Como os médicos holandeses entraram no TikTok para combater o terraplanismo do corpo humano
Numa manhã qualquer de junho, enquanto a casa real holandesa ensaiava mais uma de suas coletivas para anunciar algo sem nenhuma importância, a médica Lotte de Vries abria seu celular e gravava um vídeo explicando, em tom didático e lógico, que parar de tomar anticoncepcionais com base em influenciadoras de bem-estar talvez não seja a melhor ideia. Em menos de uma hora, o vídeo já somava 20 mil visualizações. A legenda dizia apenas: “Ciclo natural ≠ proteção”.
Ela é uma das figuras da iniciativa “Dokters Vandaag” (Médicos Hoje), coletivo informal de clínicos, cardiologistas e endocrinologistas que se refugiaram — ou melhor, se armaram — nas trincheiras do TikTok e Instagram para travar a nova guerra do século XXI: contra a desinformação em saúde. Os vídeos são curtos, didáticos e interessantes. A linguagem, deliberadamente não médica. A audiência? Assustadora. “Tem gente perguntando se pode substituir antibiótico por chá de camomila”, me contou Lotte. “Camomila!”
Mas não é só no TikTok que os jalecos brancos estão se aventurando
Em maio de 2025, a KNMG — federação dos médicos holandeses, fundada em 1849 — lançou a campanha “Gecheckt? Wel zo gezond!”, algo como “Conferiu? Mais saudável assim!”. Com direito a vídeos animados, cartazes em hospitais e até QR codes em salas de espera, o objetivo era simples e gigantesco: ensinar o público a desconfiar de fake news médicas. "Os danos não são tão inofensivos quanto se pensa", dizia o comunicado oficial. A frase foi cuidadosamente escolhida — soa como um aviso, mas também como um lamento.
A motivação veio de números assustadores: 85% dos médicos relataram lidar com pacientes influenciados por informações falsas. Uma parte desses pacientes se recusava a tomar vacinas, outra parte achava que vitamina C curava Covid. Um caso extremo relatado por um clínico: uma jovem que engravidou após abandonar a pílula por orientação de uma influencer que promovia o “poder do ciclo lunar”.
O cenário é tragicômico. O algoritmo, essa entidade sem CRM, entrega likes e alcance a quem fala com mais certeza, não a quem fala com mais base científica. Influencers sem formação alguma dissertam sobre imunidade intestinal, suplementação milagrosa e detoxes que prometem “limpar os rins” com água com limão. Parece absurdo, porém eu cheguei a ssistir um desses videos e ouvir uma pessoa comentando um desses absurdos. Detalhe: a Holamda há anos passa por uma imensa crise na área de saúde e, após a pandemia, recrutou vários profissionais de saúde recém formados.
Enquanto isso, médicos treinados durante anos descobrem que não basta conhecer medicina — é preciso entender de storytelling, edição de vídeo e tendências de áudio.
E o que aparenta, eles estão aprendendo.
Na mesma linha da campanha oficial, projetos independentes também floresceram. Um dos mais respeitados foi o Dokter Media, fundado em 2015 pelos médicos Tijs Stehmann e Lester du Perron. A proposta era descomplicar manchetes médicas que prometiam curas milagrosas para o Alzheimer ou o câncer. Durante quase uma década, o site funcionou como um farol de racionalidade. Mas em 2023, os fundadores anunciaram que não conseguiriam mais manter o projeto. “Sem tempo”, disseram, como quem admite uma derrota modesta, mas inevitável.
Em contrapartida, o vácuo foi ocupado por profissionais menos formais, porém igualmente obstinados. O dermatologista Erik Michels, por exemplo, virou microcelebridade ao desmentir mitos sobre protetor solar no Instagram. Um vídeo seu, ironizando quem acha que “a pele precisa respirar”, viralizou entre jovens de 18 a 30 anos. Outro vídeo, explicando que “óleo de coco não é remédio”, rendeu ameaças de seguidores fervorosos do naturalismo radical. “O culto à natureza está vencendo a ciência pela estética”, ele me disse, meio sério, meio resignado.
É nesse campo de batalha, entre reels, likes e algoritmos, que a medicina se encontra hoje. Os hospitais seguem cheios, os plantões continuam longos — mas agora, depois do expediente, há médicos gravando vídeos na cozinha explicando que vacina não causa autismo, que tomar água não “cura o fígado” e que bactericida não é solução para tudo.
A medicina, aquela mesma que um dia operava em silêncio nas salas brancas dos hospitais, agora dança — literalmente — no TikTok para garantir que o corpo humano continue sendo um lugar minimamente científico.
Fontes consultadas:
KNMG: Campanha Gecheckt
Medisch Contact: “Artsen in actie tegen desinformatie op sociale media”;
NPO Radio 1: Entrevista com Dr. Erik Michels;
Reddit NL: Discussões sobre desinformação médica e campanhas.
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