Doorgaan naar hoofdcontent

Santos 1999 (Capítulo 6 – Parte 2 (Primeiro programa, primeiro fiasco)

Capítulo 6 – Parte 2 (Primeiro programa, primeiro fiasco)

A luz vermelha acendeu.

Ivan respirou fundo, sentiu o microfone vibrar na palma da mão. O script estava ali, rascunhado num caderno amassado. As agulhas do toca-discos repousavam sobre a primeira faixa: um samba jazz elegante, daqueles que misturam sopro e suingue com ares de Copacabana.

Ele falou. A voz saiu trêmula, grave demais:

— Boa noite, São Paulo. Aqui é Ivan… é. . bem ... e hoje a gente estreia um espaço novo. Samba jazz! Eehhhh... isso mesmo... todas as noites na radio Gazeta FM. Bora toca essa bosta, pediu pra samba, sambô. Pediu pra parar, parô.

Um silêncio elétrico. O operador se espanta fez um sinal de “que foi isso?”. A música entrou. Ivan de um sorriso amarelado. "Ya está... se era pra dar merda, já de. E de novo... queuspariu", pensou.

Mas, conforme as faixas passavam, as palavras não vinham. Engasgava. Gaguejava. Ele não conseguia concluir uma frase sem um palavrão. Seu vocabulário já estava pra lá de poluído e ninguém na época estava acostumado com isso. "Até o Marcelo Nova teve programa em rádio, mas pô, isso foi anos depois... acho que mifu pesado", mormurou. Mesmo assim tentava improvisar e tropeçava. As mãos suavam, a testa ardia.

Depois de cinquenta minutos que pareceram dez horas, a luz vermelha apagou.

O chefe entrou, cara neutra:
— Foi… ok..  é, poderia ser melhor. Você fala de maneira muito bruta. Vai ter que corrigir isso. Cara, cê precisa de ritmo. Se é jazz tem que ser refinado. Você não pode falar como um servente de obras, sacô? Acho que você esta nervoso demais. Ouvinte não perdoa isso.

Ivan desceu a rua da Paulista sem enxergar nada além de luzes borradas. Em casa, abriu uma garrafa de vinho barato e apagou na poltrona, com o gato da vizinha enroscado no colo.

— Esqueci que você sempre escapa da casa dela. Tem duas casas, né, malandrão?
— Claro — respondeu o gato.
— Pô, você fala!
— Hoje eu tô afim.

Ivan piscou, meio bêbado.
— Hoje pode ser amanhã, que foi ontem. O agora é o passado do futuro.
— Gosto de filosofia. Por isso que venho aqui. Ora pra te ouvir falando sozinho.
— Mas por que nunca respondeu antes?
— Porque geralmente eu só tenho fome e acho essa sua poltrona uma maravilha. A Creusa só fala de novela e problema de família, um tédio. Você as vezes solta umas coisas engraçada. Tipo: vai te a merda pelotudo. Ninguém fala assim aqui. Só você.

Ivan riu, coçou os olhos.
— Falando em dormir… preciso descansar. Vai ficar aí?
— Deixa a porta entreaberta. A Creusa me chama logo logo.

— Tá bom, Miles.
— Pitôco, pish pish pish…
— Te falei!
— Pra Creusa eu sou Pitôco. Que merda. Pra você, Miles. E pra uma senhora do 307, Lindomar.
— Caraca, tu é um filho da puta mesmo. Espera a vez sem estrilar. Que bicho da desgraça. Já comeu?
— Não. O que tem?
— Pizza.
— Baah… deixa pra lá. Da Creusa eu ganho sardinha. Só venho aqui pelo sofá e pela música.
— Vai então. Até daqui a pouco.
— Até uma próxima. Se houver.


Quando abriu os olhos, não estava na mesma noite.

Era três meses depois. O calendário da cozinha marcava agosto de 1991. O rádio, ligado sozinho, repetia o boletim esportivo da Gazeta.

O telefone tocou. Ivan atendeu, sonolento.
— Ivan? — era a voz seca do chefe. — O programa não deu certo. Ou você volta pra técnica, ou está fora. Decide.

Ivan não discutiu. Apenas murmurou:
— Cara, eu volto. Sem nenhum problema.

Desligou e ficou parado. O gato saltou para a mesa, encarando-o. Os olhos verdes brilhavam no escuro.

— Voltar é fácil, não? — a voz não vinha de lugar nenhum, mas soava clara. — Difícil é aceitar que você nunca muda nada.
Ivan riu nervoso:
— Pois é, meu caro. Que merda, né?
— Falando em merda… vomitei no tapete da entrada e mijei no seu tapete . Limpa aí.
— Filho da puta! Vou te xingar de Pitôco e esquecer que você é Miles.
— Pitôco pra Creusa, Miles pra você e Toninho pra Lindomar pra dona do 307.

Ivan gargalhou cansado. O gato ergueu o rabo, se espreguiçou e disse:
— Até logo, Ivan. O futuro não espera.

E saiu pela porta entreaberta.



Reacties

Populaire posts van deze blog

América Invertida: A Virada de Olhar que a América Latina [por Frederico Ileck]

Precisa Reflexões sobre identidade, ancestralidade indígena e a descolonização do olhar latino-americano a partir da obra de Joaquín Torres-García.  Obra " América Invertida ", de Joaquín Torres-García, 1943 Recentemente, fiz um teste de DNA e descobri algo que mexeu profundamente comigo: 4,5% do meu sangue é indígena. Parte dessa herança vem do norte da América do Sul (Venezuela, Colombia e Equador), outra parte do Chile. E no meio desses percentuais, de dados frios e distantes, existe uma mulher cuja presença ainda ecoa, mesmo que o silêncio tenha tentado apagá-la: minha bisavó, Dona Maria Ursula Andrade . Uma gigante silenciada pela história da minha família. Uma mulher invisível aos olhos dos que preferiram contar outras versões da nossa origem. Pois é a ela que eu dedico este texto. Durante muito tempo, minha família insistiu em uma identidade que não nos pertencia. Repetia-se, quase como mantra, que nossa origem era italiana, europeia, como se isso n...

KALL MALX E O PLANO INFALÍVEL DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS (por Frederico Ileck)

Meu caros leitores, confesso sem pudor nenhum: sou um cartunista frustrado. Não de hoje. Já tentei de tudo pra vingar nessa arte nobre e ingrata, mas o mercado, a vida e minha caligrafia, meus péssimos rascunhos conspiraram contra mim. Entretanto, tenho meus eurekas. Momentos em que o cosmo e o Walter Mercado (ligue giá) me sopra uma ideia e eu, humilde servo da inspiração, pego o lápis e faço merda! Minha especialidade — se é que posso chamar assim — é misturar figuras monstruosas, filosóficas ou simplesmente patéticas com personagens de desenho animado. Já produzi obras que a posteridade ainda não soube apreciar: Mickey Myers (Mike Myers + Mickey Mouse); Dolly Kroeger (Dollynho seu amiguinho + Freddy Krueger); e o clássico Kall Malx (Cebolinha + Karl Marx), um filósofo revolucionário de planos Infalíveis. Pois bem. Estava eu revisitando o passado glorioso desta república de meu deus chamada Brazilzil quando me deparei com uma pérola da Veja de outubro de 1987. Um sargento de ...

O Brasil se digitalizou antes de se alfabetizar (por Frederico Ileck)

Entre memes e desinformação, o país da internet rápida e da escola lenta tropeça no próprio atraso Em 2024, o Brasil contava com mais de 84% da população conectada à internet — mais de 181 milhões de pessoas com acesso à web, de acordo com o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Em contrapartida, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua ude Educação, cerca de 11 milhões de brasileiros ainda são analfabetos — o equivalente à população de Portugal. Pior: se considerarmos os semianalfabetos, que conseguem juntar letras mas não compreendem o que leem, o número salta para quase 38 milhões de pessoas, conforme estimativas do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional). A matemática é simples e assombrosa: temos mais brasileiros conectados do que alfabetizados. A frase, que pode parecer exagerada, é uma síntese cruel do Brasil contemporâneo: um país onde o acesso à internet precedeu o acesso à compreensão. Um país onde os dedos navegam a...