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A Europa inventou a extrema-direita – e agora finge surpresa [por Frederico Ileck]


Por décadas, o europeu médio gostou de se enxergar como um humanista iluminado, herdeiro direto do Renascimento e da Revolução Francesa, um cidadão de democracias robustas e defensor dos direitos humanos. Mas, como uma peça de teatro com um enredo previsível, o continente agora finge espanto diante da onda reacionária que varre suas eleições. França, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia – a lista de países onde a extrema-direita cresce é longa. Mas será que esse espanto tem razão de ser?

Não é como se o fenômeno tivesse surgido do nada, brotado espontaneamente das redes sociais ou dos supostos desajustes econômicos do pós-pandemia. A verdade inconveniente é que a extrema-direita europeia nunca foi uma anomalia. Pelo contrário, sempre esteve ali, camuflada sob nomes respeitáveis, adormecida nos porões da história, pronta para ressurgir.

Um ninho ancestral

A Europa não apenas inventou a extrema-direita moderna – ela a exportou para o mundo. Foi nos cafés de Viena e nos salões de Paris que o antissemitismo político tomou forma no século XIX. Foi na Alemanha e na Itália que o fascismo e o nazismo se consolidaram como projetos de poder no século XX. Mesmo após 1945, quando o horror dos campos de concentração se tornou incontornável, a ideologia nunca desapareceu. Mudou de nome, reciclou símbolos, trocou camisas pardas por ternos bem cortados.

A Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, criada em 1972, foi um dos primeiros grandes projetos de reabilitação do discurso nacionalista e xenófobo, agora disfarçado de “soberanismo”. Na Áustria, o Partido da Liberdade, fundado por ex-nazistas, logo encontrou seu espaço no jogo democrático. Na Itália, Berlusconi fez do populismo de direita um espetáculo de entretenimento. No Reino Unido, o UKIP alimentou o Brexit com slogans sobre “retomar o controle” – sempre um eufemismo para restringir imigração e desmantelar direitos sociais.

Agora, com Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Geert Wilders e outros figurões da nova extrema-direita, a Europa se vê diante de um dilema cínico: finja surpresa ou encare o próprio reflexo no espelho.

Ser antifascista nunca foi fácil – mas agora está pior

A ideia de que a luta antifascista seria mais simples hoje, com as lições da Segunda Guerra ensinadas nas escolas e os horrores do Holocausto bem documentados, era uma ilusão. Ser antifascista na Europa contemporânea significa lidar com um aparato político, econômico e midiático que trabalha para normalizar a extrema-direita.

A imprensa tradicional, que deveria ser um bastião da democracia, trata populistas autoritários como fenômenos naturais, com manchetes mornas do tipo “a nova onda conservadora” ou “o desafio dos partidos tradicionais”. Governos de centro-direita não hesitam em adotar pautas xenófobas para competir com seus adversários, enquanto a centro-esquerda hesita em se posicionar com medo de perder eleitores.

Ser antifascista em 2024 significa enfrentar censura institucionalizada – não pela proibição direta, mas pela desqualificação sistemática. Qualquer denúncia contra a ascensão da extrema-direita vira um “exagero da esquerda”. Marchas antifascistas são enquadradas como “radicalismo”. O revisionismo histórico corre solto, com políticos relativizando crimes do passado e reabilitando figuras obscuras.

Os desafios são ainda maiores porque a extrema-direita aprendeu a jogar o jogo democrático. Não precisa mais de golpes de Estado ou milícias nas ruas. Basta explorar o medo da classe média, demonizar imigrantes, difundir teorias conspiratórias e vender a nostalgia de um passado que nunca existiu.


A Europa diante do próprio monstro

Enquanto alguns se perguntam como isso aconteceu, a resposta já estava escrita nas paredes. A extrema-direita não tomou a Europa de assalto. Foi convidada a entrar, passo a passo, concessão após concessão, normalização após normalização.

Antônio Gramsci chamaria isso de crise de hegemonia: o momento em que as instituições que sustentavam o consenso democrático liberal perdem a capacidade de representar, e o vácuo é preenchido por quem tem resposta simples para perguntas complexas. Não é acidente. É estrutura.

E a esquerda europeia? Em grande parte, assistiu. Quando não ficou paralisada pelo medo eleitoral, optou por uma espécie de antifascismo de vitrine – declarações solenes no 8 de maio, museus da memória, currículo escolar que lembra o Holocausto sem jamais tocar nas condições que o tornaram possível. Um antifascismo que honra os mortos mas não incomoda os vivos.


O resultado é o que se vê: uma Europa onde o discurso de Mussolini soa como "senso comum", onde deportações em massa são debatidas como política pública razoável, onde o mediterrâneo virou um cemitério administrado burocráticamente. O monstro não chegou de fora. Foi criado em casa, alimentado com décadas de austeridade, com a erosão dos direitos trabalhistas, com a promessa quebrada de uma integração europeia que beneficiaria os de baixo.

Diante do próprio reflexo, a Europa tem duas escolhas. Pode continuar fingindo espanto, como atriz que ensaia a mesma surpresa a cada ato. Ou pode finalmente nomear o que está diante dela: não uma "nova onda conservadora", não um "populismo de protesto", mas o velho fascismo com novas roupas, disputando eleições porque aprendeu que as urnas podem ser tão eficazes quanto as botas.


Reconhecer isso não é exagero de esquerda. É o mínimo de lucidez histórica que o momento exige.

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