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Santos 1999 - (Capítulo 5 – Parte 3: ivancito) - por Frederico Ileck

Capítulo 5 – Parte 3 (Ivancito!)

A chave rodou, pesada, mas o que se abriu não foi o apartamento sufocado de Ivan, e sim a sala da Nonna Amabile.
A luz amarelada pendia do teto, refletindo na cristaleira cheia de copos. O ar tinha cheiro de café passado e lavanda.

No tapete gasto, a Nonna estava sentada, arrumada como se fosse sair para um concerto.

—  O quê? Eu estava no corredor do meu apartamento... e apareço na casa da minha avó? Ela morreu há semanas!

Do fundo da sala, a voz firme soou:

— Ivancito… en español, siempre. Nada de portugués aquí. Fuera de casa todo bien, aquí no. Aquí es mi pedacito de Montevideo.


Ivan suspirou. Como aquilo era possível? “O negócio é me render”, pensou. “Não há saída. Onde vou parar? E o Raul? Se ele tá morto tem que aparecer também, porra.”

Mudou de idioma com esforço. Quando falava espanhol, não era o Ivan terrível. Era apenas Ivancito.

— Está bien, Nonna… pero no empieces con tus cosas.

— ¿Mis cosas? ¿Mis cosas son cuidarte? Esa chica, Ilda… siempre pregunta por vos, siempre llama. Es una joya, Iván. Mucho mejor que esa Carla, que se va a ir, ya lo vas a ver.

Ivan revirou os olhos.
— No sé quién es esa Ilda. Acabo de conocerla y ni siquiera sé si existe. ¿Entiendes? Ni yo lo sé. ¡No me interesa, Nonna! Y Carla… ella es distinta. Ella entiende.

A Nonna ergueu a sobrancelha, paciente, mas firme.
— Vos nunca entendés, Ivancito. Siempre egoísta, siempre pensando que el mundo espera tu música, tus palabras, tus discos. Parte de la culpa es nuestra. La música que te inspiró era de tu abuelo y él quería que fueras su heredero. Pero vos te lo tomaste demasiado en serio. Te cegaste con tu propio ego. Y yo siempre te lo decía en el hospital: parecías en trance. Consumías más drogas que yo antes de morir. Pero hay quienes esperan por vos de verdad.

Ivan tentou desarmar o clima com um sorriso.
— Nonna… ¿drogas? ¿Qué drogas? ¿De dónde sacaste eso?

Ela suspirou, com doçura e pena ao mesmo tempo.
— Sí, Ivancito. ¿Crees que no me di cuenta cuando viniste a verme? Eras un muerto viviente. Yo tampoco existo ya. Como yo tampoco. Y vos lo sabés. Mirate… estás entre mundos. Esas cosas que tomás te dejaron así. ¿No lo ves?

Um arrepio percorreu o corpo de Ivan.
— Nonna… yo soy un tremendo hijo de una re… pu…

Ela estendeu a mão enrugada, acariciou-lhe o rosto como fazia na infância.
— Pero tú solo eres un pelotudo. El tonto de la nonna. Todavía no es tu hora, Ivancito. Pero ya no dependés de mí. Seguí tu camino.

Ivan a olhou, tomado por uma tristeza imensa.
— Ciao, Nonna… adiós, nonnina.

— Ve. Tal vez el nonnino te esté esperando. Decile que yo también quiero hablar con él. Y que deje el trabajo antes de morirse de preocupación.

— Ya murió, Nonna. De un ataque al corazón.

Ela sorriu com timidez.
— Ve, ve. Y no olvides cerrar la puerta, por favor.

Ivan obedeceu. Só que, ao girar a maçaneta, não entrou no corredor de seu prédio, mas em um armazém da Companhia Docas de Santos.

Um escritório empoeirado: pilhas de papéis, livros técnicos, planilhas abertas, o cheiro adormecido de charuto. As marcas inconfundíveis do avô, Sasha Horovitz.

A luz da lua atravessava as janelas altas. O portão de ferro estava entreaberto. Ivan seguiu, cauteloso, até o pátio externo.
O porto estava deserto, como se o tempo tivesse parado. Apenas um único container permanecia no cais, iluminado por dentro.

E de lá vinha a música.
Um jazz, impecável, um vinil sem chiado, com a nitidez de um trio tocando ao vivo. Não dava para distinguir, porém Ivan sabia que só uma pessoa ouvia repetidamente aquele tipo de música. "Dave Brubeck... é tão sublime. É lindo... é tão fantástico que nem quero saber mais onde estou. Se isso for real, agora, estou em um sonho", murmurou.

Ivan caminhou até debaixo de um guindaste. O eco dos passos contra o metal soava como batidas de coração.
Aproximou-se do container. A porta estava entreaberta.

No instante em que pousou a mão no aço frio, o som aumentou, irresistível, como se o puxasse para dentro.

Abriu a porta. Lá dentro havia apenas uma poltrona de couro, uma luminária art déco, uma mesinha com um livro aberto… e um senhor fumando charuto, atrás de um jornal do dia.

Data: Santos, 25 de janeiro de 1959.

Ivan tinha acabado de nascer. Seu avô, o Nonnino Sasha, estava comemorando ao jeito dele. Claro, como sempre, trabalhando. Estava com seus quase 55 anos. Ivan havia visto ele daquele jeito apenas em fotografia. Seu estilo era o mesmo. "Nonnino, como eu queria ser voce", pensou Ivan.

— ¿Quién eres tú? — o homem ergueu os olhos do jornal. — Te pareces al tonto de mi asistente. Solo que él se peina y se afeita. Tú, no.

Ivan congelou, a voz presa na garganta.
— Nonnino… soy tu nieto.

— Imposible, mi nieto nació hoy y por eso mi asistente está libre. Salga de aquí ahora mismo y no me interrumpa más.


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