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KALL MALX E O PLANO INFALÍVEL DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS (por Frederico Ileck)

Meu caros leitores, confesso sem pudor nenhum: sou um cartunista frustrado. Não de hoje. Já tentei de tudo pra vingar nessa arte nobre e ingrata, mas o mercado, a vida e minha caligrafia, meus péssimos rascunhos conspiraram contra mim. Entretanto, tenho meus eurekas. Momentos em que o cosmo e o Walter Mercado (ligue giá) me sopra uma ideia e eu, humilde servo da inspiração, pego o lápis e faço merda!

Minha especialidade — se é que posso chamar assim — é misturar figuras monstruosas, filosóficas ou simplesmente patéticas com personagens de desenho animado. Já produzi obras que a posteridade ainda não soube apreciar: Mickey Myers (Mike Myers + Mickey Mouse); Dolly Kroeger (Dollynho seu amiguinho + Freddy Krueger); e o clássico Kall Malx (Cebolinha + Karl Marx), um filósofo revolucionário de planos Infalíveis.

Pois bem. Estava eu revisitando o passado glorioso desta república de meu deus chamada Brazilzil quando me deparei com uma pérola da Veja de outubro de 1987. Um sargento de milícias — hoje com a ocupação de presidiário — havia elaborado, naqueles tempos heroicos, um Plano Infalível do Cebolinha.

O esquema era o seguinte, e peço que releiam devagar para apreciar a grandiosidade: explodir uma represa no Rio de Janeiro para pressionar o governo a reajustar os salários dos militares.

Aqui…

Parem tudo.

Isso é luta de classes.

Isso é guerrilha armada.

Isso é, meus amigos, mais à esquerda do que muita coisa publicada no semanário desta semana.

E então a ficha caiu: quem, na história do pensamento humano, seria o guia espiritual adequado para esse plano? Quem une dialética, inconformismo salarial e uma certa falta de proporcionalidade nos métodos?

NADA MAIS NADA MENOS QUE KALL MALX.

Cebolinha com barba de profeta, chapéu de operário e um manifesto escrito com três erros de ortografia por parágrafo. "Tlabalhadoles de todos os países, uni-vos, táoquei?"

Kall Malx aparece ao sargento numa visão — entre o aqueduto de Guandu e um esboço de bomba caseira desenhado à própria mão, em papel timbrado do Exército — e proclama:

— Companlheilo! A histolia de toda sociedade é a histolia da luta de classes! E a sua luta, especificamente, é pela leposição de 60% do índice salalial! Isso não é tellolismo, é mais-valia em folma explosiva se plotestal!

O sargento, emocionado, pergunta:

— Mas Kall, o ministro vai entendê meu gesto? As coisa não são muito assim não, táoquei?

Kall Malx suspira, ajusta o charuto (a la Fidel) e responde:

— Companlheilo... o Estado é apenas o comitê que administla os negócios comuns da bulguesia. Ele não vai entendê pola nenhuma. Mas vai ficar com medo, cê tá flaquejando?

É claro que o plano não deu certo — como todo Plano Infalível do Cebolinha... perdão... Kall Malx. Os superiores souberam, a Veja publicou, e o sargento trocou a dinamite pela tribuna. O resto é, lamentavelmente, história contemporânea.

Mas a lição fica: quando um militar planeja explodir infraestrutura pública por pauta salarial, não o chamem de louco. Chame ele pelo nome correto: Chame-o de terrorista!

E segundo o ET Bilú procurem conhecimento ou comer cimento, meus caros. Até!


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