Há algo de profundamente inquietante na forma como certas figuras públicas conseguem catalisar a devoção cega de milhões. Não se trata apenas de apoio político ou identificação ideológica, mas de uma verdadeira idolatria, um fenômeno que parece corroer o caráter de seus seguidores, transformando a razão em fanatismo e a crítica em heresia. Jair Bolsonaro, Donald Trump e outros líderes de perfil autoritário não são meros políticos para seus adoradores; são ícones quase religiosos, figuras que transcendem a esfera do humano para ocupar um lugar divino no imaginário coletivo.
O que explica essa devoção? Por que tantas pessoas parecem dispostas a abandonar a própria capacidade crítica para seguir homens cujas ações e discursos frequentemente contradizem os valores que alegam defender? A resposta, talvez, esteja na natureza do conservadorismo moderno, um movimento que, longe de ser uma simples defesa de tradições, parece nutrir uma alma podre, alimentada pelo medo, pela raiva e por um profundo ressentimento.
O filósofo Friedrich Nietzsche, em sua obra "Genealogia da Moral", já apontava para o caráter reativo do conservadorismo. Para Nietzsche, a moral conservadora não nasce de uma afirmação de valores, mas de uma negação, de um ressentimento contra aquilo que é percebido como uma ameaça à ordem estabelecida. Bolsonaro e Trump são mestres em explorar esse ressentimento, transformando-o em combustível para seus projetos de poder. Eles não oferecem uma visão de futuro, mas uma promessa de retorno a um passado idealizado, um mundo onde os "de cima" permanecem no topo e os "de baixo" conhecem o seu lugar.
Essa nostalgia por uma ordem hierárquica e supostamente natural é, no entanto, uma ilusão. Como nos lembra o filósofo Slavoj Žižek, o conservadorismo moderno é uma farsa, uma tentativa de mascarar a violência e a exploração inerentes ao sistema capitalista sob o véu da tradição e da moralidade. Bolsonaro e Trump não são defensores da família ou da pátria; são representantes de uma elite que se beneficia da desigualdade e da opressão. Seus seguidores, no entanto, parecem incapazes de enxergar essa contradição, preferindo acreditar em narrativas simplistas que culpam minorias e estrangeiros pelos problemas do mundo.
Essa incapacidade de enxergar a realidade, de confrontar as contradições de seus ídolos, é talvez o sinal mais claro do desvio de caráter que acomete os conservadores modernos. Como observou Hannah Arendt em "As Origens do Totalitarismo", o fanatismo político é sempre acompanhado por uma perda da capacidade de pensar criticamente. Para Arendt, o totalitarismo não é apenas uma forma de governo, mas uma condição existencial, um estado em que os indivíduos abdicam de sua humanidade em troca da segurança oferecida por uma ideologia.
Não é difícil ver ecos desse fenômeno nos adoradores de Bolsonaro e Trump. Para eles, a verdade não importa; o que importa é a lealdade ao líder, a adesão incondicional a uma causa que se confunde com a própria identidade. Essa lealdade, no entanto, tem um preço: a perda da capacidade de distinguir entre o certo e o errado, entre o justo e o injusto.
No fim das contas, a idolatria a figuras como Bolsonaro e Trump não é apenas um desvio político, mas um desvio moral. É a manifestação de uma alma podre, corrompida pelo medo e pelo ressentimento, incapaz de enxergar a humanidade no outro e de reconhecer a própria falibilidade. Como nos alertou o filósofo Theodor Adorno, a única maneira de combater essa corrupção é através da educação, da crítica e da reflexão. Só assim poderemos esperar um dia superar o fascínio mórbido pelos ditadores de plantão e construir uma sociedade verdadeiramente justa e democrática.
Enquanto isso, seguimos observando, com uma mistura de horror e fascínio, o espetáculo grotesco da idolatria política, um lembrete constante de que, para alguns, a liberdade é um fardo demasiado pesado para carregar.
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