Há semanas em que a vida inteira cabe num calendário de exaustão. Não é uma impressão: é uma arquitetura. A escala 6x1 não é apenas um arranjo técnico de dias e folgas; ela é uma forma de organizar o tempo social de modo que o trabalhador exista quase sempre para repor energia suficiente ao turno seguinte. Defender o 5x2 — ou imaginar o 4x3 como horizonte — é, portanto, menos uma exigência de conforto do que uma disputa pela própria humanidade do tempo. Para mim, esse debate não nasceu de uma abstração. Veio de memória. Trabalhei no laboratório de eletrônica de uma faculdade, no Brasil, em jornada de segunda a sábado — com a graça quase litúrgica do sábado de meio período. Havia ali uma espécie rara de equilíbrio entre tarefa e pensamento. Montávamos experimentos com os alunos, discutíamos conteúdos técnicos com alguma calma, e eu frequentemente descobria que muitos deles conheciam o ofício melhor do que eu. Era isso que tornava o trabalho formativo: a possibilidade de não ...
Era um dia desses qualquer. Uma tarde como essas qualquer. A campainha tocou e era Gerardo. Seu cabelo de cientista maluco e sua voz ultra acelerada me diziam algo: queria reclamar, porém não sabia como. Seu sorriso amarelado trazia nos seus ombros uma câmera Polaroid. Eu era vendedor da marca. Meus últimos meses como microempresário foram vendendo fotos instantâneas. Apenas da marca Polaroid. O ano era 2016 e eu já estava fazendo aquilo há cinco anos. Os primeiros meses comecei com as mais caras — da minha própria coleção —, depois terminei vendendo as mais baratas. Que até aquele dia saíam, e muito bem, obrigada. Gerardo era uma figurinha fácil na minha casa. Estudava numa escola na esquina e nas pausas passava só pra dizer oi ou falar alguma coisa. Numa dessas conversas rápidas, mostrei a ele um lote que havia comprado numa feira em Liège, na Bélgica. Se encantou com uma câmera que eu tinha acabado de testar. Ficou mais louco do que já era. Semanas depois voltou com uma ...