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O que é o pobre de direita? (por Frederico Ileck)

Moro na Holanda há muitos anos — quem acompanha meus artigos por aqui já sabe disso. Mas, nos meus primeiros tempos no país, meu interesse pela política local era quase nulo. E olha que meus únicos meios de comunicação naquela época eram o rádio e a TV. Tinha dias em que eu ficava horas assistindo ao canal Politiek 24 , acompanhando uma galeria de personagens no palanque: Joop Cohen, Alexander Pechtold, Femke Halsema e Geert Wilders. Para minha surpresa, eu entendia grande parte do que esse último falava. E olha que meu holandês era fraquíssimo na época, mal conseguia segurar um diálogo de trinta minutos. Meu interesse por política aumentou justamente por conta desse nó na minha cabeça: como é que eu, com um vocabulário tão limitado, conseguia entender perfeitamente um parlamentar de extrema-direita? ​Até que um dia, em 2017, comentei isso com um colega. Ele trabalhava como assessor político e me pediu ajuda para fotografar uma campanha. Eu já morava no país h...
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O mercado financeiro quer que você literalmente morra antes de se aposentar, só isso! (por Frederico Ileck)

Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno, o noticiário econômico brasileiro amanheceu com uma palavra rara na editoria de finanças: EUFORIA . O Valor Econômico descreveu um pregão de comemoração depois que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, e o G1 explicou que os investidores passaram a considerar mais provável uma troca de governo e uma mudança na condução das receitas e despesas públicas . Não era o resultado de uma empresa, nem uma descoberta de petróleo, nem um milagre agrícola. Nada disso. Era o resultado de uma eleição — ou, mais precisamente, era o mercado recebendo bem, em nome do país, aquilo que o país ainda nem decidiu. Como assim?  No domingo de 4 de outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por 47,03% a 45,16% dos votos válidos — 56.104.503 votos contra 53.879.538, uma diferença de 2,2 milhões, a menor da história entre primeiro e segundo colocados nu...

Todo dia é um 6x1 (por Frederico Ileck)

Há semanas em que a vida inteira cabe num calendário de exaustão. Não é uma impressão: é uma arquitetura. A escala 6x1 não é apenas um arranjo técnico de dias e folgas; ela é uma forma de organizar o tempo social de modo que o trabalhador exista quase sempre para repor energia suficiente ao turno seguinte. Defender o 5x2 — ou imaginar o 4x3 como horizonte — é, portanto, menos uma exigência de conforto do que uma disputa pela própria humanidade do tempo. Para mim, esse debate não nasceu de uma abstração. Veio de memória. Trabalhei no laboratório de eletrônica de uma faculdade, no Brasil, em jornada de segunda a sábado — com a graça quase litúrgica do sábado de meio período. Havia ali uma espécie rara de equilíbrio entre tarefa e pensamento. Montávamos experimentos com os alunos, discutíamos conteúdos técnicos com alguma calma, e eu frequentemente descobria que muitos deles conheciam o ofício melhor do que eu. Era isso que tornava o trabalho formativo: a possibilidade de não ...

O ini mini micro nano empresário (por Frederico Ileck)

Era um dia desses qualquer. Uma tarde como essas qualquer. A campainha tocou e era Gerardo. Seu cabelo de cientista maluco e sua voz ultra acelerada me diziam algo: queria reclamar, porém não sabia como. Seu sorriso amarelado trazia nos seus ombros uma câmera Polaroid. Eu era vendedor da marca. Meus últimos meses como microempresário foram vendendo fotos instantâneas. Apenas da marca Polaroid. O ano era 2016 e eu já estava fazendo aquilo há cinco anos. Os primeiros meses comecei com as mais caras — da minha própria coleção —, depois terminei vendendo as mais baratas. Que até aquele dia saíam, e muito bem, obrigada. Gerardo era uma figurinha fácil na minha casa. Estudava numa escola na esquina e nas pausas passava só pra dizer oi ou falar alguma coisa. Numa dessas conversas rápidas, mostrei a ele um lote que havia comprado numa feira em Liège, na Bélgica. Se encantou com uma câmera que eu tinha acabado de testar. Ficou mais louco do que já era. Semanas depois voltou com uma ...

Você é mesmo brasileiro? (por Frederico Ileck)

“Você é mesmo brasileiro?”, perguntou uma colega, espantada, com as mãos sobre os meus ombros e os olhos cravados nos meus. “Sou, respondi. E qual é o problema?” Ela se levantou e foi para a sala de reuniões com as outras colegas, onde avaliavam os candidatos. Era uma terça-feira, e eu participava, pela primeira vez, de uma seleção interna numa multinacional de móveis. O objetivo era simples: tornar o produto da empresa ainda mais atraente ao consumidor. Os preços eram baixos, mas a qualidade era duvidosa. Eu via isso todos os dias no processo logístico. Com frequência, um colega derrubava um pallet. A facilidade com que aquilo quebrava era inacreditável. “Nem esquenta. Esse aqui é barato demais. Ainda bem que não é um dos modelos de ponta”, dizia ele, sorrindo de orelha a orelha. Foi ali que comecei a olhar com mais criticidade para a qualidade daqueles móveis, mesmo antes de entrar na empresa. Nos primeiros meses na Holanda, compramos guarda-roupas, cama, mesa e banho nes...

Analice no País das Más Notícias - Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Final dos Finais, finalmente)

Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Final dos Finais, finalmente) O tique-taque sob a mesa cresceu até virar rumor, depois batida, depois a certeza incômoda de que alguma coisa ali embaixo estava tentando nascer de novo. A sala inteira pareceu prender a respiração. As janelas nas paredes, que exibiam fragmentos de vidas discretas, começaram a tremer como se soubessem que o centro da história estava prestes a dar meia-volta sobre si mesmo. Analice se levantou devagar. A salsicha, agora muito séria para um objeto tão absurdo, olhava para ela como quem assiste à última cena de um programa repetido há décadas. — É aqui? — perguntou Analice. — Sempre foi — respondeu a salsicha. O Gato do Auditório apareceu no alto da parede, só o sorriso, suspenso como uma última observação editorial. — O truque do final — disse ele — é fingir que chega tarde. Assim ninguém percebe que ele já estava esperando desde a primeira página. Analice olhou para a porta. Ou melhor: pa...