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Posts uit mei, 2026 tonen

Partidos de extrema direita tem, de fato, perna curta (por Frederico Ileck)

Existe um argumento que a direita e os seus comentaristas de serviço adoram repetir com a cara mais séria do mundo: "todos mentem", "a esquerda também desinforma", "é tudo igual". É o velho escudo da falsa equivalência, usado sempre que os fatos começam a incomodar. Pois bem — a ciência acaba de furar esse escudo com dados. Um estudo publicado no International Journal of Press/Politics , assinado pelos pesquisadores Petter Törnberg e Juliana Chueri, analisou 32 milhões de tweets de parlamentares em 26 países ao longo de seis anos. Não é amostragem. Não é opinião. É uma das bases empíricas mais robustas já construídas sobre desinformação política comparada. E o resultado é inequívoco: o populismo de extrema-direita é o principal determinante da propensão a espalhar desinformação. Não a direita convencional. Não o populismo de esquerda. Não o "populismo" em abstrato. A extrema-direita radical — e ponto. Quem militou nos últ...

A Europa inventou a extrema-direita – e agora finge surpresa [por Frederico Ileck]

Por décadas, o europeu médio gostou de se enxergar como um humanista iluminado, herdeiro direto do Renascimento e da Revolução Francesa, um cidadão de democracias robustas e defensor dos direitos humanos. Mas, como uma peça de teatro com um enredo previsível, o continente agora finge espanto diante da onda reacionária que varre suas eleições. França, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia – a lista de países onde a extrema-direita cresce é longa. Mas será que esse espanto tem razão de ser? Não é como se o fenômeno tivesse surgido do nada, brotado espontaneamente das redes sociais ou dos supostos desajustes econômicos do pós-pandemia. A verdade inconveniente é que a extrema-direita europeia nunca foi uma anomalia. Pelo contrário, sempre esteve ali, camuflada sob nomes respeitáveis, adormecida nos porões da história, pronta para ressurgir. Um ninho ancestral A Europa não apenas inventou a extrema-direita moderna – ela a exportou para o mundo. Foi nos ca...

Eita Ibrahim, o acidente que não foi acaso. Foi consequência. (por Frederico Ileck)

O acidente que não foi acaso. Foi consequência. Ibrahim B. tem 63 anos, é turco e vive há 22 anos na Holanda. Esses 22 anos não trouxeram conquista, apenas peso. Por enquanto, em uma parte do corpo: o joelho esquerdo. Foi o primeiro a ceder — uma degeneração silenciosa que os laudos médicos classificam como “desgaste por esforço repetitivo” e que Ibrahim chama, quando fala sobre isso, simplesmente de um probleminha. “Nada demais, Fred... acontece quando a gente trabalha demais”, comentou em uma das nossas conversas. O mais irônico? Estava saindo de uma entrevista de emprego em uma loja que sempre frequento. Ele disfarçava a insegurança. Tentava passar firmeza ao gerente. Nos seus olhos, estava mais firme que prego na areia, como a gente fala em Santos. Senti que, a cada contrato rescindido, a cada função que seu corpo já não aguentava, havia outro posto esperando — mais baixo, mais instável, mais distante do que ele havia construído ao longo de uma vida. Foi assim que, sema...

Analice no País das Más Notícias - Capítulo 11 – A Máquina-Mãe das Manchetes

Analice no País das Más Notícias - Capítulo 11 – A Máquina-Mãe das Manchetes O tribunal não caiu como caem os prédios nos filmes, com poeira, gritos e uma música inconveniente. Caiu pior: perdeu a autoridade. E, num mundo como aquele, perder autoridade era como perder o chão, o teto, o ar e a legenda ao mesmo tempo. As cadeiras, antes alinhadas com a severidade de uma bancada de telejornal, começaram a se desfazer em tiras de papel. As sombras da plateia se levantaram, uma a uma, sem alarde. O Editor do Fim fechava a pasta com força crescente, como quem tenta prender um animal já saído da gaiola. A Rainha das Más Notícias, de pé sobre o trono rachado, olhava ao redor com a expressão de quem descobre tarde demais que o espetáculo perdeu o público para um silêncio incômodo. Analice ficou parada no centro do salão. Ao seu redor, as frases pequenas continuavam surgindo sobre a mesa: confissões, lembranças, gestos mínimos, pedaços de vida que ninguém teria chamado de pauta antes...

Meu caro Diário Capitalista Depressivo - 20.05.2026 (por Frederico Ileck)

Planeta Terra, 20 de maio de 2026 Meu caro Diário Capitalista Depressivo Hoje acordei com a sensação de estar vivendo dentro de uma música que já sabe, antes de mim, qual é o seu próprio desencanto. A frase de Raul Seixas — aquela felicidade irônica de quem "devia estar contente" porque tem emprego, carro, lar e uma coleção de pequenas garantias — volta como um espelho torto, desses que não mostram exatamente o rosto, mas o modo como o mundo nos entorta por dentro. E o mais estranho é que esse espelho não reflete só a minha vida: ele reflete o humor cansado de uma civilização que transformou a promessa de felicidade em obrigação moral. Parece cocaína, mas é só tristeza, diria Renato Russo. Não é apenas o vazio — é o vazio decorado com slogans de produtividade, autonomia, performance e gratidão. Tudo vem embalado como escolha, como se a liberdade de mercado fosse também a liberdade de sentir. Mas a verdade é que o capitalismo não quer apenas vender cois...

Analice no País das Más Notícias- Capítulo 10 – O Tribunal Perpétuo

Analice no País das Más Notícias- Capítulo 10 – O Tribunal Perpétuo O tribunal não tinha teto, porque o céu já fazia o trabalho de vigiar por conta própria. Também não tinha paredes, o que era uma gentileza arquitetônica inútil, visto que ninguém ali parecia interessado em escapar. O chão era uma redação antiga, dessas em que o café já perdeu a dignidade e o telefone toca antes mesmo de alguém pensar em atendê-lo. No centro, uma mesa longa demais, para caber o excesso de importância que se imagina quando o jornalismo resolve posar de destino. Analice entrou sem escolta, o que era raro, e sem vinheta, o que era quase um milagre. À sua volta, sentavam-se figuras severas: o Editor do Fim, o Prazo, a Colunista da Desgraça, o Especialista em Nada, o Coelho-Âncora e uma fila de sombras que podiam ser tanto jornalistas quanto leitores, o que no fundo dava na mesma, já que ali todo mundo julgava e ninguém sabia exatamente quem havia começado. No alto de um estrado improvisado com c...