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O que é o pobre de direita? (por Frederico Ileck)

Moro na Holanda há muitos anos — quem acompanha meus artigos por aqui já sabe disso. Mas, nos meus primeiros tempos no país, meu interesse pela política local era quase nulo. E olha que meus únicos meios de comunicação naquela época eram o rádio e a TV. Tinha dias em que eu ficava horas assistindo ao canal Politiek 24, acompanhando uma galeria de personagens no palanque: Joop Cohen, Alexander Pechtold, Femke Halsema e Geert Wilders.

Para minha surpresa, eu entendia grande parte do que esse último falava. E olha que meu holandês era fraquíssimo na época, mal conseguia segurar um diálogo de trinta minutos. Meu interesse por política aumentou justamente por conta desse nó na minha cabeça: como é que eu, com um vocabulário tão limitado, conseguia entender perfeitamente um parlamentar de extrema-direita?

​Até que um dia, em 2017, comentei isso com um colega. Ele trabalhava como assessor político e me pediu ajuda para fotografar uma campanha. Eu já morava no país há oito anos. O clima nas ruas não estava nada amigável — só que eu, sinceramente, não fazia ideia do tamanho da tensão. Aceitei o convite e fui com o grupo conversar com moradores em um bairro afastado do centro da cidade onde eu moro. O partido era o PvdA, o Partido do Trabalho holandês (hoje se chama PRO), de esquerda.

​Fiquei impressionado com a hostilidade de algumas pessoas. Elas reagiam com raiva e declaravam voto sem pudor no PVV, o partido de Geert Wilders — o tal homem didático da minha televisão. Voltei para casa me perguntando: os partidos de esquerda estão mesmo perdendo o pé da classe trabalhadora para a ultradireita?

​Aquela experiência me marcou a ponto de me filiar ao PvdA. Achava que era hora de reagir contra aquela maré reacionária. Empolgado, pendurei o pôster da campanha na janela de casa. "Que joguem ovos, que me xinguem... Tenho o direito de me expressar! Chega de fascistas", pensei. A empolgação durou pouco. Uma amiga da minha esposa viu o cartaz, achou um absurdo e pressionou para que o tirássemos imediatamente. O episódio quase causou uma briga feia entre mim e minha esposa.

​Anos mais tarde, durante a pandemia, passei pela cidadezinha onde essa mesma amiga, a Jeanine, morava. O lugar estava forrado de cartazes de extrema-direita, repletos de teorias sobre o Great Reset e discursos antivacina — pautas que ela própria passara a defender fervorosamente. "É a NOSSA liberdade de expressão!", repetia ela a todo momento. A mesma pessoa que me censurou anos antes agora invocava o direito de se expressar a qualquer custo.

​Não discuti. Apenas comentei com minha esposa depois: "Você acha isso normal?". E ela me respondeu: "Não. Nem perco meu tempo discutindo. Eu só escuto... e é uma barbaridade atrás da outra". Pois é, meus caros: a hostilidade que vi em 2017 não era um fato isolado. Era o prenúncio de uma onda que crescia em silêncio e logo viraria um tsunami.

​Naquelas eleições de março de 2017, o PvdA despencou de 38 para 9 cadeiras na Câmara Baixa. Já o PVV de Wilders saltou de 15 para 20, tornando-se a segunda maior força do parlamento. Não dá para afirmar que aqueles moradores específicos trocaram um partido pelo outro, mas o recado das urnas foi claro. E o choque definitivo viria em 2023: o PVV virou o maior partido da Holanda, conquistando 37 cadeiras — o maior terremoto político no país desde a Segunda Guerra Mundial.

​Do contexto europeu ao espelho brasileiro

​Toda vez que me lembro daquela campanha na Holanda, penso no Brasil.

​Lembro de 2014, na disputa entre Dilma e Aécio, ainda nos quadros de um pacto político tradicional. Depois veio o impeachment de 2016 — que considero um golpe parlamentar —, e logo em seguida 2018, quando um deputado do baixíssimo clero, Jair Bolsonaro, foi eleito presidente com 55% dos votos. Em 2022, o mesmo eleitorado garantiu a ele 49% no segundo turno. E agora, em outubro de 2026, vemos seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, liderar o primeiro turno com 47% dos votos válidos contra 45% do presidente Lula, levando a disputa para o segundo turno no próximo dia 25 de outubro.

​Brasil e Holanda têm trajetórias, culturas e histórias profundamente diferentes. Não se trata de equiparar os dois países. Mas a pergunta que ecoa em ambos é exatamente a mesma: o que acontece quando os partidos que se consideravam os porta-vozes das camadas populares deixam de ser reconhecidos por elas?

As respostas da sociologia: humilhação e pertencimento

​No livro O pobre de direita: a vingança dos bastardos, o sociólogo Jessé Souza tenta entender essa adesão popular à extrema-direita, focando em dois grupos centrais no Brasil: o branco pobre e o negro evangélico.

​Na visão de Jessé, essa escolha eleitoral passa por uma busca desesperada por reconhecimento, atravessada por sentimentos profundos de humilhação social. O argumento dele muda a chave do debate: em vez de tratar esse eleitor como alguém "alienado" ou incapaz de entender os próprios interesses, Jessé busca compreender o que ele encontra no discurso conservador — uma promessa de dignidade, moralidade e pertencimento.

​Outro olhar essencial vem do sociólogo francês François Dubet. Em seu livro O Desprezo, Dubet argumenta que a sensação de humilhação social se tornou o verdadeiro combustível emocional das forças que ameaçam as democracias modernas. Para ele, o sentimento de desprezo é politicamente flexível: pode ser canalizado tanto pela esquerda quanto pela direita. Tudo depende de quem oferece a esse cidadão uma linguagem compreensível, um culpado claro e uma promessa de saída. Sentir-se desprezado não define, por si só, o voto de ninguém; o que define é quem acolhe essa dor primeiro.

​O que os dados realmente mostram (e o que eles não dizem)

​Aqui precisamos de honestidade intelectual. O fenômeno existe, mas não é simples como a narrativa da esquerda faz parecer, nem como a propaganda da direita gosta de vender.

​A presença de trabalhadores e pessoas mais humildes na direita não significa que os mais pobres abandonaram a esquerda em bloco. Análises das últimas eleições presidenciais mostram que o apoio a Bolsonaro sempre foi maior em seções eleitorais com menor proporção de eleitores de baixa escolaridade e em municípios mais abastados. Nas pesquisas de intenção de voto, a liderança na faixa de até dois salários mínimos continuou historicamente com a esquerda, enquanto a classe média e os remediados migraram com mais força para a direita.

​Por outro lado, não dá para ignorar a transformação institucional. Nas eleições para o Congresso desde 2018, a direita conquistou a maioria absoluta das cadeiras na Câmara dos Deputados — avanço que se consolidou e expandiu em 2022 e no Senado. O que começou como uma onda com Bolsonaro virou uma estrutura sólida no poder legislativo.

​A disputa pelas histórias

​Em seu trabalho mais recente, Por que a esquerda morreu?, Jessé Souza faz uma espécie de autópsia do seu próprio campo político. A tese é direta: a esquerda não perdeu apenas porque a direita se organizou, mas porque parou de disputar ideias — e, acima de tudo, parou de contar histórias.

​O ser humano compreende o mundo por meio de narrativas. E enquanto a esquerda se burocratizou, a direita passou a oferecer um enredo envolvente sobre prosperidade, liberdade individual e superação pessoal.

​Dubet nos ajuda a enxergar como isso funciona na cabeça do indivíduo: quando uma sociedade desigual vende a ideia de que o mercado é uma competição justa, o fracasso passa a ser vivido como uma culpa individual. O indivíduo sente que se venceu, o mérito é dele; mas se falhou, a vergonha também é só dele. A direita entra aí oferecendo um culpado externo e uma comunidade de acolhimento.

​A pergunta que fica

​A minha lembrança daquela caminhada eleitoral na Holanda em 2017 não explica o Brasil de 2026. Mas deixa uma provocação inquietante: o que um partido deixa de ouvir quando presume já saber com antecedência o que o povo precisa?

​Talvez o primeiro passo não seja inventar uma grande teoria para "salvar" o eleitor, mas algo muito mais simples: escutar sem exigir que as pessoas confirmem nossas próprias convicções antes de falarem.

​Como bem lembra Dubet, a luta contra a desigualdade de renda, a pobreza e a falta de oportunidades continua sendo prioridade máxima. Mas desprezo dói tanto quanto a fome. Escutar o sentimento de abandono das pessoas não significa concordar com o discurso da extrema-direita, mas entender que, se a política não der respostas à dor das pessoas, o ressentimento continuará definindo o nosso futuro.

​E no próximo dia 25 de outubro, estaremos todos nós diante das urnas, esperando para ver se essa pergunta ainda tem alguma resposta.

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