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“Sou descendente do Bacharel de Cananeia (ou não). E isso explica muita coisa ou nada, se é que ele existiu” [por Frederico Ileck]

Já inventei que sou parente do filósofo Uriel da Costa — e agora o alvo da minha obsessão genealógica é ninguém menos que o primeiro colonizador marginal da história do Brasil: o famigerado Bacharel de Cananeia. 

Seu nome oficial (ou pelo menos um dos possíveis) era Cosme Fernandes Pessoa. Nasceu em Portugal por volta de 1470 e, como tantos personagens fascinantes do nosso passado, foi parar nas Américas não por ambição ou aventura, mas por punição: degredado. Traduzindo para os termos de hoje, um “cancelado” do reino.

Cheguei até ele por um site genealógico. É verdade? Não sei. Mas me recuso a deixar a dúvida atrapalhar a história.

A plataforma FamilySearch traçou uma linha entre mim e ele. Pura papagaiada, mas cara... eu acho isso demais! Vamos lá: há uma linhagem que envolve nomes lusitanos, indígenas, coloniais, talvez até um pouco de ficção no meio. Mas quem disse que isso é um problema?

Descobri que ele pode ter se casado com uma indígena chamada Karay-yó Terebê. Isso por si só já o torna um personagem mais interessante que metade dos heróis oficiais dos nossos livros de história.

Cosme? Duarte? Pessoa? Peres? O Bacharel de mil nomes!

A confusão em torno do seu nome é o tipo de bagunça que deixa qualquer genealogista sério de cabelo em pé — mas para mim, isso é sinal de boa história. Alguns cronistas o chamam de Duarte Peres, outros mantêm o Cosme Fernandes. A alcunha de “Bacharel” parece até irônica: um título acadêmico para um degredado vivendo com os índios? Ou talvez ele fosse mesmo formado, e resolveu aplicar a teoria na prática — com arcos, flechas e escambo.

Ele viveu entre nativos, atuou como intérprete, comerciante, possivelmente espião, e se envolveu em confusões políticas como a Guerra de Iguape. Isso muito antes de qualquer carta de Tomé de Souza ou escudo da Coroa portuguesa fincado na terra.


A tese (sem pé, mas com muito sangue)

Minha teoria — e não preciso de muitos fatos para sustentá-la — é que sou um dos poucos brasileiros que podem traçar uma linha direta entre si e esse forasteiro que desafiou os protocolos do Império português e se meteu na selva com os pés descalços e o latim esquecido.

Se essa teoria é confirmada? Não. Se preciso de confirmação? Também não.

A verdade é que o Brasil foi forjado por personagens como esse: mistos de marginalidade, bravura, adaptação e improviso. E se eu quiser carregar isso no DNA simbólico, quem vai me impedir?


Conclusão: a beleza do “e se?”

No fim das contas, o Bacharel de Cananeia pode ter sido uma lenda, uma fusão de nomes ou um cara real com uma história incrível. O que importa é que ele representa o Brasil antes do Brasil, um território sem certezas, onde as margens — sociais e geográficas — definiam o centro.

E quer saber? Se ele está na minha árvore genealógica... é porque ele quis estar.



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