Hoje faz exatamente dezesseis anos que desembarquei na Holanda. Fiz essa aventura de navio. Sim, ha 16 anos saia do porto de Santos e descia em Kiel, na Alemanha, para nunca mais voltar a minha terra natal.
Caros leitores, dezesseis voltas completas ao redor do sol numa terra que insiste em girar em outro eixo — o da frieza, da formalidade e de uma estranha gentileza que nunca chega a ser afeto. Aqui, no sul do país, onde os dias nublados parecem mais longos e as pessoas, mais curtas, fui moldado a golpes de silêncio e resistência.
Entre os anos de 2010 ate 2014 trabalhei como fotojornalista para o IBA de Heerlen — um projeto importado da Alemanha, cujo nome completo, Internationale Bauausstellung, remete a uma exposição internacional de construção e urbanismo. A ideia era nobre: revitalizar áreas esquecidas, dar nova vida a cidades com passados industriais e futuros incertos. Mas, na prática, o IBA aqui nunca saiu do papel com a força que prometia. Falta clareza. Falta estrutura. Falta direção. E talvez por isso tenha se adaptado tão bem a Heerlen — uma cidade que, como o projeto, reflete mais dúvida do que ação, mais pose do que resultado. Em 2018 um projeto me citou de forma muito tímida. Uma espécie de "grato pelos serviços" junto a outros profissionais. Outro arquiteto entrevistou uma série de profissionais da área e criou um livro meio "chapa branca" para compartilhar as experiências. Sim, caro leitor, muito esforço para quase nada. Como comentava Noud Scheppers, meu professor de holandês: "imigrar é uma das coisas mais difíceis meu caro. Você escolheu agora aguenta as consequências", sempre me lembrava em todas as aulas. Ele era holandês, só que de Noord Brabant, estado acima do que eu moro. É... entre eles também há diversas diferenças. Muitas!
Vamos voltar a esse periodo. Tanto eu quanto o meu professor de holandês tentamos capturar essa dualidade com minha câmera (ele tambem era fotografo, só que amador). Mas nossa presença, nome, sotaque, incomodavam. Fomos visto como ameaça por colegas fotógrafos e professores locais. Não era a qualidade do nosso trabalho que estava em julgamento — era o fato da gente existir, de nós tentarmos ocupar um espaço que, aos olhos deles, não me pertencia.
Um dia perguntei a um pai de um amiguinho da minha filha que tinha sido aluno desse professor. "Noud? Se eu tivesse um carro agora e ele atravessasse aquela faixa de segurança... eu passava o carro por cima dele!", comentou totalmente tomado por uma ira estranha. Uma das coisas que o Noud não deixava fluir em classe era o dialeto local e as manias limburguesas de corrigir as coisas. O jeitinho do "komt goed". Uma espécie de "vai dar certo", só que nunca dá. Isso causava e causa raiva em muitos. Em muitas aulas ele comentava esses feitos para mim, sem nunca pestanejar. "Na Holanda se fala o ABN (Algemeen Beschaafd Nederlands) no limburgo se fala o ABL (Algemeen Beschaafd Limburgs). Corrijo e vou continuar corrigindo até a minha morte", dizia orgulhoso. Para esse conhecido Noud era o tirano Mijnheer Schepeers. Ele usada da formalidade para afastar os mais curiosos de sua vida particular. Eu uso minha latinidade para espelir os mais atrevidos, como alguns colegas de trabalho ja perceberam.
E sim, tenho meus defeitos, não posso negar. Como todo ser humano. Mas aqui, cada falha minha era ampliada. Ser estrangeiro faz com que tudo em você seja mais visado. O erro vira identidade. A dúvida vira incompetência. A crítica vira confirmação de que você “não pertence”.
A solidão foi minha companhia mais leal por dezesseis anos. O frio das relações humanas aqui é algo que nem o aquecimento central consegue vencer. Foram minhas filhas e minha esposa que me mantiveram em pé. Todo o resto era ruído: acenos distantes, convites que nunca vinham, pessoas que vieram e se foram e eu nem percebi e olhares que pesavam mais do que palavras.
Como bike-messenger, tive momentos de leveza. A liberdade do pedal, o vento no rosto, o mapa da cidade desenhado nas pernas. Até o dia em que empreguei alguém. Aí virei uma ameaça ainda maior: o estrangeiro que cresce. E isso, por aqui, é quase uma heresia.
Minhas filhas foram vítimas do mesmo sistema. Em uma escola primária católica, foram empurradas para os níveis mais baixos. Não por falta de inteligência, mas por excesso de preconceito. Só depois, com a ajuda de uma pedagoga que também sofreu o mesmo com seus filhos — embora fossem holandeses — conseguimos reverter o quadro. A xenofobia, por aqui, tem várias formas. Algumas usam ternos. Outras, aventais escolares.
O holandês foi uma muralha. Conquistei. E então, como prêmio, veio o alemão — exigido no meu atual trabalho. A vida não dá trégua. Cada dia é uma aula forçada. Um esforço constante. Um mergulho em águas geladas.
E mesmo assim, sigo. Mesmo fraco, sigo. Porque é justamente minha vontade de não ser engolido por esse sistema que me dá força. Eu quero um futuro melhor. Para mim. Para minhas filhas. Para minha esposa. E, por mais absurdo que pareça, até para eles. Para os que me julgam, me ignoram, me excluem. Porque acredito que o mundo melhora quando a gente não desiste de ser ponte.
E deixo aqui um aviso: todo brasileiro que se acha europeu precisava viver isso. Precisava sentir na pele o que é ser “latino” numa terra onde a palavra é sinônimo de degrau inferior. Hoje, não me vejo só como brasileiro. Me vejo latino-americano. Irmão de todos que vivem entre as margens do preconceito e da esperança. E isso, por mais doloroso que seja, é uma das poucas verdades que carrego com orgulho.
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