Existe um argumento que a direita e os seus comentaristas de serviço adoram repetir com a cara mais séria do mundo: "todos mentem", "a esquerda também desinforma", "é tudo igual". É o velho escudo da falsa equivalência, usado sempre que os fatos começam a incomodar. Pois bem — a ciência acaba de furar esse escudo com dados.
Um estudo publicado no International Journal of Press/Politics, assinado pelos pesquisadores Petter Törnberg e Juliana Chueri, analisou 32 milhões de tweets de parlamentares em 26 países ao longo de seis anos. Não é amostragem. Não é opinião. É uma das bases empíricas mais robustas já construídas sobre desinformação política comparada. E o resultado é inequívoco: o populismo de extrema-direita é o principal determinante da propensão a espalhar desinformação. Não a direita convencional. Não o populismo de esquerda. Não o "populismo" em abstrato. A extrema-direita radical — e ponto.
Quem militou nos últimos dez anos não precisa de estudo para saber disso. Vimos ao vivo. Vimos Jair Bolsonaro faturar eleição em cima de PDF falso, vimos Wilders transformar o medo em manchete mentirosa, vimos a AfD fabricar crises de segurança que não existiam, vimos o ecossistema bolsonarista transformar o WhatsApp em fábrica industrial de boatos. Mas agora temos os números — e isso muda o jogo político, não apenas o acadêmico.
Por quê? Porque o argumento da equivalência não é apenas desonesto: ele é, ele próprio, parte da estratégia. Quando se diz "todos mentem igual", cria-se um nevoeiro moral que favorece exatamente quem mais mente. É a desinformação sobre a desinformação em cima de mais desinformação. É mentir sobre quem mente.
O que o estudo revela com precisão cirúrgica é que o problema não está no populismo como categoria genérica — está no componente radical da extrema-direita, caracterizado pela hostilidade às instituições democráticas liberais. A mentira não é acidente nem excesso de entusiasmo: é método. É funcional ao projeto.
Hannah Arendt já nos advertia que o objetivo da propaganda totalitária não é fazer as pessoas acreditarem numa mentira específica — é destruir a própria noção de verdade compartilhada, deixar o cidadão sem chão, sem referência, sem bússola. Quando tudo pode ser falso, nada precisa ser verdadeiro. E num ambiente assim, vence quem grita mais alto.
Walter Benjamin acrescentaria a camada estética: o fascismo não governa apenas pelo medo ou pela força — governa pela espetacularização da política. A mentira viral, o meme de ódio, o vídeo manipulado são herdeiros diretos daquilo que Benjamin identificou como a estetização da vida política. Não se trata de convencer — trata-se de emocionar, de mobilizar, de criar pertencimento através da ficção compartilhada. Eu chamo isso de fascismo com wi-fi.
Desinformar, portanto, é deslegitimar — imprensa, ciência, judiciário, processo eleitoral. É preparar o terreno para o dia em que o resultado das urnas possa ser contestado com uma foto editada no celular. Não é barulho de fundo — é a estratégia central.
E o que fazemos nós, da esquerda, diante disso? Primeiro: paramos de aceitar o enquadramento da equivalência. Quando alguém vier com o "mas a esquerda também...", a resposta agora tem DOI. Segundo: levamos a sério que a batalha pela verdade é uma batalha política — não uma questão de etiqueta jornalística ou de boas maneiras nas redes sociais. Terceiro: entendemos que fortalecer as instituições democráticas — mesmo as imperfeitas, mesmo as que nos desagradam em partes — é parte da luta, porque são exatamente essas instituições que a extrema-direita mira quando mente.
Perna curta, como se diz, é característica universal da mentira. Agora temos 32 milhões de tweets para provar de quem é a mais curta.
Os dados estão na mesa. A questão agora é o que fazemos com eles.
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