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A banda que nunca existiu ou a volta dos que nunca foram [por Frederico Ileck]

Agora... agorinha mesmo no verão de 2025 (daqui ai é inverno), uma banda chamada The Velvet Sundown conquistou o Spotify como se já tivesse passado pelo Lollapalooza. Álbuns com capas esteticamente saturadas, timbres retrô, vocais meio... Grateful Dead (sei lá) e um ar californiano de 1969 emergiram do nada — mas com a cadência precisa de um algoritmo treinado para soar autêntico, mesmo. Pra variar viralizou! Não havia turnês, nem entrevistas, nem vídeos dos bastidores. Apenas imagens de músicos suspeitamente com cara de quem saiu do filme "Almost Famous", só isso. Porém com uma estética estranhosa. É meus caros leitores.... Nenhum deles existia. A banda também não.
A revelação de que Velvet Sundown era uma ficção gerada por inteligência artificial provocou um leve espanto — e só. O público seguiu ouvindo, f#da-se. Os algoritmos agradeceram pra valer. A indústria tomou nota. E uma questão se impôs, não tanto pelo que a banda é, mas pelo que ela não precisou ser: humana.

Walter Benjamin, no ensaio já clássico A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, alertava para o que seria a diluição da “aura” — aquela presença única e insubstituível da obra no tempo e no espaço. A reprodução técnica (fotografia, cinema, disco) retirava da arte seu “aqui e agora”. Em 2025, a questão já não é mais de reprodução. É de fabricação sem origem. Velvet Sundown não é uma cópia de algo real — é uma simulação sem original, um pastiche de estilos costurado em rede neural. Como diria Baudrillard, simulacro de terceira ordem: o real já foi substituído, e ninguém notou.
Mas se Benjamin nos deu as ferramentas para entender o esvaziamento do objeto artístico, foi Adorno quem advertiu sobre a música transformada em mercadoria. Em seu Dialectic of Enlightenment, ele denuncia a padronização da cultura de massa: refrões previsíveis, estruturas repetidas, sensações enlatadas. A música da Velvet Sundown encaixa-se perfeitamente nessa crítica — ela é, literalmente, feita para agradar. Seu sucesso talvez seja o triunfo final da indústria cultural: uma arte que se faz sozinha, para um público domesticado a gostar daquilo que mais se parece com o que já ouviu antes.
Byung-Chul Han, em A salvação do belo, fala da substituição do belo pelo “agradável”. O belo exige esforço, contemplação, até desconforto. O agradável é deglutido sem fricção. A IA, como compositora, sabe disso. Ela não arrisca. Ela calcula. Assim, Velvet Sundown nos oferece uma experiência musical perfeitamente polida, livre de falhas humanas, fraturas, ou qualquer traço que exija digestão lenta. Pumba... caímos numa armadilha! Tamo f_dido!
O mais intrigante, no entanto, foi a resposta das pessoas: ninguém se importou. A revelação de que os músicos não existiam não afetou o streaming. Talvez porque, como diria Žižek, a verdade nunca foi o problema — o problema é quando ela exige ação. Sabemos que é falso, mas fingimos que é arte. Fingindo que Leo Lins é comediante e Marina Sena é só uma gostosa fazendo cosplay de Gal Costa! (Bem, eu acho as duas um tesão) E assim seguimos... levando com a barriga meus camaradas! 

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