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Miichey, o descartável [por Fred Ilek]

A morte não é o fim, mas um incômodo—pelo menos para alguns. Em Mickey 17, nova ficção científica de Bong Joon Ho, Robert Pattinson interpreta Mickey Barnes, um trabalhador descartável enviado para o planeta gelado Niflheim. Ele faz parte de um programa chamado "Expendable", onde sua função é basicamente morrer. Sempre que isso acontece, uma máquina imprime um novo corpo para ele, completo com todas as suas memórias. O filme, baseado no romance Mickey7 de Edward Ashton, traz um humor negro afiado e uma ppergunta impertinente: e se morrer fosse algo normal? Se a vida humana se tornasse reciclável, ainda poderíamos chamar Mickey de humano?

Bong, sempre com seu humor ácido, constrói um mundo onde a tecnologia superou a moralidade e a singularidade humana está em xeque. Niflheim não é apenas um planeta hostil—ele reflete uma sociedade que o criou à sua imagem e semelhança. Lá, tudo tem um preço: recursos, vidas, sacrifícios. Mas quem está no comando decide que algumas vidas só importam se servirem ao "bem maior". Mickey, condenado a morrer repetidas vezes, não é um herói explorador, mas uma cobaia, um Sísifo futurista carregando seu próprio cadáver montanha acima.

Nesse cenário brutal, surge Nomi, interpretada por Naomi Ackie. Enquanto Mickey já assimilou ao seu destino, ela não aceita essa realidade. Nomi não é uma colonizadora, mas a mais puro símbolo resistência. Ela se revolta contra o ciclo de descarte dos Mickeys e a falta de ética por trás de toda a missão. Sua presença adiciona outra camada à crítica do filme: poder, raça e quem decide o valor de uma vida.

O comandante da missão, Kenneth Marshall, é interpretado por Mark Ruffalo. Seu personagem é um político carismático, caricato e manipulador, uma mistura de bufão ao estilo Donald Trump, paranoia conspiratória à la Robert F. Kennedy Jr., trejeitos de Mussolini e cinismo de tantos populistas que vendem discursos vazios. Ruffalo exagera propositadamente no papel, entregando um Marshall que é ao mesmo tempo patético e aterrorizante—fazendo discursos e entregando ideias com a mais pura arrogância e, aos poucos, revelando seu lado extremamente sombrio. Ele representa o tipo de líder que, com um sorriso no rosto, desumaniza aqueles sobre a quem  controla, enquanto prega sobre "o bem da humanidade". O dito "homem de bem", nem preciso continuar.


Mickey 17, no fim das contas, não é um filme sobre um homem que não pode morrer, mas sobre um ser humano cuja morte não importa mais. Suas mortes não são tragédias, são rotineiras. É, faz parte do seu trabalho (e tem ate contrato assinado para fazer isso). O filme nos esfrega na cara com um pensamento não muito agradável: quanto mais banalizamos a morte, menos sentido a vida faz. Em um mundo onde tudo vira mercadoria, até a própria existência se torna um produto descartável.

Bong Joon Ho, que já incendiou o debate sobre desigualdade social e capitalismo em Parasita, The Host e Expresso do Amanhã, entrega aqui algo do nosso dia-a-dia em forma de ficção científica. Sim, caro leitor, o filme é perturbador e essencial. Mickey Barnes é, acima de tudo, um filme sobre identidade—sobre um homem "imortal" que, de tantas vezes morrer e voltar, esquece dele mesmo e faz a morte ficar uma coisa banal como pegar um telefone e ficar rolando os "reels" até ver algo interessante.


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