O acidente que não foi acaso. Foi consequência.
Ibrahim B. tem 63 anos, é turco e vive há 22 anos na Holanda. Esses 22 anos não trouxeram conquista, apenas peso. Por enquanto, em uma parte do corpo: o joelho esquerdo. Foi o primeiro a ceder — uma degeneração silenciosa que os laudos médicos classificam como “desgaste por esforço repetitivo” e que Ibrahim chama, quando fala sobre isso, simplesmente de um probleminha. “Nada demais, Fred... acontece quando a gente trabalha demais”, comentou em uma das nossas conversas.
O mais irônico? Estava saindo de uma entrevista de emprego em uma loja que sempre frequento. Ele disfarçava a insegurança. Tentava passar firmeza ao gerente. Nos seus olhos, estava mais firme que prego na areia, como a gente fala em Santos.
Senti que, a cada contrato rescindido, a cada função que seu corpo já não aguentava, havia outro posto esperando — mais baixo, mais instável, mais distante do que ele havia construído ao longo de uma vida. Foi assim que, semanas antes, chegou àquele trânsito. E foi assim que o freio não chegou. Da própria história dele, nada parou a tempo.
O joelho falhou. O carro não parou. E o sistema, que já o havia empurrado para a marginalidade silenciosamente, anos antes do impacto, apenas assistiu.
É tentador chamar isso de má sorte. É mais honesto chamá-lo pelo nome que Friedrich Engels escolheu em 1845: assassinato social. Escrevendo sobre a Manchester industrial, Engels descreveu como o capitalismo não precisava de intenção para matar — precisava apenas de indiferença estrutural. O corpo do trabalhador era uma peça. Quando a peça falhava, era substituída. O que restava do homem não era problema do sistema; era problema do homem.
Cento e oitenta anos depois, a linguagem mudou. Falamos agora em “flexibilidade”, em “recolocação”, em “perfil incompatível com a função”. O resultado é o mesmo: o descarte. E o descarte, quando sistemático, é uma forma de violência que não deixa marca visível, porque nunca levanta a mão.
Antes de Ibrahim acertar em cheio a traseira de um carro, ele havia trabalhado anos na linha de produção da Nedcar, verificando freios na pista de testes da empresa. “Testava os carros que iam ser lançados meses depois. Eu podia fazer de tudo ali. Coordenava uma equipe, tinha pausas longas, folgas pagas”, lembrou em uma das nossas conversas.
Com o passar do tempo, tornou-se caro para a empresa. Foi demitido sem cerimônia em meados de 2009, após a crise financeira. Lembrei até de uma expressão do interior de São Paulo: “Velho que trabalha aqui é como dente. Doeu, arranca”, dizia o cozinheiro do supermercado onde trabalhei na adolescência. Anos depois, começo a entender bem essa frase. Só que eu estava no Brasil. Agora vejo isso na Holanda. Será que a Europa adota o nosso modelo de capitalismo selvagem?
O que Engels viu nas fiandeiras de Manchester — colunas curvadas irreversivelmente, pulmões escurecidos pela fuligem, crianças envelhecidas antes dos vinte anos — não desapareceu. Mudou de endereço. Hoje vive nos armazéns logísticos de Venlo, nos frigoríficos de Groenlo, nas estradas que Ibrahim percorria.
A exploração aprendeu a se vestir de contrato temporário e a assinar com o nome de uma agência de trabalho. Mas a biologia não mente: o joelho de Ibrahim conta a mesma história que os ossos das fiandeiras de 1845. O capital, escreveu Engels, não tem consideração pela saúde do trabalhador — a menos que a sociedade o force a isso. A sociedade, no caso de Ibrahim, não forçou coisa alguma.
Mas há uma dimensão que Engels, preso a Manchester, não poderia ver inteiramente. Para entendê-la, é preciso abrir o mapa.
Floor Milikowski, em Een klein land met verre uithoeken, desenha uma Holanda que muitos preferem não reconhecer. De um lado, a Randstad — Amsterdã, Utrecht, Roterdã — com seus centros de inovação, seus índices de emprego, sua autonarrativa de prosperidade. Do outro, as margens: Limburgo, Groningen, Zeeland — territórios onde os serviços públicos encolheram durante décadas de cortes orçamentários e onde o Estado se faz presente principalmente na forma de formulários e prazos.
Milikowski não faz folclore regionalista. Ela descreve uma arquitetura política: a de uma prosperidade que depende, estruturalmente, de que certas regiões permaneçam invisíveis. O crescimento do centro se alimenta do esquecimento da periferia.
Ibrahim vive nessa outra Holanda. E, quando um trabalhador imigrante envelhece ali — quando o corpo começa a cobrar o que os anos de esforço repetitivo depositaram nele — não há rede que o ampare com dignidade. Há burocracia. Há formulários. Há um sistema de seguros que cobre lesões agudas com muito mais eficiência do que cobre o desgaste lento, invisível, acumulado.
O que Milikowski revela é que a geografia não é neutra: ela decide quem recebe suporte e quem recebe silêncio. Ibrahim não estava apenas no lugar errado na hora errada. Ele estava, há 22 anos, no lugar que o sistema havia reservado para pessoas como ele.
É aqui que Engels e Milikowski se encontram. E é aqui que a história de Ibrahim deixa de ser individual para se tornar um diagnóstico.
A invisibilidade tem dois andares. No térreo, está o corpo: o joelho que se deteriora em uma função invisível para o balanço financeiro da empresa. No andar de cima, está o território: a região que não aparece nas narrativas de sucesso nacional, onde os trabalhadores envelhecem sem perturbar nenhuma estatística de crescimento.
Os cortiços que Engels descreveu em Manchester eram escondidos atrás de avenidas respeitáveis. A precariedade de Ibrahim é escondida atrás do PIB. A arquitetura mudou; o propósito é o mesmo.
E o freio? Num cruzamento perto da pequena cidade de Nuth, havia um sinal vermelho. No meio do caminho, um sinal vermelho. Um sinal vermelho que ele não esquece. Nunca.
Acertou a traseira de um veículo parado. O corpo não respondeu a um movimento simples.
“Baita prejuízo. Nem te falo”, lamentou. E não precisou falar. A expressão dele dizia o suficiente. A culpa era totalmente dele, sem dúvida. E o bolso — não só os joelhos — já doía por causa disso.
O freio que Ibrahim não conseguiu acionar a tempo é a metáfora que o neoliberalismo não encomendou, mas merece. Um sistema que exige velocidade constante — produtividade, flexibilidade, disponibilidade — e que, ao mesmo tempo, retira progressivamente do trabalhador as condições físicas de controlar o próprio movimento.
Ibrahim foi acelerado durante 22 anos. Ninguém verificou se ele ainda tinha freios.
“Um acidente estúpido, Fred. Eu já falava disso com o pessoal. Foram me empurrando para outros departamentos até me afastarem de vez, há uns meses. Agora preciso de outro emprego, porque essa aposentadoria minha não é nada. Zero. Nem sei se vou conseguir me aposentar direito assim. Esse seguro de saúde não ajuda em nada”, lamentou no nosso último encontro.
O que se exige, então, não é piedade por Ibrahim — ele não pediu piedade, e este texto não tem esse direito. O que se exige é reconhecimento. Dei adeus a meu velho colega de chão de fábrica e nunca mais o vi. Nem sei por onde ele anda e nem como está os joelhos dele. Ibrahim sumiu.
Um dia, Ulas C., filho de turcos nascido na Holanda, fez um comentário breve sobre Ibrahim: “Ele era estranho. Adorava o Erdogan e esse sistema atual turco. Acho isso um belo castigo para ele”, disse, com frieza.
Eis a santa polarização.
Será que Ibrahim diria o mesmo sobre Ulas, se estivesse doente? Não sei o que houve entre os dois. Sei apenas que Ulas o chamava de estranho e que, quando ocupava uma posição melhor, mal falava com ele — como se fosse apenas mais um árabe qualquer.
“Dou graças a Deus que ele saiu daqui”, retrucou Ulas.
“Sério?”, respondi.
Ele virou as costas e voltou a checar cargas, como faz todos os dias.
Pensei em empatia. Mas havia algo entre os dois que me escapa. Talvez, numa dessas chuveiradas da vida, venha um tipo de revelação súbita — um “shazam”. Ou talvez não.
Será que o Ulas de hoje será o Ibrahim de amanhã? Não faço a mínima ideia. E, por enquanto, prefiro não entender.
A luta de classes em 2026 não passa apenas pelo salário. Passa pelo direito ao descanso antes que o corpo o exija de forma violenta. Passa pelo direito ao território — ao acesso a serviços, a suporte, à presença do Estado em lugares que o mercado abandonou. Passa por recusar a ideia de que a prosperidade de alguns centros urbanos não é um fenômeno natural, mas o produto de uma escolha política que alguém pagou com o joelho.
Ler Milikowski à luz de Engels é entender que o acidente de Ibrahim não foi acaso. Foi o ponto final de uma frase que o sistema começou a escrever no dia em que ele assinou o primeiro contrato temporário.
A carne cedeu onde o aço pressionou por anos. E o sistema, fiel a si mesmo, registrou o evento na coluna correta: não na de custos, mas na de fatalidades inevitáveis.
Não são inevitáveis. Nunca foram.
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