Doorgaan naar hoofdcontent

Santos 1999 - (Capítulo 5 – Parte 2: A Porta 108) - por Frederico Ileck

Capítulo 5 – Parte 2: A Porta 108

O elevador subia devagar, estalando como se fosse desabar a qualquer instante. Ivan, encostado no corrimão, lembrava-se de Carla — sempre ela, como uma ressaca que não passava nunca.

Filha de um assessor político e de uma advogada lá do Planalto Central, crescera entre os salões de Brasília, mas nunca se deixou prender pelos corredores de poder. Se formou em jornalismo e, logo de cara, já escrevia pros grandes jornais do país. Vivia de freelas bem pagos, e parecia ter a sorte de sempre cair em pé. Escrevia bem, tinha uma presença que chamava atenção em qualquer lugar, e aquele sorriso hipnotizador. Ivan chamava de “Gata da Alice”, por causa do sorriso enigmático do gato de Alice no País das Maravilhas. Fazia a piada com ar de deboche, mas no fundo morria de ciúmes do fascínio que ela causava nos outros.

Enquanto ela subia, ele afundava.

Carla trabalhava em São Paulo, mas escolhera viver em Santos por causa de um projeto mal-acabado dele: a rádio de frente pra praia. Um investimento que parecia promissor, mas que naufragou junto com os sócios — todos caíram fora, menos ele, teimoso, afundando junto com o barco. Ela, no entanto, gostava da cidade, e alugara um apartamento no Gonzaga, espaçoso, com vista. Ele, com o bolso curto e suas manias, comprara um caixote que chamava de “apê”, e que ela detestava. Pequeno demais, claustrofóbico, sem charme. Raras vezes ia lá, mas tinha as chaves. Usava as vezes como escritório e também para guardar materiais da rádio. Quando tinha discussões intensas com Carla, dormia no local. Só!

E agora, parado diante da porta amarela descascada do 108, com a chave suada entre os dedos, Ivan tinha certeza de que era Carla quem estava dentro. Só podia ser.

Girou a chave.
Travada. Como se houvesse outra do outro lado, segurando o miolo.

Do apartamento, veio um som abafado: panela batendo contra o fogão. Passos lentos. O cheiro de comida escapava por baixo da porta. Ivan riu sozinho, nervoso, quase patético.

— Se for a Carla mesmo… vai ser um inferno. Nem sei que dia é hoje. A gente tinha muitos ranca rabos — murmurou.

Então, um detalhe o paralisou: havia um rádio ligado lá dentro. E a voz que saía não era qualquer locutor. Era a dele. Ele próprio, apresentando um programa antigo, uma entrevista esquecida, um comentário que já não lembrava ter feito.

Ivan recuou um passo. O corredor parecia mais comprido do que antes, o elevador havia sumido atrás dele — só parede de concreto, sem porta. O número 108 sumiu, a porta trocou de cor, como se alguém tivesse acabado de pintá-la.


Reacties

Populaire posts van deze blog

O Brasil se digitalizou antes de se alfabetizar (por Frederico Ileck)

Entre memes e desinformação, o país da internet rápida e da escola lenta tropeça no próprio atraso Em 2024, o Brasil contava com mais de 84% da população conectada à internet — mais de 181 milhões de pessoas com acesso à web, de acordo com o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Em contrapartida, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua ude Educação, cerca de 11 milhões de brasileiros ainda são analfabetos — o equivalente à população de Portugal. Pior: se considerarmos os semianalfabetos, que conseguem juntar letras mas não compreendem o que leem, o número salta para quase 38 milhões de pessoas, conforme estimativas do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional). A matemática é simples e assombrosa: temos mais brasileiros conectados do que alfabetizados. A frase, que pode parecer exagerada, é uma síntese cruel do Brasil contemporâneo: um país onde o acesso à internet precedeu o acesso à compreensão. Um país onde os dedos navegam a...

Alli Willow e o ofício de existir em cena (por Frederico Ileck)

O Festival de Cinema de Rotterdam terminou esta semana e, entre tantos filmes, um trailer em especial me chamou a atenção: o de Yellow Cake. Em poucos segundos, a presença de Tânia Maria, com sua espontaneidade quase desarmante, já tornava o filme mais interessante do que o esperado. Logo depois, surge outra atriz, com um inglês polido, quase impecável. “Já vi esse rosto em algum lugar”, pensei. Fui aos créditos e lá estava: Alli Willow. Para minha surpresa, era a mesma atriz de Bacurau e de outras produções nacionais recentes — muitas delas, surpreendentemente boas. Foram poucos segundos de imagem, mas suficientes para reativar uma antiga paixão pelo cinema nacional. Fui atrás do contato da atriz e acabei conseguindo entrevistá-la. A impressão inicial se confirmou rapidamente: Alli Willow vem se consolidando como uma das presenças mais instigantes de sua geração. Ora, bastava digitar seu nome para que surgissem participações em séries e filmes — uma mais intere...

KALL MALX E O PLANO INFALÍVEL DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS (por Frederico Ileck)

Meu caros leitores, confesso sem pudor nenhum: sou um cartunista frustrado. Não de hoje. Já tentei de tudo pra vingar nessa arte nobre e ingrata, mas o mercado, a vida e minha caligrafia, meus péssimos rascunhos conspiraram contra mim. Entretanto, tenho meus eurekas. Momentos em que o cosmo e o Walter Mercado (ligue giá) me sopra uma ideia e eu, humilde servo da inspiração, pego o lápis e faço merda! Minha especialidade — se é que posso chamar assim — é misturar figuras monstruosas, filosóficas ou simplesmente patéticas com personagens de desenho animado. Já produzi obras que a posteridade ainda não soube apreciar: Mickey Myers (Mike Myers + Mickey Mouse); Dolly Kroeger (Dollynho seu amiguinho + Freddy Krueger); e o clássico Kall Malx (Cebolinha + Karl Marx), um filósofo revolucionário de planos Infalíveis. Pois bem. Estava eu revisitando o passado glorioso desta república de meu deus chamada Brazilzil quando me deparei com uma pérola da Veja de outubro de 1987. Um sargento de ...