Planeta Terra, 20 de maio de 2026
Meu caro Diário Capitalista Depressivo
Hoje acordei com a sensação de estar vivendo dentro de uma música que já sabe, antes de mim, qual é o seu próprio desencanto. A frase de Raul Seixas — aquela felicidade irônica de quem "devia estar contente" porque tem emprego, carro, lar e uma coleção de pequenas garantias — volta como um espelho torto, desses que não mostram exatamente o rosto, mas o modo como o mundo nos entorta por dentro. E o mais estranho é que esse espelho não reflete só a minha vida: ele reflete o humor cansado de uma civilização que transformou a promessa de felicidade em obrigação moral.
Parece cocaína, mas é só tristeza, diria Renato Russo. Não é apenas o vazio — é o vazio decorado com slogans de produtividade, autonomia, performance e gratidão. Tudo vem embalado como escolha, como se a liberdade de mercado fosse também a liberdade de sentir. Mas a verdade é que o capitalismo não quer apenas vender coisas; ele quer vender uma gramática inteira do desejo, uma forma de nomear a vida, o sofrimento e até a desistência. Um scroll infinito de coisas boas que não chegam a ser reais.
Mark Fisher me acompanha como um companheiro desconfortável nessa conversa. Reli esses dias o ensaio sobre o "Vampires' Castle": ele descreve um clima político e afetivo em que a crítica vira tribunal, a divergência vira culpa e o sofrimento alheio vira capital simbólico. O que mais me impressiona ali não é só a denúncia do moralismo, mas a percepção de que o sistema se infiltra até nas zonas onde supostamente haveria resistência. A esquerda, quando se fecha em gestos de denúncia incessante, corre o risco de reproduzir a mesma lógica que pretende combater: isolamento, competição, suspeita, excomunhão. Uma espécie de purgatório progressista onde todo mundo vigia todo mundo e ninguém consegue respirar.
Como não enlouquecer num mundo que transforma a consciência em culpa e a política em performance moral? Fisher parece sugerir que o problema não está apenas em indivíduos maldosos, mas na forma social que organiza nossos afetos. A crítica ao "Castelo dos Vampiros" é, no fundo, uma crítica ao esvaziamento da solidariedade — à substituição da luta comum por identidades rigidamente policiadas. Ele insiste que classe não é uma palavra ultrapassada; é a chave que foi retirada da porta para que continuemos batendo do lado de fora.
Há uma sensação muito contemporânea de estar sempre devendo alguma coisa. Devendo autoconsciência, devendo vocabulário, devendo pureza. Até o sofrimento precisa ser bem formulado, bem situado, bem legitimado. Se você sofre sem a linguagem certa, seu sofrimento é suspeito. Se você fala de classe, parece simplificador. Se você fala de raça, gênero e desejo sem classe, vira especialista em fragmentos. E assim seguimos, partidos em mil pedaços, cada pedaço convencido de que carrega o mapa inteiro — um quebra-cabeça que não se encaixa.
Raul, do seu jeito debochado e melancólico, já intuiu essa armadilha. O sujeito de "Ouro de Tolo" está cercado por sinais de sucesso, mas não consegue se convencer de que aquilo basta. A canção não é só um lamento; é uma recusa de se deixar enganar pela ideia de que conforto material equivale a realização. Há um veneno elegante ali: ela expõe a fabricação social do contentamento. A felicidade, nessa canção, parece um distintivo de classe média que não cura a sensação de estar errado no próprio tempo. Parece só tristeza, mas é capitalismo, meu jovem.
E isso conversa profundamente com Fisher. Em Capitalist Realism, a sensação de que "não há alternativa" não é apenas uma tese econômica — é uma atmosfera psíquica. O capitalismo não se impõe só pela força, mas pela imaginação: ele coloniza o horizonte do possível. Passamos a achar natural que o trabalho nos coma por dentro, que a ansiedade seja rotina, que o futuro seja uma dívida e que a política seja um teatro de impotências. O que Fisher ajuda a nomear é justamente essa captura do imaginário: quando até o descontentamento já vem formatado pelo sistema, resistir exige mais do que indignação — exige reconstruir a capacidade de desejar de outro modo.
Há dias em que tudo parece uma longa administração da exaustão. Acordar, responder, produzir, trabalhar, ouvir besteiras, voltar pra casa, sobreviver, sorrir um pouco, assistir um filme, ler Marx antes de dormir e calar o resto. E então chega a parte mais absurda: somos convidados a chamar isso de vida plena. O mercado adora essa encenação porque ela nos torna consumidores do próprio cansaço. Compramos pausas, compramos disciplina, compramos terapias, compramos reconciliações íntimas. Nada disso é inútil por si só, mas tudo se torna suspeito quando substitui a pergunta política pela solução privada.
No texto de Fisher, há uma imagem que fica martelando: a necessidade de sair do castelo, de abandonar a lógica da excomunhão e reconstituir formas de camaradagem e solidariedade. Eu gosto dessa imagem porque ela não pede heroísmo, nem santidade, nem pureza impossível. Ela pede um gesto mais difícil: construir laços sem transformar cada desacordo em ruptura moral. Hoje isso me parece quase revolucionário. Num ambiente onde cada discordância vira prova de caráter, saber discordar sem destruir o outro talvez seja uma das últimas artes públicas que precisamos reaprender.
Não digo isso para suavizar conflitos reais. Fisher não propõe fingir que as opressões não existem; pelo contrário, ele quer que a crítica volte a tocar a estrutura, em vez de ficar presa na liturgia da condenação individual. O ponto é outro: se a forma da crítica já reproduz a lógica de humilhação, ela perde a força emancipadora e vira apenas mais uma técnica de governo dos afetos. A moralização excessiva pode parecer radical, mas às vezes é só um modo elegante de não tocar no poder.
Talvez por isso eu tenha simpatia pelo tom de Raul quando ele encena a própria desilusão com ironia. Ele não faz da tristeza um altar, nem da lucidez uma pose. Ele ri do que dói — e esse riso não é trivial: é uma brecha. Há algo de profundamente libertador em não aceitar a felicidade prescrita como destino e em perceber que a suposta normalidade talvez seja apenas uma prisão bem iluminada.
No fundo, o que me parece mais importante — e mais doloroso — é que o capitalismo não apenas explora o trabalho; ele reorganiza a sensibilidade. Nos ensina a desejar reconhecimento onde deveríamos desejar transformação. Nos ensina a pedir visibilidade quando talvez precisemos de organização. Nos ensina a confundir expressão com ação, exposição com vínculo, opinião com política. O que está em jogo não é uma nostalgia de velhos partidos ou velhos dogmas; é a reconstrução de um "nós" que não seja apenas soma de feridas, mas capacidade de agir junto.
E então volto ao meu diário capitalista depressivo — não como pose, mas como diagnóstico íntimo de uma época que me atravessa. Carrego seus hábitos, suas linguagens, seus automatismos — e também a vontade, ainda fraca mas persistente, de não me deixar definir por eles. Talvez seja isso que restou de mais vivo: a recusa em chamar de normal aquilo que nos adoece.
Se eu fosse resumir o dia em uma única ideia, seria esta: não quero uma vida apenas administrável — quero uma vida que volte a ser imaginável. Não quero a disciplina triste do ouro de tolo, nem a culpa ritualizada do castelo dos vampiros. Quero uma política que faça sentido para o corpo e para a amizade, uma crítica que reabra o futuro, uma linguagem que não me peça que eu me humilhe para pertencer.
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