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Analice no País das Más Notícias- Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Parte 1 1/2)

Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Parte 1 1/2)

Analice ainda estava caindo, mas já não sabia se caía para baixo, para dentro ou para a página seguinte. O salão havia desaparecido num rasgo de papel, e agora tudo era um corredor feito de miolos de jornal, fios de antena e palavras mastigadas. Havia uma sensação desagradável de que o universo inteiro fora dobrado de modo errado por um estagiário distraído.

No meio da queda, uma placa atravessou o ar girando como se tivesse sido jogada por alguém de dentro do próprio texto:
“SAÍDA FINAL: AQUI TERMINA O QUE NUNCA COMEÇOU”

— Ah, claro — disse Analice, sem surpresa nenhuma, o que era em si uma surpresa. — Isso explica tudo.

Mas não explicava. Nunca explicava. Só servia para piorar a geometria do mundo.
Abaixo dela, uma fila de salsichas voadoras passava em marcha lenta, cada uma carregando um pequeno relógio pendurado no pescoço. Eram salsichas sérias, burocráticas, com o ar de quem tinha muito a cumprir e nada a dizer. Uma delas parou no ar, pigarreou e perguntou:
— A senhora já decidiu qual final deseja hoje?
— Como assim “qual final”? — perguntou Analice, girando no vazio. — Final é final.
A salsicha soltou um ruído que parecia risada engarrafada.
— Isso é pensamento de quem ainda acredita em linha reta. Aqui temos final de segunda intenção, final com ressaca, final de plantão e final provisório. O seu, pelo visto, está em promoção.

Outras salsichas começaram a surgir, formando um círculo ao redor dela. Umas eram curtas e gordas, outras longas e magras, como se o próprio absurdo tivesse decidido variar o peso. Todas traziam etiquetas penduradas no invólucro:
“ÚLTIMA CHAMADA”
“ENCERRAMENTO PARCIAL”
“RETORNO PROGRAMADO”
“NÃO ABRA ANTES DA MORAL DA HISTÓRIA”

Analice tentou agarrar uma delas, mas suas mãos atravessavam o corpo macio como se fosse uma manchete mal impressa.

— Vocês são o quê? — perguntou.
— O intervalo entre uma conclusão e outra — respondeu a salsicha mais fina. — Somos a prova de que o fim gosta de se dividir em porções.

Nesse instante, surgiu o Gato do Auditório, pendurado num anzol invisível, como se alguém tivesse esquecido de guardar o sorriso no armário.
— Não dê muita atenção a elas — disse, balançando no ar. — Salsichas são assim: parecem prontas, mas ainda estão sendo empurradas para dentro da realidade.

— E você? — perguntou Analice. — Está aqui para me ajudar ou atrapalhar?

— Eu? Só observo. Os que atrapalham costumam se apresentar como ajuda. Os que ajudam quase nunca chegam no horário.

Uma das salsichas abriu uma pequena tampa lateral e tirou de dentro um papel dobrado com a delicadeza de uma confissão.

— A senhora precisa escolher — disse ela. — Se aceita o final inteiro, o livro acaba de vez. Se aceita só a metade, o ciclo continua. Se aceita um terço, tudo fica mais engraçado e mais perigoso.
— E se eu não aceitar nada?

A salsicha deu de ombros, o que foi estranho, porque salsichas não têm ombros, apenas a ideia do desconforto.

— Aí a senhora vira nota de rodapé.
Analice pensou por um segundo na humilhação de ser reduzida a uma nota de rodapé num livro que já tinha sido reduzido a um ciclo. Era demais até para aquele mundo.

Lá longe, um sino editorial começou a tocar. Não era aviso de início nem de fim. Era só o som de algo sendo reorganizado por alguém que não sabia o que estava fazendo.
— Está ouvindo? — disse o Gato.
— O quê?
— O livro tentando se fechar sozinho.

O corredor então se abriu em três direções ao mesmo tempo. Em uma, havia uma porta com a inscrição: Parte 1. Na outra: Parte 1 1/2. Na terceira: Parte 1/3. Todas giravam lentamente, como se esperassem o gesto decisivo de uma leitora cansada ou de uma repórter sem mais matéria para entregar.

Analice sentiu um arrepio absurdo. Não de medo, mas de reconhecimento. Aquelas portas não levavam adiante; levavam para dentro da estrutura do próprio enredo, como se o livro estivesse se dobrando sobre a espinha até virar um animal de papel.

— Então eu posso escolher qualquer uma? — perguntou.

— Pode — respondeu o Gato. — Mas nenhuma delas vai tirar você daqui. Só muda o modo como você fica presa.
Ela riu, e o riso saiu um pouco torto, como um telex velho.

— Isso parece muito com redação.
— É porque é — disse a salsicha principal. — A redação é o lugar onde o fim se fantasia de começo para não perder assinante.

Analice olhou para baixo. O chão não era chão: era uma superfície de páginas empilhadas, cada uma com um “continua” no canto inferior. Pior: algumas já vinham com o “continua” antes mesmo do texto. Aquele mundo tinha alcançado o nível máximo de indecência literária.

— E a saída? — perguntou ela.
O Gato apontou para o alto.
— A saída é o mesmo buraco pelo qual você entrou. Mas agora ele aprendeu seu nome.
Uma rajada de vento passou, levantando manchetes, etiquetas e restos de título. Por um instante, Analice viu o salão circular do primeiro capítulo, as portas-TV, a mesa, as folhas vivas. Tudo estava lá, esperando. Não como lembrança, mas como destino mal educado.

— Eu já estive lá — sussurrou.
— E estará de novo — disse o Gato. — A pergunta é: com que cara?

As salsichas começaram a se alinhar, como um coral de apontadores de pauta. O sino editorial tocou outra vez, mais perto, mais íntimo, quase respirando. E o corredor começou a girar.

Analice fechou os olhos por um segundo, só um. Quando abriu, viu que cada uma das três portas agora tinha se multiplicado em dezenas, depois em centenas, depois em nenhuma. A arquitetura inteira se desmanchava em escolha.

E, no meio disso tudo, uma voz — talvez a dela, talvez a do livro, talvez a de uma última manchete maldosa — murmurou:
— Tudo tem um final... só a salsicha tem dois.
Analice caiu na risada. Ou na queda. Ou nas duas coisas. E o corredor, ofendido, respondeu dobrando-se sobre si mesmo, como se quisesse começar de novo.

[Continua...]

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