Doorgaan naar hoofdcontent

Tio Uriel, o teimoso [Fred D'Costa]

Eu adoro teorias, especialmente as teorias da conspiração. Vamos começar: o sobrenome da minha mãe é Costa e, ao longo dos anos, passou por várias variações. Acosta, A'costa, Dacosta, Costa, D'costa e Da Costa. Este sobrenome é de origem portuguesa, entratanto minha famila é  de origem italiana. Em algumas das minhas incansáveis pesquisas, achei muitos dos meus familiares na ilha da Madeira, na bela cidade do Porto. Às vezes, aparecem pessoas perdidas, especialmente em Amsterdã, onde desde o final do século XVI existe uma pequena colônia portuguesa. Uma pequena, mas importante, colônia sefardita-judaica. Com duas figuras que me intrigam e sempre me intrigaram: Baruch Spinoza e outro que gosto de chamar de "Tio". Sim, o tio Uriel da Costa. Eu sei que, segundo Spinoza, isso não é muito ético, mas deixe-me entrar na minha fantasia e, quem sabe, talvez ele seja meu parente. Nunca se sabe.
Em hebraico, na parte inferior da imagem, está escrito "דער וייאצעקסטע" (traduzido: Der Viyetsekste). Isso pode ser traduzido do iídiche como "O Expulso" ou "O Banido". O retrato que nos encara – escuro, angular, implacável – parece quase uma aparição de um homem que estava à frente de seu tempo. Os contrastes marcantes e as linhas afiadas evocam a tragédia de alguém preso entre mundos, incapaz de encontrar um lar em nenhum deles. Quando olho para esta imagem, não vejo apenas uma obra expressionista aleatória, mas o espírito de um velho conhecido: meu teimoso, inflexível, talvez até imprudente tio-figura, Uriel da Costa.

Do Porto a Amsterdã: Uma Alma Errante

Uriel da Costa nasceu por volta de 1585 no Porto, em uma família de chamados Cristãos-Novos – judeus que foram forçados a se converter ao catolicismo. Ele passou sua juventude como um católico devoto, estudando direito canônico, até que descobriu que a religião de seus ancestrais ainda ardia em seu sangue. Isso o levou a uma decisão radical: ele deixou Portugal e sua fé herdada e abraçou novamente o judaísmo.
Mas se havia algo que Uriel não podia fazer, era encontrar paz em dogmas, assim como eu. Mas eu não sou tão "radical". No entanto, ao chegar a Amsterdã, onde a comunidade sefardita aparentemente podia praticar sua fé livremente, ele logo chegou a uma nova conclusão perturbadora: a tradição judaica pouco diferia do catolicismo em sua rigidez e cegueira para o pensamento racional. Em sua obra Exame das Tradições Farisaicas (1624), ele atacou ferozmente as leis rabínicas e argumentou que o ensino judaico era apenas uma construção humana, impregnada de superstição e inconsistência.
Os rabinos de Amsterdã pensavam diferente. Sua obra foi banida, ele foi excomungado da comunidade, e seus escritos foram queimados. Mas Uriel, teimoso como era, continuou a defender suas ideias.
Muita Verdade, Pouca Misericórdia

O resto de sua vida foi uma sucessão de conflitos e solidão. Ele tentou se reconciliar novamente com a comunidade judaica, mas sob a condição de uma humilhação pública – uma cerimônia solene de excomunhão na qual ele foi açoitado na sinagoga. Esse foi o ponto de ruptura. Destruído pela hipocrisia das instituições religiosas, por seu isolamento e por seu próprio pensamento inflexível, ele acabou cometendo suicídio em 1640.

Um Precursor do Pensamento Livre

Uriel da Costa foi desprezado durante sua vida, mas suas ideias plantaram uma semente que mais tarde floresceria no Iluminismo. Sua crítica à ortodoxia e sua abordagem racional da religião anteciparam as filosofias de Spinoza e, mais tarde, de Voltaire. De muitas maneiras, ele foi um precursor trágico do secularismo moderno, um homem que chegou cedo demais para seu próprio tempo.
Talvez ele fosse teimoso. Talvez fosse muito rebelde para seu próprio bem. Mas, enquanto olho para este retrato – este rosto que poderia muito bem ser o dele –, não consigo deixar de pensar: meu teimoso tio estava certo. E ele pagou o preço mais alto por isso.



Reacties

Populaire posts van deze blog

América Invertida: A Virada de Olhar que a América Latina [por Frederico Ileck]

Precisa Reflexões sobre identidade, ancestralidade indígena e a descolonização do olhar latino-americano a partir da obra de Joaquín Torres-García.  Obra " América Invertida ", de Joaquín Torres-García, 1943 Recentemente, fiz um teste de DNA e descobri algo que mexeu profundamente comigo: 4,5% do meu sangue é indígena. Parte dessa herança vem do norte da América do Sul (Venezuela, Colombia e Equador), outra parte do Chile. E no meio desses percentuais, de dados frios e distantes, existe uma mulher cuja presença ainda ecoa, mesmo que o silêncio tenha tentado apagá-la: minha bisavó, Dona Maria Ursula Andrade . Uma gigante silenciada pela história da minha família. Uma mulher invisível aos olhos dos que preferiram contar outras versões da nossa origem. Pois é a ela que eu dedico este texto. Durante muito tempo, minha família insistiu em uma identidade que não nos pertencia. Repetia-se, quase como mantra, que nossa origem era italiana, europeia, como se isso n...

KALL MALX E O PLANO INFALÍVEL DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS (por Frederico Ileck)

Meu caros leitores, confesso sem pudor nenhum: sou um cartunista frustrado. Não de hoje. Já tentei de tudo pra vingar nessa arte nobre e ingrata, mas o mercado, a vida e minha caligrafia, meus péssimos rascunhos conspiraram contra mim. Entretanto, tenho meus eurekas. Momentos em que o cosmo e o Walter Mercado (ligue giá) me sopra uma ideia e eu, humilde servo da inspiração, pego o lápis e faço merda! Minha especialidade — se é que posso chamar assim — é misturar figuras monstruosas, filosóficas ou simplesmente patéticas com personagens de desenho animado. Já produzi obras que a posteridade ainda não soube apreciar: Mickey Myers (Mike Myers + Mickey Mouse); Dolly Kroeger (Dollynho seu amiguinho + Freddy Krueger); e o clássico Kall Malx (Cebolinha + Karl Marx), um filósofo revolucionário de planos Infalíveis. Pois bem. Estava eu revisitando o passado glorioso desta república de meu deus chamada Brazilzil quando me deparei com uma pérola da Veja de outubro de 1987. Um sargento de ...

O Brasil se digitalizou antes de se alfabetizar (por Frederico Ileck)

Entre memes e desinformação, o país da internet rápida e da escola lenta tropeça no próprio atraso Em 2024, o Brasil contava com mais de 84% da população conectada à internet — mais de 181 milhões de pessoas com acesso à web, de acordo com o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Em contrapartida, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua ude Educação, cerca de 11 milhões de brasileiros ainda são analfabetos — o equivalente à população de Portugal. Pior: se considerarmos os semianalfabetos, que conseguem juntar letras mas não compreendem o que leem, o número salta para quase 38 milhões de pessoas, conforme estimativas do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional). A matemática é simples e assombrosa: temos mais brasileiros conectados do que alfabetizados. A frase, que pode parecer exagerada, é uma síntese cruel do Brasil contemporâneo: um país onde o acesso à internet precedeu o acesso à compreensão. Um país onde os dedos navegam a...