Analice no País das Más Notícias - Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Final dos Finais, finalmente)
Capítulo 12 – Tudo tem um final, só a salsicha tem dois (Final dos Finais, finalmente)
O tique-taque sob a mesa cresceu até virar rumor, depois batida, depois a certeza incômoda de que alguma coisa ali embaixo estava tentando nascer de novo. A sala inteira pareceu prender a respiração. As janelas nas paredes, que exibiam fragmentos de vidas discretas, começaram a tremer como se soubessem que o centro da história estava prestes a dar meia-volta sobre si mesmo.
Analice se levantou devagar. A salsicha, agora muito séria para um objeto tão absurdo, olhava para ela como quem assiste à última cena de um programa repetido há décadas.
— É aqui? — perguntou Analice.
— Sempre foi — respondeu a salsicha.
O Gato do Auditório apareceu no alto da parede, só o sorriso, suspenso como uma última observação editorial.
— O truque do final — disse ele — é fingir que chega tarde. Assim ninguém percebe que ele já estava esperando desde a primeira página.
Analice olhou para a porta. Ou melhor: para o lugar onde a porta tinha estado, porque agora só havia um recorte de luz em forma de passagem. Atrás dele, via-se a curva de um salão circular. Portas em forma de televisão. Uma mesa no centro. Duas folhas vivas. Uma enorme, berrando uma tragédia do tamanho do mundo. Outra pequena, quase invisível, dizendo algo simples demais para ter pedigree. O primeiro capítulo inteiro estava ali, aceso como uma memória que se recusa a virar passado.
Ela deu um passo.
E então percebeu o mais irritante de tudo: não estava caminhando para frente. Estava retornando.
A parede da sala começou a girar. As manchetes coladas nela se soltavam e voavam como pássaros de papel. O chão amoleceu, perdeu a firmeza de chão e virou corredor, e o corredor virou queda. Não uma queda brutal, mas aquela queda elástica, inevitável, que já conhecia o nome dela.
Analice tentou se segurar em alguma coisa — numa frase, numa borda, numa ideia — mas só encontrou o ar, que naquele mundo nunca ajudava em nada.
— Não — disse ela, não para a sala, mas para o mecanismo inteiro. — Eu já entendi.
O Gato respondeu com doçura cruel:
— Entender não é sair.
O salão circular do começo reapareceu com uma clareza ofensiva. Agora era impossível negar: era o mesmo lugar. As mesmas portas-TV. O mesmo ruído de estática. A mesma mesa no centro. As mesmas folhas vivas aguardando leitura, como se tivessem acabado de ser colocadas ali por um editor invisível que adorava piadas de mau gosto.
Analice aterrissou no chão amassado de papel-jornal. Olhou para as mãos. Estavam inteiras. Olhou para o cabelo. Um pouco desalinhado. Olhou para a mesa. As duas folhas a encaravam, uma com arrogância de manchete, outra com humildade de coisa pequena que não pede licença para existir.
Ela soube, antes mesmo de ler, que a história estava voltando ao ponto de partida.
A folha enorme dizia, como sempre, algo do tamanho de uma catástrofe.
A pequena dizia, como sempre, algo do tamanho de uma vida.
Analice sorriu, e dessa vez o sorriso não tinha espanto. Tinha reconhecimento.
— Então é assim — murmurou. — O livro me trouxe de volta para onde eu comecei.
A voz do Gato veio de todos os lados ao mesmo tempo, como um fechamento malfeito e perfeito demais.
— Não exatamente. O livro trouxe você de volta para a dúvida. O começo era só a porta. Agora você sabe que a porta também é o corredor.
Analice pegou a folha pequena primeiro. Leu.
E o ar encolheu.
Pegou a folha grande depois. Leu.
E o ar cresceu.
O salão respondeu do mesmo jeito que respondia no início, como se nada tivesse acontecido, como se os capítulos todos fossem apenas variantes de um único gesto editorial: amplificar o que assusta, diminuir o que consola. Mas Analice já não era a mesma. Ela reconhecia o truque. O mundo ainda funcionava pela lógica do grito, mas ela já sabia que a escolha de leitura era uma forma de resistência.
— Eu já estive aqui — disse.
— E estará — respondeu o Gato.
— Então nunca acaba.
— Acaba para quem cai. Continua para quem lê.
A frase pairou no ar com a solenidade de uma sentença e a insolência de uma piada ruim que, por isso mesmo, fica na memória.
Analice olhou ao redor uma última vez. As portas-TV chiavam. A mesa respirava. As folhas vivas pulsavam. O salão inteiro parecia suspenso na mesma respiração do primeiro capítulo, pronto para recomeçar sem pedir autorização a ninguém.
Ela então sentiu o chão desaparecer outra vez.
Mas, desta vez, não houve susto. Não houve resistência. Apenas a serenidade estranha de quem compreende que, naquele país, a queda não era acidente — era método.
E enquanto descia de novo, com o rosto voltado para cima e os braços abertos para o vazio, Analice ouviu a própria voz, distante e próxima ao mesmo tempo, repetindo a primeira frase de todas as frases:
— Caiu.
Depois outra vez:
— Caiu.
E outra.
— Caiu.
Até que o salão, as folhas, as portas e o riso do Gato se fundiram numa única espiral de papel, estática e notícia, e o livro, obediente ao seu próprio delírio, voltou a abrir-se no exato começo de tudo.
Reacties
Een reactie posten