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O Estranhíssimo Mundo de Lá e de Cá (Por Fred Ilek)

A primeira coisa que um brasileiro faz ao chegar à Holanda é se perguntar:

— Mas cadê o Brasil?


Porque é impossível ver um lugar desses e continuar achando que existimos do jeito que achamos que existimos. Na Holanda, a rua é tão limpa que a sujeira se sente deslocada. O ônibus chega na hora que o relógio diz, não na hora que ele quiser. E se você marcar um encontro para as 15h23, não adianta chegar às 15h30 com aquela desculpa de “trânsito” — eles vão te olhar como se você tivesse cometido um crime contra a humanidade.

E aí vem a segunda coisa que o brasileiro faz na Holanda:
— Mas cadê a bagunça?

Porque, veja bem, a vida precisa de um pouco de improviso, um samba do erro bem-intencionado, um “jeitinho” que transforma um atraso de três horas em uma oportunidade de tomar mais uma cerveja. Só que na Holanda, essa liberdade do caos tropical simplesmente não acontece. Eles planejam até o que vão fazer no sábado de 2032. A noção de "vamos ver" é considerada uma piada de mau gosto.

Depois de 15 anos no sul da Holanda, mais precisamente no Limburg, o coração geográfico da Europa e dos batavianos mais relaxados, você se acostuma com o pão de cada dia — que, aliás, é só pão mesmo. O holandês do norte pode te olhar com desdém por estar em Limburg, porque acha que aquilo já é meio Bélgica, e belga, para um holandês, é quase sinônimo de gente que gosta de vida boa demais. Limburg tem cervejas maravilhosas, colinas que desmentem o mito de que a Holanda é completamente plana e um dialeto que nem os holandeses do norte entendem direito.


Mas o verdadeiro choque cultural não está nas línguas, na comida ou no clima. Está na filosofia de vida. No Brasil, tudo se ajeita. Na Holanda, tudo já estava ajeitado antes mesmo de precisar. No Brasil, um conhecido pode virar amigo em cinco minutos. Na Holanda, leva uns cinco anos para alguém te chamar para jantar em casa. Mas quando chama, pode ter certeza de que é para sempre.

E depois de 15 anos, você se dá conta de uma coisa: a Holanda te ensina a planejar, a não esperar que a vida resolva tudo no improviso. Mas o Brasil nunca sai de você. No fundo, você continua achando que um pouco de caos, de vez em quando, faz bem para qualquer país. Até para um que acha que tudo já está resolvido.

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