Em tempos de erosões e desabamento do debate racional, quando a política se reduz a slogans e provocações virais, é fundamental revisitar a estrutura lógica dos discursos que moldam o imaginário coletivo. Entre os artifícios mais recorrentes no repertório da retórica populista contemporânea está a falácia ad hominem: o ataque dirigido não à ideia, mas ao indivíduo que a defende[*1].
Este antigo vício argumentativo, já criticado nos diálogos filosóficos, ressurge na retórica de líderes de partidos políticos, não como simples desvio, mas como estratégia deliberada de desqualificação do oponente. Em sua análise do autoritarismo, Theodor Adorno identificava esse padrão como típico de personalidades que resistem ao pensamento complexo e se apegam à autoridade, à agressividade e à categorização moral do diferente[*2].
Na política brasileira contemporânea, Jair Bolsonaro representa talvez o exemplo mais explícito dessa lógica. O camisa 10 dessa prática. Ao longo de sua carreira, substituiu o embate de ideias por uma série de ataques pessoais e estereotipações: "vagabundos", "comunistas", "bandidos de toga", "cabeça de ovo", "deixa de ser canalha"— rótulos que visam ridicularizar e não dialogar. O conteúdo dos argumentos adversários raramente é abordado de forma séria: o foco está em neutralizar a legitimidade do interlocutor.
Outro caso emblemático, embora distinto em forma, foi o do falecido Enéas Carneiro, cuja retórica exaltada priorizava o impacto emocional. Ele era visto como uma piada, mesmo. Seus discursos curtos e inflamados nas propagandas eleitorais chamaram e muita a atenção. Era uma especie de "dialogo de elevador" só que ao estilo politico. Imagina você entrar em um elevador e ter um doido falando como ele? Você se assustaria, né? Bem, muita gente não. Principalmente os Bolsonaro.
Suas performances eram marcados por uma indignação teatralizada, que frequentemente deslocava o centro da crítica para figuras genéricas: "corruptos", "traidores", "vendilhões da pátria". Usava palavras totalmente antiquadas apenas para chamar a atenção. Seu discurso era vazio e populista. Embora Enéas demonstrasse domínio intelectual, sua prática discursiva apelava mais ao emocional do que ao racional.
A prática não é exclusiva do Brasil. O holandês Geert Wilders (ja comentei dele aqui), líder do Partido da Liberdade (PVV), estrutura seus discursos em torno de ataques sistemáticos à presença muçulmana nos Países Baixos. Wilders não se limita a questionar políticas migratórias — ele demoniza identidades culturais inteiras, chamando o Islã de "ideologia totalitária", comparando-o ao nazismo[*3]. Trata-se de um claro exemplo do uso da falácia ad hominem coletiva, onde se ataca o sujeito pela sua origem ou religião, e não por seus argumentos ou atos.
Fora do campo político, o uso recorrente da falácia ad hominem também se manifesta em outras esferas públicas — como no esporte, onde rivalidades deveriam se restringir à arena competitiva. Um exemplo contundente é o do tricampeão mundial de Fórmula 1 Nelson Piquet (falei aqui dele). Embora reconhecido por sua genialidade nas pistas, sua retórica fora dos cockpits foi frequentemente marcada por ataques pessoais infames contra adversários, demonstrando o uso deliberado de insultos para desestabilizar psicologicamente seus concorrentes.
Contra Ayrton Senna, por exemplo, Piquet afirmou publicamente que o compatriota era "bichinha", numa tentativa de desqualificá-lo por meio da insinuação homofóbica — um golpe que nada dizia sobre o talento de Senna, mas visava atingir sua imagem pessoal. Com Nigel Mansell, a estratégia foi similar: chamou-o de "idiota veloz" e chegou ao extremo de insultar sua esposa, dizendo que "ela era horrenda" e outraas coisas de muito baixo nível. Em relação a Alain Prost, insinuava que o francês era "covarde" e vencia apenas por ter os melhores carros. Isso fez com que Piquet fosse mais conhecido como um tremendo FDP. Ou seja, em todos esses casos, os ataques desviavam-se da análise técnica ou tática, e operavam no campo da desmoralização do outro — falácias ad hominem em sua forma mais corrosiva e destrutiva.
A psicologia social oferece chaves para compreender o apelo desse tipo de retórica. Jonathan Haidt, em The Righteous Mind, argumenta que julgamentos morais são, em grande parte, intuitivos e emocionais, e só depois racionalizados[*4]. Assim, líderes populistas — ou mesmo celebridades esportivas — que atacam diretamente o "outro" ativam respostas automáticas de repulsa ou identificação em seus públicos, desviando do esforço cognitivo que a reflexão exige.
No campo progressista, contrastando com essas estratégias, Glauber Braga (PSOL-RJ) exemplifica como é possível adotar um tom combativo sem se apoiar estruturalmente em falácias. Em embates famosos, como quando acusou Sérgio Moro (outro ser estranho) de agir como “juiz ladrão”, Braga ancorou sua crítica em uma narrativa construída a partir de decisões judiciais e evidências públicas, e não em ataques puramente pessoais ou infundados. Sua retórica é polarizadora, mas sustentada por argumentos jurídicos e políticos.
É uma distinção fundamental: enquanto o populismo autoritário utiliza o ataque pessoal como modo de despolitizar o debate e evitar o contraditório, parte da esquerda radical procura intensificar o debate ideológico, ainda que de forma veemente. Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, já alertava para os perigos dessa corrosão da linguagem pública: “O ideal do pensamento totalitário é transformar todas as questões políticas em questões morais absolutas”[*5]. Nesse ambiente, o opositor não é apenas alguém que discorda, mas um inimigo a ser destruído.
Portanto, a falácia ad hominem é mais do que um erro lógico: é um sintoma e uma ferramenta de regimes — e personalidades públicas — que desprezam a democracia deliberativa e o mérito dos argumentos. Num ecossistema de redes sociais, onde os algoritmos favorecem o escândalo e a polarização, ela se torna quase irresistível — e, por isso mesmo, precisa ser denunciada.
Reconquistar o valor do argumento, da ideia e do pensamento complexo é um dos grandes desafios da política contemporânea. E talvez o mais urgente.
Referências
[*1]: COPI, Irving M.; COHEN, Carl. Introdução à Lógica. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2001.
[*2]: ADORNO, Theodor W. The Authoritarian Personality. New York: Harper & Row, 1950.
[*3]: WILDERS, Geert. Marked for Death: Islam’s War Against the West and Me. Washington: Regnery, 2012.
[*4]: HAIDT, Jonathan. The Righteous Mind: Why Good People are Divided by Politics and Religion. New York: Pantheon Books, 2012.
[*5]: ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
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