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Analice no País das Más Notícias - Capítulo 1 – O Salão das Manchetes

Capítulo 1 – O Salão das Manchetes

O abismo consumia Analice como quem consome o cronômetro numa redação sem pauta: caía, caía, os segundos virando reticências, a urgência virando manchetes desordenadas no vento.
Em torno de si, flutuavam recortes, manchetes de todo tipo — umas berravam “URGENTE!”, "QUERO MOCOTÓ", outras se contradiziam, como se competissem num auditório invisível: “FONTES ANÔNIMAS CONFIRMAM, BRASIL FOI CAMPEÃO MUNDOA EM 98”; “PALMEIRAS NÃO TEM MUNDIAL”; “PALMEIRAS TEM MUNDIAL, GARANTE TORCEDOR”. Uma delas colou-lhe à testa: “Facebook sinaliza Declaração de Independência dos EUA como discurso de ódio”.
— Facebook? Ah, Facebook. O ódio é a única certeza que a rede nunca sinaliza — resmungou, arrancando o papel com certo carinho.

Finalmente aterrissou, não com estrondo mas com delicadeza, como quem se senta num sofá de jornais velhos, o cheiro do passado subindo como editorial reciclado. Era um salão circular, enorme, projetado para acomodar todas as vozes de uma rede social em estado de frenesi.
As portas, milhares, eram telas de televisão: chiavam estática, exibiam “AO VIVO” em vermelho pulsante, mas nunca ofereciam a mesma imagem. Parecia que cada tela aguardava o próximo espetáculo de versões contraditórias.

No centro, uma mesa: sobre ela, duas folhas que respiravam, pulsavam, faziam ruídos de manchete fresca.
A primeira inflava-se como notícia de última hora:

“FIM DO MUNDO É AMANHÃ (OU TALVEZ HOJE, QUEM SABE?).”

A segunda, minúscula e hesitante, obrigou Analice a abaixar-se:

“dois amigos se abraçaram.”

Ela não resistiu — era jornalista, afinal.
— “FIM DO MUNDO É AMANHÃ…” — rugiu, e num instante sua voz reverberava entre as paredes, engrossando como editorial de domingo. O corpo se esticava, aumentava, até que seu cabelo roçava o teto e as televisões viravam janelinhas de boneca. Olhando lá fora, percebeu: quando se faz maior, o mundo encolhe.


E riu, sem humor, de si mesma.
— O mundo diminui quando eu me agiganto nas notícias. É preciso cuidado para não virar manchete ambulante e perder o resto do texto.

Pegou com dedos enormes a folha discreta, quase um papel de bala:
— “dois amigos se abraçam.”

No mesmo instante, começou a encolher, e cada pensamento virava crise pequena. A mesa ganhou ar de montanha, as portas tornaram-se portais monumentais.
Enquanto ajustava o corpo, refletiu:

— Se o tamanho das notícias faz meu tamanho, será que nunca houve fato grande, só observador com olhos de lupa?

Foi quando uma risada reverberou — não vinda do espaço, mas misturada à eletricidade das telas, ao cheiro de tinta velha, ao jornalismo em estado gasoso. Um sorriso, apenas sorriso, flutuava: dentes alinhados como teclas de máquina de escrever — a boca do Gato de Opinião.

— O tamanho das coisas não está nas coisas, minha cara, mas no olhar de quem as narra. Todo editorial começa pequeno. Só cresce quando a audiência se arrisca a ler.

— E se ninguém olhar?

O sorriso se abriu ainda mais, multiplicando-se em reflexos pelas telas.

— Menos ainda. A dúvida é eterna, mas a pauta — ah, a pauta morre a cada distração do público.

O salão inteiro chiava, rindo da incerteza. O sorriso se dissipou, restando um eco estranho — como manchete que ninguém confirma, mas que todos lembram.

Analice ficou sozinha. Pequena? Gigante? Nem sabia mais. Estava, enfim, no epicentro do noticiário — ou melhor, do País das Más Notícias, onde o absurdo é pauta e a dúvida, regra.

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Caro leitor, caso nao entende xongas do que esta acontecendo aqui está o prólogo dessa série de capítulos. Aqui o segundo capítulo. Lembrando, se escrever não use drogas (apenas as que o médico determina, ok?)

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