Marx, a Censura e o Algoritmo: a liberdade de imprensa ontem e hoje
Baseado em: Karl Marx, Liberdade de Imprensa (L&PM Pocket, 2006)
Em maio de 1842, Colônia não era o palco de uma revolução aberta — mas Karl Marx, então com 24 anos à frente da Gazeta Renana, havia encontrado seu campo de batalha. O inimigo não era ainda o Capital com "C" maiúsculo, mas o censor prussiano, aquela figura cinzenta que, armada com as "Instruções de Censura" de Frederico Guilherme IV, pretendia garantir à imprensa alemã um "verniz de seriedade" suficiente para manter a aparência de civilidade sem deixar escapar nenhuma verdade inconveniente.
Relendo hoje a coletânea Liberdade de Imprensa (L&PM), percebe-se que Marx não era apenas um teórico da economia; era um jornalista de trincheira. O que o irritava na Prússia de 1840 não era somente a interdição da palavra, mas a hipocrisia de um Estado que exigia dos jornalistas "ausência de paixão" enquanto exercia o poder de forma visceral e arbitrária. Para Marx, a censura era uma "crítica como monopólio do governo" — e ele era preciso ao distingui-la da verdadeira crítica, que é a corte criada pela própria imprensa livre ao seu redor. Onde a crítica usa "as aguçadas facas da razão", o censor usa o poder discricionário, transformando-se em partido ao invés de árbitro.
Marx ia além: demonstrava que uma imprensa censurada é ruim mesmo quando produz bons conteúdos, pois estes só são bons "na medida em que exibem uma imprensa livre dentro de uma censurada" — isto é, apesar da censura, e não por causa dela. Inversamente, "uma imprensa livre é boa mesmo quando produz frutos ruins", pois estes revelam a própria imperfeição humana, que é condição da liberdade. A liberdade, para Marx, não é um privilégio concedido pelo Estado; é a condição normal de existência do espírito. Suprimi-la, em nome da ordem, é aceitar o mau para evitar o possível mal.
A transposição dessas preocupações para o Brasil de 2026 revela rimas históricas perturbadoras. Se o censor prussiano operava com caneta e carimbo, o "censor" contemporâneo veste o capuz de um algoritmo de plataforma ou a toga de uma decisão judicial que asfixia financeiramente veículos independentes. Marx, com sua obsessão pela "densidade do material concreto", ficaria horrorizado com a economia da atenção — ele percebeu, muito antes do Vale do Silício, que a maior ameaça à liberdade de imprensa era sua transformação em mero ramo de negócio. "A primeira liberdade de imprensa consiste em não ser um negócio", escreveu ele, num diagnóstico que hoje soa como sentença de morte para o jornalismo capturado pelo clique e pela publicidade programática.
Na era da pós-verdade, o "jargão decorado" que Marx denunciava na burocracia estatal prussiana encontra eco nas câmaras de eco digitais. Onde antes havia o medo do corte do editor oficial, hoje há o medo do banimento das plataformas, cuja governança é tão opaca quanto as ordens de gabinete de Berlim. A liberdade de expressão — que Marx defendia como o "olho do povo", o espelho no qual a sociedade reconhece a si mesma — transformou-se em ativo tóxico nas mãos de bilionários que a invocam como escudo para o monopólio e como arma para o caos informacional.
Marx também nos ensinava que o espírito de um povo se manifesta em sua imprensa: "em nenhum lugar o espírito específico dos Estados manifesta-se mais claramente que nos debates sobre a imprensa". Quando a imprensa é silenciada, censurada ou comprada, não é apenas ela que emudece — é o próprio espírito público que perde sua voz. Por isso, a defesa da liberdade de imprensa não é um tema corporativo de jornalistas; é uma questão de soberania popular.
A lição que Marx nos deixa — e que veículos de resistência ainda exercitam — é que a imprensa só é verdadeiramente livre quando funciona como mediação orgânica entre o Estado e a sociedade civil, e não como mercadoria submetida ao lucro ou correia de transmissão de interesses palacianos. O jovem Marx de Colônia nos ensina que rigor factual e paixão política não são opostos: são as duas lâminas da mesma tesoura necessária para cortar o véu da desinformação. No fim, a luta contra o censor de 1842 e contra o algoritmo de 2026 é a mesma — a luta pelo direito de dar nome às coisas e de imaginar um mundo onde a verdade não precise pedir licença para circular.
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