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Analice no País das Más Noticias (prólogo - no buraco da urgência)

Prólogo – No Buraco da Urgência

Era madrugada em São Paulo.
Quer dizer: era sempre madrugada em São Paulo. A cidade, insone, respirava como máquina desregulada. Um carro acelerava lá longe, um alarme soluçava sozinho, uma ambulância rasgava a escuridão, e no ar pairava aquele motor anônimo — motor eterno — que ninguém nunca desligou, mas que gira sem parar, lembrando a todos que o mundo, ao contrário do corpo humano, nunca tem hora para dormir.

No estúdio, Analice ajeitava seus papéis com uma calma ensaiada, quase ritualística. Mas algo não estava normal: as folhas não ficavam quietas. Estalavam, viravam por conta própria, disputavam espaço, como se cada uma quisesse furar a fila e ser a primeira manchete daquele jornal. O letreiro AO VIVO piscava em vermelho furioso, como coração em taquicardia.

Foi então que a porta se abriu com um estrondo:

— URGENTE! URGENTE! URGENTE!

Um homem atravessou correndo o cenário. Vestia terno amarrotado, gravata frouxa, óculos que escorregavam nariz abaixo. Mas o que mais chamava atenção eram as olheiras: tão fundas, tão negras, que lembravam buracos de coelho... buracos onde caberiam fábricas inteiras de insônia.

O relógio em seu pulso não marcava horas: berrava horas erradas a cada segundo, trocando minutos por desastres.

— Estou atrasado para a próxima catástrofe! — gritava, tropeçando nos cabos. — Incêndio às quatro! Crise às cinco! Colapso às seis! Não há tempo para boas notícias! Parem as máquinas, parem as máquinas!

Analice ergueu a sobrancelha, paciente como quem ouve mais um breaking news absurdo.

— Senhor, isto é uma TV. Eu estou prestes a entrar no ar. Por favor… retire-se.

Ele endireitou-se num salto e fez reverência desengonçada.

— Ninguém fala assim com Roberto Coelho, o Catastrólogo!

— Catastrófago? — arriscou Analice. — Nunca ouvi falar dessa especialidade. Meu senhor, o telejornal começa daqui alguns minutos, retire-se, por favor!

O Coelho inclinou a cabeça, irônico.

— Querida, especialidades novas surgem a cada tragédia. Eu sinto cheiros de catástrofe em qualquer coisa. Até neste seu batom vejo uma substância nociva a sua saúde. Isso vai causar um tremendo problema num futuro próximo. Não me subestime. Não me subestime!

— Meu senhor, beba um copo d'água e relaxe, por favor. O Senhor deve se retirar do estúdio, comenta Analice com extrema tranquilidade.

Um assistente surgiu apavorado:

— Dois minutos! Dois minutos e estamos no ar! Tira esse maluco do estúdio!!!!

O Coelho girou em círculos, olhando para o relógio que não dizia nada — e, exatamente por isso, dizia tudo. A cada volta soltava manchetes como fogos:
— Última hora! Tragédia inevitável! Latino anuncia nova música! Vinte e cinco por cento da população vive na miséria extrema! Vladimir Puton prepara arsenal nuclear em miniatura portátil para cidadãos de bem! O próximo presidente será evangélico e satanista ao mesmo tempo! E o mundo… O MUNDO VAI ACABAR, DE NOVO! O apocalipse pegou o próximo ônibus e vai descer na estação da Sé!

O estúdio tremia a cada sentença. Analice respirou fundo, como sempre fazia antes do “boa noite” para manter a calma. Mas à medida que inspirava, a lente da câmera diante dela começou a tremer. O círculo de vidro se liquefazia, ondulando como espelho d’água. Era um portal translúcido, um telejornal que se dobrava para dentro de si mesmo.

O Coelho consultou seu relógio insensato.

— Estou atrasado… estou atrasado… A próxima catástrofe começa em três, dois, um…

E sem pestanejar, saltou para dentro da lente.
Analice hesitou. Mas percebeu que o ar do estúdio já se desfazia em fumaça de papel-jornal, e que os cabos do chão se mexiam como serpentes de parágrafo. Sem escolha, mergulhou atrás dele.

Do outro lado não havia cenário, mas um buraco vasto, um túnel construído de fitas de teleprompter. As paredes rolavam frases como cascatas de letras:

— CRISE NO PARLAMENTO EUROPEU.
— ESCÂNDALO NA CBF.
— DERROTA DO GOVERNO.
— TODO DIA UM 7X1.
— VASCO 6 X 0 SANTOS.
— NOVA EPIDEMIA À VISTA.

As palavras caíam em chamas azuis, como se fossem meteoros. Analice tentava agarrar-se a alguma. Pendeu sobre uma sílaba, escorregou em outra. No meio do despenhadeiro, vislumbrou Neymar no Morumbi, sentado sozinho e chorando.
“Tadinho… ele não merecia isso”, pensou.

E imediatamente o Coelho gritou atrás dela:

— Merecia sim! Sete vezes! Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete gols de volta! E ainda faltou um pra vingar o vexame de 2014. Toma-lhe aquilo que não passou. Seis foi pouco. 

— Que crueldade... mas com o senhor lê pensamentos?

— Aqui tudo é impresso. Ele acabou de sair ali, naquele canto. Eu consigo ler todos, minha cara. 

Desesperada, Analice continuou a queda, rodopiando entre frases soltas. R. Coelho gargalhava, sempre um passo à frente, sempre atrasado.

— URGENTE! URGENTE! URGENTE! — berrava, como se a gravidade também fosse pauta editorial.

Foi então que Analice, no meio da queda sem fim, lembrou de respirar fundo. E nesse fôlego se deu conta de algo perturbador:

— Se só há más notícias, por que ainda chamam isso de novidade?

E com essa pergunta viva dentro dela, caindo junto com palavras e catástrofes, atravessou de vez para o País das Más Notícias.
— É a lei do retorno Neymar... futebol não é tiktok, gritou Senhor Coelho.

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