“Você é mesmo brasileiro?”, perguntou uma colega, espantada, com as mãos sobre os meus ombros e os olhos cravados nos meus. “Sou, respondi. E qual é o problema?”
Ela se levantou e foi para a sala de reuniões com as outras colegas, onde avaliavam os candidatos. Era uma terça-feira, e eu participava, pela primeira vez, de uma seleção interna numa multinacional de móveis. O objetivo era simples: tornar o produto da empresa ainda mais atraente ao consumidor.
Os preços eram baixos, mas a qualidade era duvidosa. Eu via isso todos os dias no processo logístico. Com frequência, um colega derrubava um pallet. A facilidade com que aquilo quebrava era inacreditável. “Nem esquenta. Esse aqui é barato demais. Ainda bem que não é um dos modelos de ponta”, dizia ele, sorrindo de orelha a orelha.
Foi ali que comecei a olhar com mais criticidade para a qualidade daqueles móveis, mesmo antes de entrar na empresa. Nos primeiros meses na Holanda, compramos guarda-roupas, cama, mesa e banho nessa mesma loja. A conta deu 250 euros. “Baratinho”, disse meu cunhado, enquanto nos ajudava a montar tudo em casa. Um dos guarda-roupas veio com defeito de fabricação. Isso me obrigou a improvisar com fita adesiva para evitar ter de voltar à loja reclamar. “A gente não tem carro, e esse móvel pesa uns 40 quilos. Nem dá. Monta aí e deixa quieto”, disse minha esposa. No início, tínhamos muita esperança, mas também pouca grana.
Dois anos depois, mudamos de endereço e praticamente todos os móveis comprados ali estavam aos frangalhos. Foram todos para o lixo.
A solução veio depois: móveis de segunda mão, pela metade do preço. Logo na primeira semana na nova casa, minha esposa encontrou uma pessoa em Born, a 25 quilômetros dali, fazendo uma liquidação de móveis de alta qualidade. Tudo por míseros 60 euros. Bastava achar alguém para transportar. Meu cunhado apareceu outra vez, com um micro-ônibus, e levou tudo de graça.
Hoje, em 2026, esses móveis ainda estão em casa. Firmes. Resistiram a várias mudanças dentro da antiga residência, onde moramos por 15 anos, e também à mudança para o novo endereço. Nesse intervalo, cheguei a uma conclusão simples: muita coisa fabricada por muitas empresas é feita para durar pouco. E o consumismo se alimenta justamente disso.
Voltando à entrevista: depois que a colega saiu da sala, decidi desenhar a casa pedida pelos avaliadores. O exercício era montar um apartamento de dois quartos, sala e cozinha, com móveis da empresa, considerando a situação econômica de um casal que ganhava apenas 2.500 euros juntos.
Eu havia vivido algo parecido. Por isso, resolvi responder com realismo, sem a devoção cega que a empresa parecia esperar.
Quando o tempo terminou, os outros três candidatos voltaram à sala. O primeiro apresentou um projeto de 5.500 euros. “Essa é a forma mais barata de montar uma casa pela empresa”, disse ele. O segundo montou tudo por 10 mil euros. “Qualidade. É disso que eles precisam”, afirmou, apontando para o papel com os móveis top de linha.
“Vocês têm certeza de que um casal com salário mínimo consegue fazer isso?”, perguntei. Meu colega balançou a cabeça, como se não houvesse dúvida.
“Impossível”, respondi. “Eu vivo essa situação. Se eu tivesse esse dinheiro, aplicaria em outra coisa, não em móveis dessa empresa. Colocaria só o básico. Há lugares mais baratos, inclusive por aqui mesmo. E vou provar isso.”
Peguei o lápis e desenhei a planta baixa do apartamento. Coloquei tudo o que um casal precisava de verdade: uma boa geladeira, freezer, fogão e alguns confortos básicos, como um sofá decente, uma televisão pequena, um videogame que também fazia as vezes de streaming e DVD, e um aparelho de som com toca-discos, CDs e o resto.
Tudo simples, tudo funcional.
“Se for calcular direito, não dá mais que 650 euros. É só procurar alternativas mais baratas na internet e em lojas de segunda mão. O preço cai conforme a criatividade da pessoa. E eu, como vendedor da loja, não vou empurrar algo que ela não precisa. Concordam?”, disse, encerrando a apresentação.
A resposta foi silêncio. Durou uns dez segundos, mas pareceu mais. Uma colega me olhou com indignação. O olhar dela dizia tudo: “Ele pensa como pobre, só pode.”
Ali senti algo que hoje entendo melhor. Em holandês, isso se chama “etnisch profileren”: pegar a origem da pessoa e encaixá-la, sem esforço, numa caricatura de personalidade. Eu, sinceramente, estava orgulhoso da minha apresentação. Achei que tinha sido o mais realista e o mais econômico do grupo. Pensei que seria chamado para a próxima etapa.
Quando me levantei e subi na bicicleta, senti o que já intuía: não seria chamado. De jeito nenhum.
Dois dias depois, o coordenador me ligou. Disse que a empresa não confiava em mim, porque eu não entendia corretamente o que me diziam. “Brasileiro”, naquele contexto, também queria dizer “limitado”, aos olhos deles.
No fim, contrataram um rapaz recém-formado em marketing. A apresentação dele foi sofrível, sem exagero. Mas ele dizia exatamente o que os gerentes queriam ouvir. Três meses depois, saiu do emprego com o apelido carinhoso de estagiário. Um funcionário mais experiente do setor lhe deu esse nome: “Esse cara é um Ctrl+C + Ctrl+V ambulante. Nem sei como entrou aqui.”
Anos depois, uma das gerentes foi considerada incapaz. Foi substituída por uma russa recém-saída de um país em guerra. Meses depois, ela pediu demissão, mesmo grávida. A outra sofreu pressão parecida e também saiu, para assumir uma empresa de marketing. Descobri depois que ela nem sabia desenhar uma casinha. Estava ali apenas para representar os “valores da empresa”. Valores esses que a própria empresa descartou sem cerimônia.
Irônico, não?
Eu continuo ajudando colegas a pensar em soluções mais baratas e a lembrar que a empresa é bilionária, e nós não. “Se você comprar em outro lugar, isso nem faz cócegas no orçamento deles”, disse a um colega polonês que havia encontrado um apartamento muito parecido com o meu. Ele achou um jogo de lustres, lâmpadas e um criado-mudo de graça. A cama conseguiu em um endereço na esquina da casa dele por 50 euros. Carregou com a namorada, a apenas 100 metros de distância, pagando nem um terço do valor real.
Minha filha mais velha fez o mesmo. “Escrevi ‘grátis’ na busca do site e apareceu um sofá da empresa, que vale mais de 1.500 euros, de graça. Fui buscar com um colega, ele transportou para nós sem custo, e eu ainda arrumei um limpador a vapor com minha cunhada. Parece que saiu ontem da loja. Está lindo”, contou ela.
Estrangeiros do mundo, uni-vos. Essa é a minha motivação de agora em diante. Se o holandês não escuta porque não crê no que vem de fora, então o estrangeiro ocupa o lugar e faz melhor.
Por isso, meu caro: deixe-os bater cabeça. Faça a sua parte, principalmente se você já viveu ou vive com as mesmas limitações que eles fingem não ver. No fim, você será recompensado por isso.
Pode acreditar. É a dica de quem ainda tem fé nisso, mesmo sendo ateu.
Reacties
Een reactie posten