A Sublime Arte de Não Dormir (ou o Exímio Dom de Permanecer Desperto) [Por Fred Ilek um insone que já nasceu fatigado]
Dizem os entendidos que o sono é uma arte refinada, um dom que, como a pintura ou a música, requer harmonia e técnica. Infelizmente, nunca me considerei um virtuose desse ofício. Enquanto o mundo se entrega, rendido, ao abraço indulgente de Morfeu, eu permaneço cativo da insônia, essa antiga herança familiar que nos foi legada como um relógio avariado — sempre presente, sempre errante, e sem solução à vista.
Foi durante uma conversa casual com minha irmã mais velha, Kath, que tive a confirmação derradeira desse infortúnio genético. Curiosamente, ela dorme com a serenidade de um rochedo à beira-mar, indiferente às marés da vigília. Uma ironia do destino? Sem dúvida. Um capricho da genética? Inevitavelmente.
A ciência, com sua predileção por desmistificar os enigmas da existência, define a insônia como um distúrbio do sono que assola milhões de indivíduos ao redor do globo. Entre os culpados mais frequentes figuram o estresse, a ansiedade, os hábitos alimentares inadequados e, no meu caso específico, um inegável traço hereditário que mais parece ter sido traçado pela pena de um dramaturgo satírico. Estudos publicados no Journal of Sleep Research sugerem que a insônia crônica pode estar associada a mutações genéticas. Ou seja, ao contrário do que já ouvi em tom de reprimenda, minha falta de sono não se deve à procrastinação ou à falta de disciplina, mas sim a uma peculiar assinatura no meu DNA. E para chegar a essa conclusão, não precisei sequer recorrer a sofisticados exames de ancestralidade — bastou uma noite em claro e uma ligação para Katherine.
Mas falemos da arte de dormir. Os especialistas aconselham a criação de um ambiente propício: um quarto escuro, silencioso e com temperatura regulada. Decidido a me submeter ao veredicto dos estudiosos, investi em cortinas blackout, adquiri um colchão ortopédico de renome e instalei um difusor de lavanda na cabeceira. O resultado? Permaneci tão desperto quanto antes, mas com um agradável perfume floral a me envolver.
Outro método amplamente propagado é a respiração controlada, que supostamente conduz o praticante ao sono em poucos instantes. O procedimento é simples: inspirar por quatro segundos, reter o ar por sete e expirar lentamente ao longo de oito. Dediquei-me à prática com rigor quase monástico, apenas para descobrir que, ao final do exercício, eu havia hiperventilado a ponto de sentir-me como um alpinista desprovido de oxigênio no cume do Everest. Sono? Nenhum. Fôlego? Escasso.
Evidentemente, também tentei a abordagem ascética de afastar-me das telas antes de dormir. Desliguei o celular, o televisor e até mesmo o relógio digital. No silêncio da noite, tudo o que me restou foi o tic-tac metódico do relógio de parede na sala. Foi nesse instante que descobri um fato intrigante: o dito relógio estava três minutos adiantado. Três míseros minutos que, para um insone, ressoam como uma eternidade dilatada.
Contudo, há de se admitir que a insônia possui seus raros encantos. No decorrer das madrugadas insones, tornei-me um especialista involuntário nos hábitos da noite. Li incontáveis clássicos da literatura, aperfeiçoei minha habilidade em origami e até me aventurei na confeitaria às três da manhã. O resultado foi um bolo tão denso quanto um meteorito, mas a experiência em si mereceria um episódio próprio de MasterChef Insone (esse lance do bolo era so um exemplo mentiroso absurdo... ou será que eu to sonhando enquanto eu escrevo esse artigo?)
Diante dessa batalha perdida contra o sono, resta-me apenas a aceitação resignada. A insônia, afinal, assemelha-se a um parente inconveniente que insiste em prolongar sua estadia sem prévio aviso. Se meu destino foi inscrito nas entrelinhas do código genético, quem sou eu para desafiar essa trama?
Resta-me, portanto, praticar o que posso: o repouso dos olhos, a contagem diligente de carneiros — ou, no meu caso, a contagem interminável das horas até o primeiro raio de sol romper o horizonte.
No fim das contas, a insônia é como um humorista de talento duvidoso: frustrante no momento, mas involuntariamente cômica à luz do dia — especialmente quando acompanhada de uma xícara generosa de café.
Dedicado a todos os insones que me acompanham nessa vigília interminável, e, em especial, à Kath, que, ao contrário de mim, dorme profundamente enquanto estas palavras ganham forma. Claro, muito por causa do fuso-horário! Ele sofre do mesmo problema. E meu sarcasmo das três da manhã me fez contar o contrário. DNA is a bitch, baby!
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