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O abismo sorri de volta! Gabriel, Juliana e a trágica ilusão da jornada interior (por Frederico Ileck)

Gabriel Buchmann morreu em 2009, aos 28 anos, nos arredores do Monte Mulanje, no Maláui. Doutorando da Sorbonne, economista idealista, atravessava a África a pé, de van, em caronas, em busca de algo entre tese e transcendência. Seu corpo foi encontrado dias depois de uma escalada solitária, desidratado, sem botas, encolhido. Virou personagem de um filme — Gabriel e a Montanha — onde é retratado como figura complexa: entre o voluntarioso e o vaidoso, entre o sonhador e o cego. Alguém que, como tantos viajantes contemporâneos, talvez tenha confundido humildade com imunidade.
Em 2017, fui convidado pelo Dutch Mountains Film Festival, na Holanda, para fazer uma pequena apresentação sobre o filme Gabriel e a Montanha. Aceitei animado, mas acabei ficando doente e não pude comparecer. O filme, porém, ficou na minha cabeça, especialmente por causa de uma conversa com um amigo — organizador do festival e alpinista amador — que fez um comentário ácido sobre a inocência do personagem principal. Ele acabou apresentando o filme em meu lugar e, ao final, não poupou críticas à postura de Gabriel diante dos riscos da montanha. A franqueza do seu comentário ecoou em mim, e desde então penso no quanto a fronteira entre coragem e imprudência é tênue para quem se aventura em ambientes extremos.
Juliana Marins morreu em junho de 2025, aos 26 anos, após cair de um penhasco próximo à cratera do Monte Rinjani, um vulcão ativo de mais de 3.700 metros na ilha de Lombok, Indonésia. Ao contrário do que se noticiou inicialmente, Juliana não estava sozinha: fazia parte de um grupo de cinco amigos, acompanhados por um guia local. O grupo enfrentava trilhas escorregadias, neblina densa e terreno instável. A brasileira se casou e pediu para descansar. Fui deixada sozinha por uma hora. Nesse meio tempo Juliana escorregou e despencou cerca de 300 metros, parando em uma área de areia vulcânica dentro da cratera.
O drama não terminou ali. Juliana sobreviveu à queda e foi vista, ainda consciente, por drones e trilheiros. Seus gritos foram ouvidos, e imagens mostraram que ela tentava se mover. Mas o resgate foi dificultado por condições climáticas extremas: chuva, vento forte e visibilidade quase nula. Helicópteros não puderam ser usados. Foram quatro dias de angústia até que uma equipe finalmente conseguisse chegar até ela — infelizmente, já sem vida. O corpo foi recuperado após uma operação de horas, evidenciando a precariedade da estrutura de resgate na região, onde o turismo de aventura cresce mais rápido do que a capacidade de resposta a emergências.
A perda de ambos foi chocante, absurda, e profundamente triste. Nenhuma vida deveria terminar assim: abandonada num pico solitário da África ou engolida pelo vazio de uma cratera na Ásia. São histórias que paralisam, que causam um silêncio pesado — e ainda assim, são mais comuns do que gostaríamos de admitir.
No Brasil, a dor se agravou com o ruído nas redes sociais: pedidos para que o Itamaraty agisse “com mais agilidade”, acusações de negligência, patriotismo performático. Pouco se falou sobre a falta de fiscalização nas trilhas do Rinjani, ou sobre a responsabilidade das operadoras de turismo que vendem aventura sem garantir segurança. Em meio à indignação digital, um gesto silencioso: Alexandre Pato, ex-jogador de futebol, arcou com os custos do translado do corpo de Juliana ao Brasil, sem alarde, sem buscar holofotes. Um ato de compaixão, raro em tempos de espetáculo.
A morte de Gabriel foi tema de filme, debatida em festivais e círculos acadêmicos. A de Juliana se espalhou por postagens fragmentadas, manchetes apressadas, stories resgatados. Mas ambas expõem a mesma lição amarga: o mundo não é uma metáfora, e o desejo de viver intensamente não substitui preparo, estrutura e senso de limite.
É preciso ser honesto: há uma dose perigosa de inocência — ou arrogância — na cultura do mochileiro contemporâneo. A ideia de que “basta querer” para atravessar fronteiras, escalar montanhas ou desafiar vulcões ignora riscos objetivos e despreza a natureza implacável dos ambientes extremos. Não é raro que viajantes subestimem perigos, confiem demais em estruturas locais precárias ou se deixem levar pela busca de experiências “instagramáveis”, ignorando alertas e limites.
O mito do mochileiro-herói do século XXI — que troca emprego pela estrada, rotina por epifania — precisa ser revisto. Porque junto com coragem e liberdade, essa jornada carrega riscos reais, muitas vezes ignorados ou minimizados. Montanhas são lindas, mas são montanhas. Vulcões encantam, mas são vulcões. E a romantização da jornada pode custar caro: o mundo não tem obrigação de nos devolver inteiros.
A morte de Gabriel nos ensinou isso com uma imagem devastadora: um corpo sob pedras, num país que ele queria entender. A de Juliana nos lembrou de novo, com uma imagem ainda mais brutal: o desaparecimento dentro da boca de um vulcão, no exato momento em que ela buscava renascer.
Essas histórias partiram pra valer o coração do País — e deveriam partir também a nossa ilusão. Viajar é maravilhoso, mas não é mágica. O abismo, às vezes, sorri de volta.

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