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O canal 32 [por Frederico Ileck]

Em 1990, eu morava em Santos, a poucos quilômetros de São Paulo. Um dia, na escola, comentaram que havia um canal novo na capital: Canal 32, UHF. MTV.

“Precisa de uma caixinha pra sintonizar essa emissora”, dizia um colega.

Movido pela curiosidade, tentei de tudo para ver o canal sem esse tal aparelho. Mexi na antena, digitei o 3 e o 2 juntos, virei a sintonia de todos os canais para ver se aparecia algo misterioso, até coloquei palha de aço na ponta da antena externa — que, por sua vez, era uma antena velha de carro adaptada. Levei essa gambiarra até a janela do terceiro andar do prédio, levantei o braço como se meu corpo inteiro pudesse ajudar a captar o sinal. Nada. A velha TV Mitsubishi só mostrava aquele chiado branco — a neve de um país onde a neve não existe.

No Caderno 2 do Estadão, que meu pai assinava e eu lia como se fosse boletim oficial, a MTV aparecia na programação como “TV A”. Eu lia os horários como quem descobre mensagens de outro planeta: “Às 00h30, Clássicos MTV; às 1h30, Fúria”. Imaginava tudo sem nunca ter visto: Clássicos… seriam Chopin e Bach? E Fúria? Mas fúria de quê?

O canal sumiu do meu radar até 1994, quando eu já morava há alguns anos em São José do Rio Preto — o “buraco do fim do mundo”. Nesse ano, uma emissora pirata da cidade, a rádio Bolha, organizou um show dos Raimundos. A mestra de cerimônias era Astrid Fontenelle, já então a VJ mais conhecida da MTV, uma mistura de madrinha, anfitriã e dona da chave dos bastidores. Não sei como conseguiram levá-la, mas levaram. Na época, não se falava de outra coisa: o primeiro disco da banda estava em todas as conversas — “O Puteiro em João Pessoa”, “o selim da bicicleta” e outras pérolas. Quem abriu foram as bandas Mandiocas Scarface e Nothing Face (trash metal local que, anos depois, se tornariam grandes amigos meus).

Foi como se um fragmento daquele canal invisível tivesse atravessado a tela e aparecido, de carne e osso, na minha cidade. Astrid só abriu o show com um breve monólogo, e depois… só porrada musical. Detalhe: quebraram todos os banheiros do modesto Sesc Rio Preto. Lamentável e esquecível.

Meses depois, meu pai chegou em casa com uma antena parabólica GE, um disco cinza que parecia ter caído de uma nave. Instalamos, o técnico ajustou… e de repente a imagem ficou limpa: lá estava — Bem-vindos ao reino MTV. Era 1994 virando 1995 e comecei a gravar tudo em VHS com meu videocassete JVC, o Cadillac da época.

No Clássicos, Fábio Massari apresentava música como um reverendo apresenta um sermão. Foi ali que descobri Frank Zappa, Lynyrd Skynyrd, Blackfoot, 38 Special, Blues Etílicos, Genesis, Yes, King Crimson, Uriah Heep, ZZ Top. Já o Gás Total e o Fúria Metal, com Gastão Moreira, eram minha ponte para o rock pesado. Nunca fui fã da figura, mas o conteúdo salvava. Hoje até sigo o canal dele no YouTube, Kazagastão. Ele e Massari têm a série Lado B da MTV, que revive o espírito daquela época.

Outra que eu adorava era Cuca Lazarotto — sorriso aberto, jeito acolhedor, olhar que parecia falar com você. Minha irmã chegou a conhecê-la nos bastidores do São Paulo Fashion Week e disse: “Tu ia gostar mais ainda dela pessoalmente”.

Minha irmã também era fã do Cazé Peçanha. Conheci-o num bar na Vila Madalena: na TV, um bufão; ao vivo, calado. Uma das maiores contradições que já vi.

Entre 1994 e 1998, vivi meus anos dourados da MTV. O Disk MTV, com Sabrina Parlatore, era parada, as vezes, obrigatória. Claro, o que eram os top 10 nessa época? De quebra tinha o Marcos Mion representava o lado bagunçado e universitário, com o Piores Clipes do Mundo. A minha esposa adorava aquele caos (eu achava mala pacas). E o Luiz Thunderbird? Esse tinha o Contos de Thunder, e quem assistiu nunca mais esqueceu. Ele me introduziu a Troma Films, a pior produtoras de filmes do mundo.

Foi também nessa época que a MTV trouxe para o Brasil programas e animações que moldaram meu humor: Beavis and Butt-Head, dois adolescentes fazendo trocadilhos tontos e rindo como retardados, Garoto Enxaqueca com seu humor muito similar ao meu, e Æon Flux, a animação futurista que me lembravam muito revistas como Heavy Metal. Sem esquecer outras pérolas alternativas que passavam em horários improváveis, como se fossem segredos para poucos iniciados.

E claro, Rock Gol — a mistura de futebol e rock que juntava bandas, apelidos míticos aos jogadores dados pelos apresentadores Paulo Bonfá e Marcelo Biachi. Os dois ja eram conhecidos pelo programa Sobrinhos do Ataide. Cara, a zoeira era o golaço do programa. O futebol era um detalhe. Dali saíram Chiliquenta, Musa Niseisansei, Boina, Rurururufusss e Klllleeeessstooonnn.

Os shows ao vivo viravam eventos domésticos: lembro de assistir Scorpions em 97 pela TV, já que seis horas de ônibus até a capital estavam fora de cogitação.

O fim dos anos 90 trouxe João Gordo, que colocou a rua dentro dos estúdios, e Hermes & Renato, com seu humor lotado de palavrões, situações surreais e,  mais tarde, dublagens de filmes ruins no Telaclass. Eu e minha esposa sempre assistíamos e perguntávamos: “Será que rola aquele moranguinho malandro depois da janta?”. O Massacration, outra piada só que levada a sério pelos integrantes, chegou a tocar em Rio Preto. Felizmente não fui ao concerto.

De 1998 a 2003, já de volta à Santos, a MTV era meu despertador. Nessa época vi o Caça VJs e os vjs Leo Madeira e Rafael Tosso e depois Marina Person com CineMTV e Top Top, com rankings absurdos como “Top fãs insuportáveis” e “Top clones e clonados”.

Uma das últimas VJs que me prenderam foi Carla Lamarca. Sempre achei que ela tinha algo familiar, talvez por termos ascendência italiana e alemã em comum. E claro... ela era muito gata 👍. 

Em 2008, já morando na Holanda, a MTV tinha mudado. Via um programa ou outro pela internet. O que mais me chamou a atenção foi o que Marcelo Adnet ficava em um quarto cantando canções a parte. Uma das suas imitações foi impagável. Lembro dele cantando Guns N’ Roses com a voz do Silvio Santos. A relação virou encontro ocasional.

Entre 2010 e 2013, a MTV vivia mais no YouTube que no canal 32. Em 30 de setembro de 2013, assisti pelo YouTube ao Último Programa do Mundo e vi a tela afinar até sumir.

Hoje, quando fecho os olhos, volto ao pó do show dos Raimundos, ao Caderno 2 sobre a mesa, à parabólica GE virada para o céu. A MTV foi minha escola de um mundo paralelo — música, humor, sotaques, postura. Uma bolha cosmopolita e um refúgio alternativo.

Ah, e quase esqueço: na pandemia aceitei um projeto que nunca finalizei e acho que nem vou finalizar. Uma animação para um clipe de Carolina Sá, ex-VJ e apresentadora do Moda Esporte Clube. Eu via o programa às vezes para ver minha irmã desfilando no SPFW. Ainda tento terminar essa animação, mesmo ela tendo desistido. Profissionalmente, nesse sentido, me sinto à deriva. Aliás, esse era o nome do filme…

…no dia de São Nunca eu termino. Acho eu 👍



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