O homem tinha 150 anos.
Sim, Lindolfo se orgulhava muito disso.
Andava ereto. Pele enrugada, mas firme. Parecia ter 90. Nadava, pedalava, jogava xadrez, escrevia, lia jornal, revista, bula de remédio, até manual de micro-ondas. Para ele, tudo era milagre. Nada tristeza. Orgulhava-se disso, e como.
— O segredo é não se estressar. O coração, sempre o coração. A cabeça, sempre a cabeça. O resto é só resto.
Todas as manhãs repetia o sermão ao vizinho:
— Cuida do coração, rapaz. Cinquenta e cinco anos e já vive como morto.
Nildo. O vizinho. Homem que conseguiu materializar o estresse. Trabalhava demais, resmungava de tudo. Irritado, não: putaço. Com o cachorro. Com o gato. Com o lixo. Com a lixeira. Com a esposa. Com as filhas. Com o governo. Com o tempo. Com ele mesmo.
— Não preciso de hater, Lindolfo. O maior hater da minha vida sou eu.
Mesmo assim, gostava das histórias.
E Lindolfo tinha histórias de sobra.
— Fulano morreu de topada. Caiu, bateu a cabeça. Uma pena.
— Sicrano engasgou com farofa. Uma pena.
Sempre terminava igual: uma pena.
Um dia, Nildo saiu cedo. Passeio com o cachorro. Uma senhora pediu que recolhesse a merda. Ele surtou. Voltou para casa rangendo dentes.
No quintal, mais merda. O cachorro tinha produzido uma instalação contemporânea: Cocô sobre o Caos.
Nildo bufou, praguejou, tentou limpar correndo, sentiu o peito travar.
— Hoje não, tenho reunião importante! — gritou, tentando ligar para o chefe em vez de para a ambulância.
Pisou no próprio destino: escorregou na obra-prima do cachorro.
O coração explodiu.
Fim.
Lindolfo não resistiu à cena. Correu até os policiais.
— E aí, morreu de quê?
— Ataque cardíaco. Escorregou em alguma coisa. — disse o policial.
Lindolfo sorriu amargo:
— Do coração, sim. Mas morreu na merda. Literalmente.
À noite, contou ao amigo de 88 anos, fumante inveterado.
— O pobre morreu por causa do próprio cachorro. Que vida de merda.
O amigo riu, tossiu, quase morreu ali mesmo. Não falava mais, escrevia bilhetes.
— Sabe — continuou Lindolfo — às vezes não é a idade que mata. É a estupidez. A pressa. O descuido. Uma casca de banana ou um cocô de cachorro dão sempre um empurrãozinho.
O amigo levantou o cigarro. Escreveu no bilhete:
“Eu fumo de um jeito que não faz mal.”
Tossiu. Muito. Ficou roxo. Olhar perdido. Não escreveu mais nada.
Lindolfo balançou a cabeça:
— Mais um. Nem deu tempo de me despedir. Eu sempre avisei: cigarro mata, meu amigo.
Sorriu. Foi dormir.
Acordou no dia seguinte. Vivo. Sempre vivo.
Aos 100 anos, tinha recebido uma placa de bronze:
“Memento Mori.”
Todos os dias lia. Refletia. Ria.
— Lembrar? Parece que alguém esqueceu de mim. Espero que continue esquecendo. — gargalhava.
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