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O Brasil se digitalizou antes de se alfabetizar (por Frederico Ileck)

Entre memes e desinformação, o país da internet rápida e da escola lenta tropeça no próprio atraso
Em 2024, o Brasil contava com mais de 84% da população conectada à internet — mais de 181 milhões de pessoas com acesso à web, de acordo com o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Em contrapartida, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua ude Educação, cerca de 11 milhões de brasileiros ainda são analfabetos — o equivalente à população de Portugal. Pior: se considerarmos os semianalfabetos, que conseguem juntar letras mas não compreendem o que leem, o número salta para quase 38 milhões de pessoas, conforme estimativas do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional).
A matemática é simples e assombrosa: temos mais brasileiros conectados do que alfabetizados. A frase, que pode parecer exagerada, é uma síntese cruel do Brasil contemporâneo: um país onde o acesso à internet precedeu o acesso à compreensão. Um país onde os dedos navegam antes que a mente entenda o que se passa na tela.
A máquina da desinformação

Neste cenário, a internet se tornou ao mesmo tempo promessa e armadilha. A velocidade de propagação da desinformação no Brasil rivaliza com a de países em guerra — e não é força de expressão. Estudo do Reuters Institute publicado em 2023 apontou o Brasil como um dos países onde mais circulam fake news em redes sociais, especialmente via WhatsApp e Facebook. Campanhas de vacinação foram minadas, o censo foi desacreditado, e eleições foram contaminadas por narrativas distorcidas. Segundo o Datafolha, 34% dos brasileiros acreditam que “não dá para confiar na imprensa”, um número que cresceu justamente no vácuo da falta de letramento crítico.

Educação: o plano que nunca vingou

Não é como se o país não tivesse tido projeto. Em 1982, Leonel Brizola, ao lado de Darcy Ribeiro, arquitetou o que talvez tenha sido o plano mais ambicioso de educação pública do país: os CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública). Escolas em tempo integral, com alimentação, cultura, esporte e professores bem pagos. À época, foram chamados de “luxo socialista”. A imprensa carioca ridicularizou os custos, a elite reagiu com pânico, e o projeto morreu aos poucos, sucateado, abandonado — ainda que tenha servido de modelo para programas futuros.
Darcy, visionário e solitário, já avisava: “A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto.”

Quatro décadas depois, o resultado está aí: 78% dos estudantes brasileiros do ensino médio não atingem níveis adequados de leitura e interpretação de texto, segundo o último Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica). Em matemática, o cenário é ainda pior. Enquanto isso, as escolas particulares se multiplicaram e se sofisticaram, formando uma elite escolar à parte. Em 2023, o número de matrículas em escolas privadas cresceu 10%, mesmo com a queda da natalidade — um salto que diz muito sobre a falência da escola pública como projeto de nação.
Professor: profissão de fé

O salário médio de um professor da rede pública no Brasil, segundo o Inep, é de R$ 3.845 para jornada integral — inferior ao piso de várias categorias técnicas. Em São Paulo, maior economia do país, o valor inicial para 40 horas semanais é R$ 5.000, mas com bônus e sem garantias de valorização por mérito ou formação. O resultado é uma evasão silenciosa da carreira: faltam professores de Física, Química, Matemática e Língua Portuguesa em todo o país. Os concursos têm vagas ociosas. A juventude não quer mais ser professor — e quem já é, sobrevive entre greves, salas lotadas e desprezo institucional.
E agora, quem poderá nos educar?

Regular a internet sem censura, alfabetizar adultos com urgência e formar professores como prioridade estratégica nacional. Essas são medidas mínimas. A Alemanha, por exemplo, tem uma política nacional de combate à desinformação aliada à educação midiática desde o ensino fundamental. A Estônia, referência mundial em digitalização, só lançou seus programas online depois de garantir 100% de alfabetização funcional e digital.
No Brasil, talvez seja hora de adotar uma moratória tecnológica na educação até que o básico esteja garantido: criança na escola, professor valorizado, aula com conteúdo, merenda no prato, e leitura fluente. Só então os dedos que hoje rolam timelines sem entender o que leem poderão acessar, com sentido, o mundo digital que já está em suas mãos.

Até lá, seguiremos conectados — e desconectados de nós mesmos.
Referências bibliográficas e estatísticas

Alfabetização e Educação no Brasil

IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua: Educação) https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/educacao/(Dados sobre analfabetismo e escolaridade no Brasil, atualizados até 2023)

INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional (Ação Educativa e Instituto Paulo Montenegro) http://www.acaoeducativa.org.br/(Estudos sobre letramento funcional no Brasil)

Saeb – Sistema de Avaliação da Educação Básica (Inep/MEC) https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/saeb (Resultados sobre aprendizagem em leitura e matemática no ensino médio)

Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeirahttps:
www.gov.br/inep(Dados sobre salários docentes e avaliações educacionais)

Digitalização e Acesso à Internet

Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) – TIC Domicílios 2023 https://cetic.br/pt/pesquisa/domicilios/(Dados sobre o acesso à internet e comportamento digital dos brasileiros)

Datareportal – Digital 2024:
Brazilhttps://datareportal.com/reports/digital-2024-brazil (Estatísticas globais de uso da internet e redes sociais)

Desinformação e Fake News

Reuters Institute Digital News Report 2023 – Brazil Country Profilehttps://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2023 (Análise sobre desinformação, consumo de mídia e confiança no jornalismo no Brasil)

Datafolha – Confiança nas instituições e percepção da imprensa (2022–2023)(Consultas pontuais em relatórios publicados via imprensa)
Histórico e Políticas Educacionais

Brizola, Leonel; Ribeiro, Darcy – Arquivos do Projeto CIEPsFundação Darcy Ribeiro: https://www.fundar.org.br(Documentos históricos, entrevistas e propostas originais dos Centros Integrados de Educação Pública)

Darcy Ribeiro – O Povo Brasileiro e A Universidade Necessária(Obras de referência para entender a filosofia educacional e crítica social de Darcy)

Educação Comparada e Política Internacional

OCDE – PISA (Programme for International Student Assessment) https://www.oecd.org/pisa/(Comparativo do desempenho educacional do Brasil frente a outros países)

UNESCO – Global Education Monitoring Report https://en.unesco.org/gem-report/(Relatórios sobre políticas públicas educacionais e acesso digital global)

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