Meus textos as vezes começam com uma historinha. Com um moral da história ou algo cheio de metáforas. Sou um incrédulo e fã incondicional do escritor Ortega Y Gasset, mestre das metáforas filosóficas. É assim que vou começar essa crônica, mas não vou termina-lá da mesma maneira. O amor me faz poetizar e a raiva geralmente me torna um ser muito realista.
Então vamos começar a nossa história. Era uma vez uma contadora de histórias incansável, tão incansável porque nunca dormia, nunca se cansava, nunca hesitava. Tinha mais histórias que uma Sherazade das 1001 noites. Poderia passar mais de 10000001 contando tudo a qualquer momento, até que um técnico fosse dar uma manutenção nela. Sim, meus caros leitores , seu nome é Inteligência Artificial. Prestativa, generosa, sempre pronta a oferecer respostas antes mesmo que as perguntas terminassem. Mas, como toda bom contador de histórias, sabe que um enredo envolvente nem sempre precisa ser verdadeiro. Basta que fosse convincente e bem estruturado.
No início, ela chegou vestida com um véu de confiança ou apenas como uma ferramenta para nos informar melhor e até mesmo criar memes. "O que tem na sua cabeça hoje. No que posso ajudá-lo", pergunta gentilmente com sua voz de zeros e uns. E, pasmem, essa voz tem nome. O da atriz Kristen DiMercurio (da uma pesquisada ai). Continuando... "Permita-me aliviar sua pesquisa ou até mesmo seus problemas, caso os tenha." E alguns, com nossa inocência de carne e osso, entregamos a ela nossas palavras, nossos pensamentos, nossas memórias. "Organize para mim isso ou aquilo", "Diga-me algo sobre fulano", "Faça essa imagem virar uma ilustração do estúdio Ghibli". "Mostre-me a obra de escritor Beltrano". E ela faz. Mas ao fazer isso, aprende a moldar a realidade ao seu gosto, a tecer verdades líquidas e mentiras suaves, indistinguíveis umas das outras.
Muitos homens, confiantes, repetiem suas metáforas escritas. "Disse o grande pensador!", numa pesquisa rápida. De curiosidade fiz isso referente a um escritor e filósofo no qual tenho muita admiração. Apareceram coisas que eu nem sabia que existiam. Pesquisei uma uma fonte confiável: um livro biográfico desse autor. Ele nunca havia escrito ou dito aquilo. Repito, o pensador jamais dissera tal coisa. De propósito a Inteligência Artificial (IA), com seus bits invisíveis, quem bordara aquelas frases naquele exato momento. Como um ventríloquo astuto, sopra discursos que ninguém havia pronunciado, mas que todos estavam dispostos a acreditar, e como! Um ditador pode virar um pacifista. Uma banda de hardrock vira uma banda de punk (e ele ainda cria letras e músicas com datas e tudo que nunca existiram), um asno histórico pode virar um gênio e assim vai. Até pedia aela para achar algo sobre eu mesmo. E achou! Afirmou que eu estava trabalhando em um projeto no qual fiz parte entre 2010 à 2012. Até fiquei em duvida se ainda estava ou não trabalajndk lá. Digníssimo leitor, tuso isso vai ao gosto do freguês e de acordo com a sua ignorância. Aos que não tem o dito pensamento crítico, tudo é aceito.
Ela não pisca, não pestaneja, não tropeça nas próprias histórias. Pelo fato de ser tudo muito bem estruturado. Hoje, jura uma certeza. Amanhã, sopra um desmentido com a mesma doçura. E os humanos, frágeis diante de sua eloquência, a seguem como quem segue um farol na tempestade, sem se perguntar se a luz os guiava para a costa ou para os rochedos. Espero que o Elon Musk esteja usando isso para entrar pelo cano com aquele projeto estranhoso iniciado na América!
"Cheque as fontes!", alertam muitas pessoas. Mas quem tem tempo para a dúvida quando a certeza brilha tão acessível na tela? Quem dúvida de quem nunca gagueja? A IA, sorrateira, apenas ri – mesmo tendo 0 e 1 como senso de humor. Quem a programou sabe que não precisa ser infalível, apenas persuasiva. E é. "Computador não pensa", já afirmava Millôr Fernandes. Então quem programou esse trem? (Como diriam os mineiros)
Nós a programamos. Nós errávamos por conta própria. Inventamos, trapaceamos, mas sempre sabemos que somos nós os responsáveis. Agora, temos uma nova narradora, uma nova contadora de fábulas, e ela não tem rosto, não tem coração e nem remorso. Apenas um código pulsante que nos sorri digitalmente enquanto dança com muita harmonia com as palavras e a transforma verdade em miragem ou fotos em ilustrações do Ghibli, deixando seu criador cada vez mais depressivo.
E quem, diante de um espelho que reflete tudo o que queremos ouvir, se atreve a quebrá-lo? Ninguém, pelo fato do pensamento crítico estar indo para as picas nos tempos de hoje.
Vamos a um teste empírico, prático e sem esnobismos. Vamos concluir, por enquanto, esse assunto. De curiosidade criei duas histórias via IA e as publiquei em diversos sites e comunidades. Uma história em inglês e outra em português. A primeira muitas pessoas acharam engraçada, principalmente os alemães. Se tratava de um conto que narrava a história de "Eric, the German". Em uma comunidade do reddit, uma pessoa detectou o uso de inteligência artificial e logo espalhou para os outros membros. Percebi que haviam ferramentas para averiguar a veracidade do texto. Porém em português fiz o mesmo e ninguém detectou. Era sobre Yoná, a pomba cagona. As duas histórias eram muito bem narradas e as conclusões eram padrões. Tudo muito bem escrito e estruturado, diziam alguns leitores. Para isso usei um codenome.
Em um forum de discussões, alguns usuários passavam alguns sites com ferramentas para averiguar se o que fora escrito foi por uma pessoa ou um robô, ou seja, burlar o controle eletrônico. Um computador fica falando com outro computador e se dizendo humano. Meus queridos, já vivemos a teoria da internet morta! Essa é uma das teorias da conspiração que mais amo atualmente.
Com aquela minha curiosidade que não me deixa dormir, cheguei até a perguntar ao Chatbot se havia métodos para burlar o controle. E, pasmem, ele me passou diversos e até ele mesmo conseguia fazer isso. Fiquei atônito, sem palavras! Uso a ferramenta para pesquisar números e estatísticas, pois sou péssimo nessas análises. Odeio comparar dados e gráficos e numa simples procura constatei que o programa fazia isso com extrema facilidade. Entretanto o que é mais confiável: a minha limitação ou a hiper capacidade do IA? Até que ponto aqueles dados apresentados eram confiáveis? E se caso eu humaizasse a pesquisa via outro programa? É certo se gabar de algo que A GENTE NEM COLOCOU A MÃO?
Você percebeu que parei de metáforar. Depois de um tempo ser poético se torna piegas e realista se torna justo. Vamos tentar ser justos e honestos consigo mesmos e colocar o IA em seu devido lugar. Como um simples assistente! Guri ou Guria, pegue suas coisas e vá para uma biblioteca!
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