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Meu Caro Diário Utopista (16.05.2025) - por Fred, o Camarada

Roermond, 16 de maio de 2026

Ontem fui a uma conferência regional do Socialistische Partij (SP) em Roermond.
Cara, sou peixe novo no partido. Depois de idas e vindas no Partij van de Arbeid (PvdA) e de poucas participações no partido, resolvi cancelar, em 2022, minha filiação a ele. Em uma das últimas reuniões, Wim Meijers, primo da minha esposa e colega de partido, comentou algo que me deixou com uma pulga atrás da orelha: “Os socialistas do SP têm muito mais ação que a gente. Viramos um bando de funcionários públicos”, reclamou.
Cancelei minha filiação logo após me colocarem na lista de candidatos a vereador sem me perguntar. Não gostei nem um pouco. Por isso, não fiz campanha.

No ano passado, após umas férias silenciosas de seis semanas, percebi que não tenho vida social além do trabalho. Isso é triste, cara. Daí entrei no site do SP e me filiei. 

Dias depois, recebi um SMS: “Não podemos deixar fechar o pronto-socorro da cidade. Ação hoje às 15h em frente ao hospital. Aguardamos você lá.”
Sinceramente? Essa mensagem parecia que um dedo saía da tela do telefone e me pedia para largar tudo o que eu estava fazendo. Até gostei. Bem na direção certa, bem do meu jeitão.

Daí resolvi participar das reuniões na sede. No primeiro dia, uma das integrantes começou a falar, e eu já saí com quatro livros para ler. Todos sobre a composição e a ética política deles. Na verdade, gostei ainda mais.

No 1º de maio, houve um café da manhã com Ron Meijier, e ele explicou a razão do Dia do Trabalho e a greve de abril–maio de 1943. Que história. Fui ao museu e vi todos os detalhes daquela manifestação. A greve começou após a ordem alemã de reencarcerar ex-soldados holandeses como prisioneiros de guerra, espalhou‑se rapidamente e ficou conhecida, em certas regiões rurais, como a “Greve do Leite”.
Daí veio o dia 16 de maio: conferência regional. Entrei pensando que sairia ainda mais socialista. Saí pensando em como as coisas mudaram — e mudaram pra valer.
Sim, meu caro diário, eu era um socialista de ala Cuba na faculdade. Em 2002 já me mandavam pra Cuba. Eu queria ir... mas não tinha grana, pode? Agora... qual era  meu apelido? Fred Pé na Porta, ou só Fred Fidel. Esse segundo nunca pegou. E não pegou por causa da minha filiação partidária da época: PSDB. Eu era um social‑democrata liberal. Um esquerdista liberal com estilo cubano. Confuso, né? Também acho. Os mais radicais da esquerda me achavam um neoliberal de hospício. Os da direita, um comunista stalinista russo. Ah, mas na Holanda eu me achei. Socialista sempre fui, e não tenho vergonha disso.
Mas o espaço era bonito. Talvez bonito demais. Tinha atendente simpática, pais com filhos, café, chá, suco e biscoitinhos. Só a arte nas paredes era meio duvidosa: uma mistura de Pinterest com IA desenhada por um destro usando a mão esquerda. No resto, estava valendo. Resolvi me concentrar nas pessoas.
Sabe, havia muitas plantas, muito design de casa de vó modernizado. Havia, notadamente, a ausência total de qualquer coisa que lembrasse uma fábrica, um armazém ou um sindicato. O proletariado, se aparecesse, teria que tirar os sapatos na entrada. Ninguém ali tinha cara de proletário. Talvez eu. Sei lá.
Daí apresentaram o programa Maakt Nederland Betaalbaar. Quinhentos euros por ano de aluguel? Acho que entendi errado, ou havia um erro de digitação — e passei o resto da tarde com essa dúvida me corroendo discretamente. Transporte público de graça? Esse eu entendi perfeitamente e achei uma viagem na maionese. Um país onde ninguém passa fome, ninguém paga eigen risico e o trem chega no horário (as vezes não). Alguns anotavam tudo com seriedade. É o mínimo que se deve a uma utopia, pra não chamar de maluquices.
Cara, tinha um sujeito no fundão comigo. Figuraça. Saca o estilo: tamanco holandês, bolsa do Che Guevara, coque samurai e problemas sérios de dicção. Eu não entendia chongas do que ele falava. Mesmo assim, levantava a mão antes de os palestrantes terminarem cada frase. Interrompia com a convicção dos que já sabem a resposta antes da pergunta. Não era mal‑educado. Era, simplesmente, revolucionário frustrado — o tipo de figura que toda esquerda produz em série e nenhuma consegue aposentar.

De repente, um sujeito de Sittard resolveu tomar a palavra. Parecia saído de um seriado. “Pra se organizar uma revolução só precisamos de três pessoas”, esbravejou.
Diário, me veio na testa Ortega y Gasset e A Rebelião das Massas (1930). Ortega, filósofo espanhol de inclinação liberal‑conservadora, argumenta que a “massa” moderna — o homem comum, sem formação intelectual ou obrigação ética — não lidera, ela ocupa: toma o espaço público sem capacidade de direção responsável. Ele defende que a civilização repousa em minorias selecionadas (elitismo intelectual), e vê a democracia de massas e a revolução massificada como perigosas. Por isso, quando o sujeito disse “três pessoas fazem revolução”, meu cérebro disparou: três pessoas não fazem revolução; fazem barulho. Às vezes o mesmo barulho, por décadas. Esse tres caras já estão há anos fazendo barulho e acho que o Gasset tá certo. Ou não? Tô achando que tô numa daquelas minhas quedas intelectuais sem fundo.
Depois vieram as análises éticas do uso da IA dentro do partido. Tema ótimo, discussão necessária. Falaram de transparência, autonomia e soberania digital. Não falaram, em nenhum momento, de coleta de dados. Presumo que os dados coletados por essas ferramentas sejam, eles também, solidários e filiados ao partido.
No meio de uma apresentação, apareceu uma ilustração gerada por IA. Todo mundo caiu na risada; a ironia dispensou legenda.

Foi então que meu colega pediu a palavra. Explicou, com a segurança de quem lê metade de um artigo, que a Anthropic foi fundada por ex‑funcionários da OpenAI e que o Claude entrou no centro de disputas públicas com o Departamento de Defesa dos EUA; houve, de fato, uma controvérsia sobre o uso da tecnologia em contextos militares. Portanto, concluiu ele, cada vez que eu peço ao Claude para formatar uma planilha, estou alimentando o Pentágono.

Fiquei na dúvida. Seria aquilo uma conspiração? Pois é, em uma ou duas reuniões já ouvi umas quatro ou cinco teorias doidas. Ouço com um sorriso amarelo. Tô conseguindo treinar bem meu pocker face. Até quando? A verdade aqui é suficientemente complicada para caber em mais de um artigo lido pela metade.

Pensei no Claude. No que ele diria. Provavelmente algo equilibrado, com duas visões, uma nota de incerteza e um parágrafo gentil sobre a complexidade das relações entre tecnologia e Estado. Me veio o Hall 9000 na cabeça.
Que isso Fred não me desliga... não... nã..

Saí com a cabeça cheia e a utopia intacta. Se o aluguel for mesmo quinhentos euros por ano — uns quarenta e poucos euros por mês —, pelo menos dá para pagar o café do lugar. Que, devo dizer, estava ótimo. Preciso reler esse programa... ah.. 800 euros ao mês. Agora sim é real. Só o transporte público é uma viagem. E de graça.

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