavra ficou suspensa no ar como um holofote com febre.
Analice olhou em volta. Havia, nas paredes, pequenas janelas, e em cada janela aparecia um fragmento de coisas simples demais para merecer destaque: uma pessoa lavando louça em silêncio; um homem amarrando o sapato antes de sair; uma mulher olhando pela janela e não encontrando nenhum drama. Cada cena parecia prestes a ser cortada por alguém, mas nunca era. Talvez ali o corte tivesse se cansado.
— Isso aqui parece um intervalo — disse ela.
— Exato. — A salsicha inclinou-se um pouco, o que foi um esforço grande para um corpo sem articulações. — E todo intervalo é uma forma educada de esconder que ninguém sabe como terminar.
A porta atrás de Analice desapareceu. No lugar, surgiu uma fita de teleprompter pendurada no teto, balançando com a lentidão de uma cobra de escritório. Nela, lia-se:
“NO PRÓXIMO BLOCO: A VERDADE, OU ALGO PARECIDO COM ELA.”
— Muito ousado — comentou Analice.
— Muito perigoso — respondeu a salsicha. — Verdade costuma derrubar audiência e até mobília.
Lá fora, ou talvez dentro da própria parede, ouviu-se a voz do Gato do Auditório:
— Ela já está entendendo. Isso é sempre o começo do transtorno.
Analice não o viu, mas respondeu mesmo assim:
— E você, como sempre, aparece quando ninguém pediu.
— Claro — disse a voz. — É a minha função editorial.
A salsicha se mexeu sobre a mesa e um pequeno compartimento se abriu em seu lado. De lá saiu um bilhete dobrado em quatro, depois em oito, depois em algo tão miúdo que parecia uma opinião.
Analice pegou o papel.
Nele estava escrito:
“Se o final for grande demais, corte. Se for pequeno demais, publique. Se for verdadeiro demais, negue.”
Ela leu duas vezes, depois três. Não por falta de entendimento, mas porque a frase tinha o cheiro moral de toda redação que já vira a vida passar e ainda assim preferira o título.
— Quem escreveu isso?
— Ninguém — respondeu a salsicha. — É por isso que funciona.
Analice passou o dedo sobre o papel. Sentiu uma espécie de tristeza sem história, o tipo de tristeza que não pede consolo porque sabe que está sendo usada como método.
— Então o que você quer de mim?
A salsicha fechou o olho esquerdo, depois o direito.
— Nada. O problema é justamente esse. Ninguém quer mais nada de você. Estão apenas tentando decidir qual versão sua cabe no último quadro.
Nesse instante, as paredes começaram a se mover. Não como portas secretas, mas como páginas folheadas por uma mão invisível. Uma a uma, as janelas mostravam versões diferentes do mesmo instante: Analice caindo; Analice olhando; Analice no primeiro salão; Analice em tamanho de formiga; Analice enorme demais para caber no enquadramento. Todas ela. Nenhuma inteira.
— Isso é tortura? — perguntou.
— É edição — respondeu a salsicha. — Bem pior.
O Gato do Auditório voltou a falar, agora com uma certa delicadeza, como quem percebe que a brincadeira chegou perto demais do osso.
— Há uma coisa que você ainda não viu.
— O quê?
— O final final. O que não encerra, só justifica a repetição.
A sala tremeu. A mesa recuou alguns centímetros. A salsicha pareceu encolher de propósito, como se pressentisse que a conversa se aproximava de uma porta que ainda não devia ser aberta.
— E onde fica isso? — perguntou Analice.
O Gato riu de longe.
— No mesmo lugar em que começa tudo.
Analice ficou imóvel. Pela primeira vez em muito tempo, não tentou adivinhar o caminho. Apenas ouviu. E, no silêncio, percebeu um som quase infantil, quase ridículo: um pequeno tique-taque vindo de baixo da mesa, como se o próprio final estivesse aprendendo a andar.
E então, bem devagar, a salsicha disse:
— Agora falta só um terço.
[Continua...]
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