Tem dias que saiu de casa, vejo uma situação e penso:
"QUE P%$RA É ESSA?"
Ontem, a caminho do trabalho, pedalava sob uma chuva chata pacas – daquelas que parecem lavar a pressa do mundo, mas apenas disfarçam o caos. Com os óculos embaçados, cheios de gotas d'água, eu seguia, encharcado, atento a tudo, claro, olhando por cima das lentes. Parecia coisa de videogame desviar das poças traiçoeiras que sujavam minhas calças de lama e o asfalto desnivelado da cidade. Sim, no bairro por onde passo de bicicleta o local é horrível, e quando chove, fica pior ainda.
Daí, algo curioso aconteceu. Do nada, um carro surgiu no sentido contrário em um ritmo que destoava daquela sinfonia urbana encharcada.
O veículo avançava como quem não percebe que está no mundo. Passou por uma lombada em alta velocidade, sem cerimônia, e depois parou sem olhar no retrovisor. Uma freada brusca. O que teria acontecido com aquele cidadão para fazer aquilo do nada?
Com a mão ainda no guidão, olhei para dentro do carro esperando ver sobressalto, susto, talvez um pedido mudo de desculpa. Mas não. O motorista estava com o rosto inclinado para baixo — hipnotizado pela luz de um telefone celular, como se o mundo ao redor houvesse sido pausado para que ele assistisse, sozinho, a uma notificação particularmente urgente.
O carro ficou parado no meio da rua por instantes eternos. Não olhou para os lados, não sinalizou, não demonstrou qualquer traço de convivência básica com a realidade – apenas consumia o conteúdo que piscava em sua pequena tela. Cara, eu não faço a mínima ideia do que esse cara estava vendo. Uma notificação da filha(o)? A esposa que tinha pedido para comprar algo urgente? Algum familiar sumido que reapareceu do nada? Sei lá. Só sei que a cidade ao redor dele se rearranjava para não atropelar sua ausência.
Naquele instante, a pergunta se formou, inevitável: o que havia dentro daquele veículo? Não falo de bancos, tapetes, nem do rádio tocando uma música da moda — falo da cena interior. Porque ali, atrás do para-brisa molhado, não havia apenas um homem absorvido por um post. Havia o retrato miniaturizado de toda uma era: distraída, autossuficiente, impermeável ao entorno.
Talvez, diriam os filósofos franceses à deriva nas notificações, seja esse o ápice da estética da indiferença. A fronteira entre civilização e escárnio dissolvida sob wi-fi. (Se leu esse trecho, coloque como fundo a abertura de Star Trek.)
Guy Debord bem poderia relatar o episódio como exemplo prático de um espetáculo que aboliu o público — agora somos todos protagonistas egocentrados de monólogos virais. Hannah Arendt, perplexa no banco do carona, talvez identificasse ali o germe da banalidade — não mais do mal, mas da distração. Bauman perguntaria se há como fixar qualquer ética em solo tão escorregadio quanto a chuva que caía na esquina da minha manhã.
E eu ali, com a bicicleta em movimento e a roupa encharcada, me dei conta: o motorista não estava em trânsito — estava em transe. A sorte dele é que não havia ninguém vindo atrás... seria uma paulada e tanto! Mas aí você, craque do trânsito: se um tonto para o carro e você acerta a traseira dele, a culpa é sua? De jeito nenhum! A burrice é dele, entretanto ele deve se achar o máximo — e se algum transeunte tocasse no carro dele naquele momento, pode apostar que ele encontraria todos os erros do mundo, menos o dele.
Bem-vindos ao mundo moderno. E há otimistas que juram que isso ainda vai piorar.
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