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Santos 1999 (Capítulo 5 – Parte 1: Frequência e Lágrimas) - por Frederico Ileck

Capítulo 5 – parte 1: Frequência e Lágrimas

As luzes se acederam e escada rolante terminou em um corredor silencioso de hospital. As luzes brancas tremeluziam, e o odor misterioso de remédio misturava-se com o eco distante de passos. Ivan estava ali para visitar sua avó, dias antes de ela falecer, mas algo inesperado chamou sua atenção.

No canto do corredor, Ilda falava ao telefone. Seus cabelos negros caíam soltos sobre os ombros, o rosto de traços indígenas delicados, lábios suaves, olhos grandes que pareciam enxergar além do óbvio. Havia uma intensidade contida em cada gesto, e quando percebeu Ivan, seus olhos brilharam.

Ele parou, hesitou. Algo dentro dele se amoleceu aquele coração duro, petrificado e sem compaixão.  Surgiu um lado que nunca admitiria se abriu sem aviso.

— Você… — sussurrou Ilda. — Acabei de falar contigo na rádio. Como é que apareceu aqui? É você mesmo? Eu… não esperava.

— Eu também não sei explicar. Nem sei o que está acontecendo — disse Ivan, tentando soar natural. — Vim ver minha avó…

Ela desviou o olhar, entristecida, e o corredor se encheu de um silêncio pesado.

— Ela faleceu há alguns dias. Dona Sara Amabile Horovitz, não é? O senhor é neto da Dona Sara, né? Eu cuidava dela… E te vi conversando muitas vezes com ela. Não entendia nada, as vezes uma palavra ou outra, mas era lindo. Você não me notou, mas eu adorava ficar olhando vocês.

— Minha avó era uma pessoa muito especial pra mim. Tinha uma conexão raríssima com ela. Pois é... Então … você gosta ou gostava do programa? Como soube dele? — perguntou Ivan, tentando conter a surpresa.

— Eu… gosto, claro. Dona Sara só falava de você. Você era o orgulho dela. Isso me deixou muito curiosa. Ela te descrevia como um homem sensível e sincero. Te imaginei um Fabio Jr. Por isso tentei por semanas falar contigo. Ligava e nada. O turno aqui é duro, as vezes tedioso. Todo dia alguém morre. Meu único prazer é ouvir rádio. Aí achei seu programa. Há músicas e histórias loucas… mas gosto mesmo é de ouvir você. Dou risadas, principalmente com o bêbado metido a poeta.

Ivan engoliu se sentiu um pataca. Um total idiota. Ninguém jamais o havia enxergado ela assim. A enfermeira do Fabio Jr., quem diria! Ele a ignorava  e também um monte de ouvintes, mas ali, percebeu o tamanho do seu descuido. Se sentiu o ser mais desprezível do planeta.

— Eu… fico feliz que tenha gostado da música, Fabio Jr... cara pinta — disse ele, apontando para o rádio, tentando que isso explicasse algo. — Foi você quem pediu, certo?

Ilda afirmou com um sorriso de ponta a ponta.

— Sim… só queria ouvir uma música que falasse comigo. 20 e poucos anos, minha idade. Poxa, você sempre colocava Taiguara. Não entendia o porquê fazia isso.

— Pois é minha cara... Eu desisto. Não existe essa manhã que eu perseguia… Meu pedaço de universo é no teu corpo. Eu nem imaginava que um dia a música se materializaria — comentou Ivan, observando Ilda dos pés à cabeça.

Mesmo no uniforme de enfermeira, ela tinha um corpo que o fez prender a respiração. “Como não percebi isso antes?”

O silêncio que se seguiu era quase sufocante. Constrangedor. Ivan sentiu muito mais vergonha do sarcasmo que saíra sem filtro. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se um pedaço de nada. Viu o quão pequenas e sem graça eram as suas brincadeiras.

— Então… talvez a gente se encontre de novo — disse ele, quase sem pensar.

— Talvez, quem sabe — respondeu Ilda, tímida, mas com um brilho nos olhos.

No corredor frio e silencioso, algo sutil, mas intenso, os conectava. Conexão rara e bonita para os padrões do nosso radialista. Ele ficou ainda mais sem respostas. Tudo era explicável.

De repente, o rádio do corredor inicia outra música. Jorge Ben, cinco minutos, narrado por ele mesmo:

"Nã, nã, nã, nã, nã, naaaa
Pedi você
Pra esperar cinco minutos só
Você foi embora sem me atender
Não sabe o que perdeu
Pois você não viu, você não viu
Swinga swinga swinga"

No final do corredor, uma porta se abriu. Ilda desapareceu. “Queria o telefone dela… que graça”, murmurou Ivan.

Ele saiu do hospital, rua deserta, silêncio absoluto.

— Se isso é o nada, então achei — brincou, meio sério, meio irônico.

Uma placa chamava atenção:

Rua Oswaldo Cochrane, 11, apto 108
19 de abril de 1999, às 12h

— Essa é a bibóca que comprei… Que absurdo! Nem sei o que fazer com essa merda. Pode ser que nessa viagem eu consiga algo, foda-se — percebeu Ivan. A data: dois dias antes de Carla desaparecer.

A escada rolante havia sumido. A porta do hospital se fechou com um estalo. Silêncio absoluto.

— Por que nunca percebi essa Ilda? — murmurou, lembrando o olhar dela. “Eu e minha sociopatia. Um dia isso um dia me mata, ou tá me matando ou ja me matou. Caraca, toma no meu furico”.

Ivan entrou pelo que parecia uma porta, mas que se transformou em elevador. Começou a subir. Parou no décimo andar. Virou à direita e viu seu desgosto em forma de imóvel: a bibóca. Pegou as chaves, mas a porta não abriu.

Algo de muito familiar estava dentro do local. Algo surreal e real.



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