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O Riso Que Apodrece Ou por que Leo Lins não faria carreira em Amsterdã (por Frederico Ileck)

Leo Lins entra no palco e a plateia vibra. Há uma tensão no ar — uma expectativa quase infantil, mórbida, como quem espera um acidente em câmera lenta. O riso vem, mas com gosto de ferrugem. Suas "piadas", centradas em tragédias humanas, deficiências, doenças e minorias, não são apenas de mau gosto. Elas representam um tipo específico de desumanização com microfone. E o mais espantoso: elas lotam teatros.

É aí que mora o verdadeiro problema. Não é apenas Leo Lins. É o aplauso. É a gargalhada da plateia, o sorriso cúmplice. A psicologia social explica isso com uma precisão perturbadora: quando um indivíduo valida um comportamento desviante em grupo, o comportamento se propaga, vira norma. O riso se torna adesão. O palco vira tribunal. O público, coautor.


Esse tipo de "humor" — entre muitas aspas — não é corrosivo como sátira, mas como ácido em carne viva. Ele não satiriza o poder. Não denuncia estruturas. Ele mira o alvo mais frágil, a carne mais exposta. Reduz o outro à condição de objeto. Faz da dor um espetáculo.

Não há equívoco aqui. Leo Lins não é um comediante. É um canalha. A palavra, pesada, é justa. Canalha no sentido político, ético e moral: alguém que se vale do palco como um porrete. Que confunde liberdade de expressão com licença para humilhar. Que faz da crueldade um produto e da plateia um exército de zombadores.


Alguns comediantes brasileiros tentam equilibrar-se nesse abismo moral. Hélio de la Peña, Fábio Rabin, Rafinha Bastos — ora se dizem chocados, ora falam em “liberdade artística”. Rafinha, por exemplo, já foi pivô de polêmicas semelhantes, mas hoje parece mais preocupado em defender o direito abstrato à piada do que refletir sobre o que está sendo dito. A neutralidade, aqui, é cumplicidade.

Andy Kaufman, ao contrário, representava outra linhagem. Sua arte era desconcertante, sim — mas voltada contra o formato do entretenimento, não contra o outro. Quando leu "O Grande Gatsby" na íntegra num palco lotado, não estava insultando ninguém. Estava tensionando o pacto entre artista e público. Provocava para fazer pensar, não para humilhar. A provocação, em Kaufman, era poética. Em Leo Lins, é patológica.

Vivo na Holanda, país notório por sua tolerância. Tolerância essa que tem limites bem definidos: dignidade humana. Aqui, liberdade de expressão não cobre discurso de ódio. O artigo 137 do Código Penal holandês é claro: incitar ódio ou discriminar pessoas por deficiência, etnia, sexualidade ou religião é crime. Leo Lins não estaria apenas sendo "cancelado" na Europa — estaria sendo investigado. Preso, talvez. E com razão.

A Holanda também tem comediantes ácidos. Hans Teeuwen é um ícone do humor libertário e anárquico, às vezes desconcertante. Theo Maassen, igualmente provocador. Mas o que os diferencia é o alvo: suas críticas miram o poder, as hipocrisias da sociedade, os vícios do sistema. Nunca a criança com hidrocefalia. Nunca o amputado. Nunca quem já carrega o peso da exclusão no corpo.

Leo Lins, por outro lado, atua como um agente de banalização da violência. Hannah Arendt nos alertou sobre os perigos da "banalidade do mal" — aquela que surge quando se executa a crueldade com normalidade, com rotina, com riso. Quando o mal deixa de ser monstruoso e passa a ser entretenimento. Quando a plateia deixa de se chocar e começa a comprar ingresso.

Theodor Adorno escreveu que "o riso reconciliador é quase sempre um riso contra o riso". Ele sabia: quando o humor serve ao sistema, ele deixa de ser crítica e vira controle. Leo Lins vende um tipo de riso anestésico — o riso que silencia, que reforça hierarquias, que elimina o dissenso pela zombaria.


Baudrillard, se assistisse a um show de Leo Lins, talvez visse ali o simulacro perfeito: um falso comediante imitando a forma do humor, mas esvaziado de qualquer conteúdo libertador. Um avatar da crueldade pós-moderna. Um produto de um tempo onde tudo pode ser monetizado — até o sofrimento.

E o público que ri? É parte do problema. O teatro cheio é um espelho — não apenas do comediante, mas da sociedade que o sustenta. Daquela que aplaude não apesar da crueldade, mas por causa dela.


O humor pode — e deve — incomodar. Mas há uma diferença entre o incômodo que desperta e o incômodo que desumaniza. Leo Lins não passa dessa segunda linha. Crueldade não é coragem. Ofensa não é ousadia. Rir do outro não é humor — é covardia com holofote.

E canalhas com holofote, a História nos ensinou, nunca são apenas uma piada.




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