Entre mafiosos de Nova Jersey, netos de vênetos do Noroeste Paulista até Caxias e estátuas de Colombo vandalizadas, o orgulho ítalo-brasileiro resiste — mesmo que a Itália, propriamente dita, jamais tenha sido consultada.
No terceiro episódio da quarta temporada de The Sopranos, intitulado “Christopher” (2002), Silvio Dante está prestes a explodir. E, para uma vez, não é por causa de um acordo de drogas ou dívida não paga. É por Cristóvão Colombo.
Acontece que ativistas nativo-americanos querem boicotar o Dia de Colombo, feriado norte-americano que celebra o navegador genovês como símbolo da chegada europeia às Américas. Para os descendentes dos primeiros povos do continente, é um dia de luto: genocídio, escravização, apagamento cultural. Detalhe: isso em 2002, ou seja, o cancelamento nessa época era analógico! Sim, uma tremenda confusão é armanda, porque para Silvio e seus comparsas ítalo-americanos, Colombo representa uma espécie de santo laico — um escudo simbólico contra a marginalização histórica. O irônico é que o personagem não sabe absolutamente NADA desse explorador.
E assim o episódio segue com Silvio em seu terno mal cortado e olhar de devoto com raiva. Discursa sobre “respeito às raízes” e “orgulho da cultura italiana”. Ignora que Colombo navegava a serviço da Coroa Espanhola, que jamais pisou na América do Norte e que foi preso por corrupção ao voltar do Novo Mundo. Os fatos históricos são irrelevantes. O que importa é a narrativa étnica, e sobretudo o direito de se sentir injustiçado.
Enquanto assistia à cena, me veio à mente a imagem de um domingo qualquer cidadezinha do interior de São Paulo. Bem, vou chutar uma: Bady Bassitt. Um grupo de senhores jogando bocha em um clube da prefeitura localizado atrás de uma igreja, vinho ou cervejas baratas, discutindo se o nono tinha tocado as vacas e se ele não ia morrrrreerr naquele calorão, sô. Todas essas frases terminando com um Dio Porco ou Porco Dio. Um deles fala com orgulho: "Sou mais Taliano que brasileiro, sô", enquanto ouve Leandro & Leonardo ao fundo. "Aaaoooooooo modão chonado", grita um deles. O outro responde automaticamente com um "Iiiiiihhhhhhhhhhhhaaaaaaaaaa." Se isso for de alguma região da Itália, nasci em Marte! 👍
🇧🇷 Os italianos que não eram italianos
A história da imigração italiana no Brasil é cheia de curvas. Entre 1870 e 1920, o Brasil recebeu mais de um milhão de italianos — sobretudo do norte empobrecido da Itália, regiões como o Vêneto, Friuli, Lombardia. Vieram camponeses analfabetos, muitos fugindo da fome e das guerras locais. A maioria não falava italiano “oficial” , mas sim dialetos locais, como o vêneto, o piemontês, o calabrês. Era gente que, se visitasse Roma, seria vista como gente do mato.
Aqui, foram para o café em São Paulo, as colônias agrícolas no Sul, o ABC industrial e Noroeste Paulista. No meio rural, deram origem a comunidades com identidade linguística própria. O Talian, reconhecido como patrimônio cultural do Brasil em 2014, é falado ainda hoje por cerca de meio milhão de pessoas em cidades como Serafina Corrêa, Nova Erechim e Caxias do Sul. É uma língua híbrida, uma espécie de cigarro de palha aceso no mato alto da globalização.
Mas a italianidade que restou não é só linguística — é também simbólica. Foi reinventada em torno de clubes, culinária e orgulho familiar. A Società Palestra Italia, fundada em 1914 por imigrantes italianos em São Paulo, virou o Palmeiras, um dos maiores clubes do país. A mudança de nome veio com a Segunda Guerra, quando Mussolini deixou de ser charmoso e virou embaraçoso. O Juventus da Mooca, fundado por operários, virou um dos últimos redutos nostálgicos de uma São Paulo ítalo-operária.
É uma italianidade sem Itália.
🍝 Macarrão, sobrenome e um passaporte europeu
Nas últimas décadas, com a explosão da internet e das agências de cidadania, uma nova euforia tomou os descendentes: a busca pela cidadania italiana. Um fenômeno com contornos burocráticos e emocionais. Para muitos, é apenas uma porta de entrada para a Europa; para outros, é um atestado de “não ser totalmente brasileiro”. Um RG simbólico, uma forma de dizer: “não sou só isso aqui, sou europeu também”.
Essa lógica revela muito sobre o complexo de vira-latas brasileiro, já dissecado por Nelson Rodrigues. Ao tentar se afastar do “brasileiro comum”, o ítalo-descendente se apega a uma identidade mítica que o coloca um degrau acima. Como se falar “minha avó era de Pádua” substituísse um curso superior.
Mas há um detalhe incômodo: a Itália não reconhece esse orgulho. No máximo, tolera. No mínimo, zomba. Na visão de muitos italianos contemporâneos, os ítalo-brasileiros são stranieri con il nome italiano — estrangeiros com sobrenome. Gente que não fala a língua, não entende os códigos sociais, e se apega a tradições que a própria Itália já abandonou. Como Tony Soprano, que acredita ser siciliano enquanto devora fast food no subúrbio de Nova Jersey.
🎭 O teatro da origem
A italianidade no Brasil — e nos EUA, na Argentina, no Uruguai — é um teatro de origens. Um ritual repetido aos domingos, com macarronada, vinho de garrafão e um altar para São Gennaro. Um teatro que precisa ignorar o racismo dos imigrantes originais, que se viam acima de negros e indígenas. Que precisa esquecer a relação dúbia com o fascismo. Que precisa embelezar a pobreza com tintas românticas: “nonno chegou com uma mão na frente e outra atrás...”.
Assim como Silvio Dante protesta contra a revisão histórica, muitos ítalo-brasileiros defendem uma memória higienizada. Colombo foi um herói. A imigração foi heroica. A herança é nobre. Mas quase ninguém se pergunta: o que, exatamente, se herdou?
A língua? Quase perdida.
A culinária? Tropicalizada.
A cultura? Recriada.
A consciência histórica? Ausente.
🎬 Final à la una Opera Bufa
No fim do episódio “Christopher”, o protesto em defesa de Colombo acontece. Algumas pessoas aparecem. Um busto é vandalizado. A briga termina em confusão. Ninguém muda de ideia. Silvio volta para casa frustrado. Tony está mais preocupado com dinheiro e traições. E Colombo continua onde sempre esteve: no limbo entre a fantasia e a conveniência.
Talvez seja assim com a nossa italianidade tropical. Um fantasma que alimenta o ego, mas que não nos pertence. Um afeto sem endereço. Uma certidão de nascimento sem mapa. Uma saudade do que nunca foi.
Mas está tudo bem. No domingo tem macarronada.
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