Santos 1999 — Capítulo 7: Carla, Chá e Despedida
O som do teclado preenchia a sala do apartamento no Gonzaga. Carla estava sentada diante do computador, um bule de chá verde ainda fumegando ao lado. Os óculos de leitura deslizavam no nariz, e o reflexo da tela iluminava seu rosto determinado.
— Você vai longe demais nesses projetos — comentou Ivan, encostado na porta, fingindo ironia.
— Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Isso é o que eu sinto quando você está aqui. Sua cabeça sempre está naquele programa fracassado. Fica naquelas festinha noturnas movido a coisas estranhas com aquele Paulo Maluco. Cara, deixa eu terminar o que estou escrevendo, por favor, Ivan — respondeu ela, sem tirar os olhos da tela. — E você devia agradecer ao seu pai, seu ingrato. Se não fosse o talento dele, talvez nem estivéssemos conversando aqui.
Ivan franziu a testa. Na época, em 1999, aquela frase soava só como uma cutucada ou algo emnvão que ele ouvia todos os dias e nemndava bola. Agora, revivendo aquilo com a mente fragmentada de quem cruzava eras, ele entendia que era um aviso. Carla se comparava a ele o tempo inteiro, e no fundo já estava fazendo as contas de como seguir sem ele.
— Você tem coragem porque tem “paitrocínio” — retrucou o Ivan do passado, usando o sarcasmo como escudo. — Se fosse sozinha, não tinha peito pra metade dessas viagens. Qualquer um cresce assim! "Dad's bank, always here".
- Dad's bank, you arsehole. And look who's talking. You heard me loud and clear, you stoned piece of shit - respondeu em um inglês fluente - Radialista que nem sabe pronunciar "always". Ivan.. sai... sai.
Carla enfiou os olhos na tela, exibindo um sorriso irônico — o maldito sorriso enigmático que Ivan apelidara de Gata da Alice. Ela tentou responder com educação, mas aquela resposta havia pego ele no contrapé. Porém Carla continuou com sua voz era afiada:
— Você confunde coragem com dinheiro, Ivan. O que me move é outra coisa. Tá vendo isso aqui? Uma aldeia no meio da Amazônia, isolada. Descobriram recentemente. Já me pautaram sem eu perguntar nada, pois sabem que eu vou. Sabe o que é isso? Competência! São as coisas que escrevo todos os dias, as pessoas com que eu falo e trato bem, ao contrário do senhor. Tá... eu não humilho pessoas, não íntimo, não desprezo quem gosta de mim, não conto vantagens de algo que não tenho, nada disso. Acho que conhece bem alguém que faz isso! E olha que tentei te ajudar... pô... Lembro dos poucos meses que trabalhei contigo na rádio. Já tinha noção que não daria em nada. E pior, te avisei, querido. Você e aquele Paulo Babaca! Como eu odeio aquele cidadão. Meu deus.. Agora tô em outra e tô feliz. Você que se vire! Eu te avisei. Eu te avisei...
Silêncio. O chá esfriava, o teclado parava. Ivan só enxergava, de verdade, anos depois, o que estava claro ali: Carla não estava mais com ele. Estava apenas passando pela sua vida, decidida, com data de partida.
— Sabe que vai acabar me deixando, né? — disse ele, sem coragem de olhar direto.
— Um dia tudo termina, Ivan. TUDO. E aí é cada um de um jeito. Você e seus complexos problemas e eu e a minha maravilhosa carreira. Aliás, se quiser um filho, lembre-se: estou ocupada. E tem mulher aí caçando homem. Se quiser fazer filho com outra e não comigo, nêne...
— Nem tinha pensado nisso. Eu nunca pensei nisso.
Na época, ele riu com desprezo, achando que era bravata. Agora, lembrando, percebeu: ela já estava de malas prontas. E pela primeira vez estava sóbrio para entender o que ela falava.
Reacties
Een reactie posten