Capítulo 2 – O Mar de Notícias
O chão se esvaía debaixo de Analice. Nem tempo de espanto ela teve — já deslizava por um corredor úmido, escorregando em manchetes derretidas, que pingavam pelos rodapés como tinta de jornal em febre.
Suas lágrimas, misturadas ao suor das noites sem pauta, engrossavam o mar de notícias que se formava. Manchetes boiavam como icebergs disformes:
“CRISE NA UNO!”, “ESCÂNDALO DO MENSALÃO!”,
“INÉDITO, BEBÊ SEM CÉREBRO NASCE EM CUBATÃO, OUTRA VEZ!”,
“AO VIVO EM FRENTE AO WTC!”
Até a última, que subia em degraus como palavrão malcriado:
“VTNC SEU INGRATO DU C-A-R-A-L-H-O!”
Sem drama, Analice escalou as palavras degrau por degrau, sentando-se na última sílaba, justamente onde o jornalismo brasileiro costuma repousar ao fim de um furo.
Sentia-se estranha. A cabeça parecia maior que o corpo, pensamentos esticados, preocupações infladas como manchete de tablóide. Cada urgência a fazia crescer ou encolher, dependendo do burburinho editorial.
Olhou para os pés: estavam a quilômetros, tão distantes quanto a próxima boa notícia.
— Preciso de cuidados — suspirou. — Hoje minha ansiedade já virou edifício. Os sapatos dariam para três apartamentos. (Talvez seja melhor alguém cuidar deles. De mim, já não sei.)
Imediatamente pipocaram notícias fraudulentas, rodando em rodapés luminosos, sem provas nem pudor:
“Analice se transforma no Edifício Itália!”
“Sapatos de Analice entram no programa ‘Meu Calçado, Minha Vida!’”
— Gente... era bom eu ficar calada — murmurou.
E no instante seguinte, encolheu dois quarteirões.
“Calada, Analice tenta esconder que está enorme!”
Agora cada pensamento virava manchete exclusiva. Analice apertou os olhos, tentando calar até o próprio silêncio. Mas era inútil: o silêncio pingava em conta-gotas, sussurrando fofocas tímidas. Ela se apoiou num tufo de reportagens e chorou. Chorou títulos jamais publicados, editoriais censurados, tanto que se formou uma poça de urgências, onde nadavam peixinhos de fake news e crustáceos de nota de rodapé.
Foi então que surgiu um Camundongo-Correspondente, correndo sobre microfones encharcados e uma agenda de entrevistas que escorria tinta.
— Senhorita! — gritou, ajeitando o bigode encharcado. — Sua opinião sobre a chuva ácida de fake news? Como explica seu tamanho? Qual a sensação de cair sem saber onde?
Analice respirou fundo. Quanto mais serenava, menor ficava. Logo estavam frente a frente, ela e o camundongo.
— Perguntas demais, respostas de menos — disse, erguendo o queixo. — Jornalista não deve se afogar em manchetes, mas saber boiar nelas.
— Isso é impossível — rebateu o Camundongo. — Quem já boiou em notícia?
— Eu mesma — retrucou Analice. — E continuo viva para dar entrevista.
Antes que o debate seguisse, um som rasgou o ar:
— MAAAAAAA OOIIIIIIII HIIIHHIIIIHHHAAAA!
Da cachoeira de notícias surgiu um barco: o Gato do Auditório, mais sorriso que corpo, dentes brilhando, voz de concurso folclórico. No lugar da cabeça, um auditório inteiro aplaudia em silêncio.
— Boa noite, menina! — anunciou, levantando um microfone dourado. — Diga para o auditório: é mais difícil boiar em lágrimas ou nadar contra a corrente das más notícias?
Analice ergueu os olhos, desconfiada:
— Difícil mesmo é escolher qual afogamento dói menos.
O sorriso do Gato se estendeu até engolir metade das palavras flutuantes.
— Ela está certa! Ou errada! Audiência, ela está CERTA ou ERRADA? Ou — quem sabe? — as duas coisas ao mesmo tempo! O importante é rodar a roleta do drama!
O Camundongo cutucou, ansioso:
— Qual é o segredo para desaparecer sem perder seguidores?
O Gato gargalhou. Por um instante, sobraram apenas dentes e microfone flutuante:
— Nunca esteja inteiro. Apareça em meme, suma no boato, reapareça na risada. Mas nunca no silêncio.
— E eu? — perguntou Analice, quase afundando. — Como descubro meu tamanho verdadeiro?
— Leia a manchete que brota daquela flor — ordenou o Gato, piscando para o auditório invisível.
Analice leu, solene:
— “Mulher encomenda própria morte no DF e processa matador por não concluir serviço!”
A maré subiu de novo, trazendo figuras surreais:
A Senhora Manchete, trançando títulos gigantes para cobrir o lago com frescor de notícia;
O Quadro de Audiência, perdido, tentando se equilibrar em gráficos que mudavam sozinhos;
Um Repórter Garoto Juca, fotografando perguntas para não esquecer quem era antes do furo.
O lago crescia toda vez que alguém lia uma notícia triste em voz alta, mas diminuía quando alguém murmurava uma alegria secreta.
— Então depende de como leio? — perguntou Analice, hesitante.
— De como lê... e de como deixa ser lida — respondeu o Gato, sumindo até restar só o microfone dançante.
— Quem vai querer prêmio? — ecoou sua voz. — PRÊMIO para quem nunca entende nada do que está acontecendo!
O auditório invisível aplaudiu em ondas. Analice riu, chorou, boiou, afundou — tudo ao mesmo tempo.
E quando o mar se acalmou, ouviu um som distante:
A música do plantão jornalístico, anunciando uma corrida que prometia secar quem nela entrasse.
Curiosa, Analice nadou na direção do barulho.
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Caro leitor, caso tenha pego o bonde andando aqui (o prólogo) e aqui (o primeiro capítulo). Divirta-se e se escrever, não beba!
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