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A sociedade da dopamina [por Frederico Ileck]

No canto de um café no centro de Aachen, um grupo de amigos se reúne. Mas não há conversa. Um rola o feed, outro filma a própria comida. O terceiro fala algo com os olhos grudados na tela. Ninguém ouve e logo deixa pra lá. Ele e seus amigos já foram sequestrados por retângulos luminosos. Há um silêncio que não é silêncio — é ausência de presença. Um vazio recheado de luz azul. Estranho isso? Pois é, eu vi e não acreditei! Parecia coisa de romance despótico.

Daí...

A profecia!!!

Não quero brincar de Nostradamus, entretanto George Orwell previu um futuro de censura, medo e repressão: o Grande Irmão observando cada passo, queimando livros, torturando mentes. Mas errou em um detalhe crucial — o método.

Foi Aldous Huxley, esse sim acertou em cheio. Em seu Admirável Mundo Novo, compreendeu o que realmente nos destruiria. Não pelos sofrimentos e as angústias de ser censurado ou controle pela dor, mas pela dopamina. Não o terror, mas o tédio. Não o chicote, mas o toque suave do “like” 👍. 

A droga inventada por Huxley, o SOMA, servia para calar qualquer impulso de questionamento. Hoje, ela tem novo nome: Instagram. TikTok. WhatsApp. Somos uma sociedade dopaminada, eternamente distraída, incapaz de tolerar o silêncio. A reflexão virou uma ameaça. A introspecção, um luxo. A presença do outro, um incômodo.

A ditadura da distração

Sim, todo mundo hoje sofre de TDHA!!! Estranho isso. Por isso as redes sociais não são mais redes: são mercados de atenção. E atenção virou moeda. Um scroll vale centavos. Um clique, um dólar. Sua raiva, seu desejo, sua pressa — tudo foi transformado em capital. Empresas ganham muito dinheiro com o sofrimento alheio. Quanto pior, melhor para eles, óbvio! 

Mas o que se perde, nessa economia de distração, é invisível e profundo. Perde-se a escuta. Perde-se o espaço entre duas frases, onde mora o pensamento. Perde-se a pausa, esse intervalo precioso em que a alma respira. O que sobra é um zumbido constante, um “feed” que se move sozinho — como uma esteira rolante que não leva a lugar nenhum. Em menos de dez minutos, uma pessoa vê mais de 100 diferentes assuntos e não absorve nenhum. O que antes era um absurdo, hoje está se tornando normal.

Somos a geração mais distraída da história

Nunca estivemos tão cercados de vozes e, paradoxalmente, tão surdos uns aos outros. Aparentemente não sabemos mais fazer perguntas sem digitar. Não sabemos mais olhar nos olhos sem desviar para a notificação. Conversamos como quem teme o silêncio, como se ele denunciasse a nossa ausência interior. Como largassemos nossos telefones  e em menos de segundos uma mensagem aparecesse no "smarthwatch" e faz contato que a nossa atenção volte a toda hora ao aparelho. Não há mais diálogo, não há mais tato. 

Mas talvez o mais trágico não seja o vício — é o que ele revela: que estamos fugindo de nós mesmos. Estamos criando um avatar digital que é o nosso EU inconsciente. Sem críticas, sem contato direto com outras pessoas. Dá a impressão que preferimos mil vídeos a uma conversa. Que uma notificação falsa vale mais que um abraço real. Que o toque na tela substituiu o toque na pele. Estamos anestesiados.

O preço da anestesia

Pagamos um preço alto por esse anestésico digital. Perdemos a memória da experiência humana. Esquecemos o prazer da escuta lenta, da fala com hesitação, da caminhada sem direção. A vida tornou-se conteúdo. A intimidade virou stories. E a dor - essa que nos forma - virou algo a ser silenciado com emojis.

Huxley tinha razão: não precisaríamos mais queimar os livros. Basta que ninguém mais os queira ler.

Um convite ao desconforto

Talvez ainda haja tempo. Tempo para reaprender o silêncio. Para reaprender o olhar. Para sair à rua sem GPS, sem fones de ouvido, sem meta nenhuma. Para conversar como quem cava um poço, em busca de água. Para desligar o celular e, com isso, se conectar ao real mundo novamente.

Não se trata de nostalgia analógica. Trata-se de defesa civil. Humanitária. De proteger o que há de mais raro: o encontro verdadeiro entre dois corpos, duas vozes, dois mundos.

Imagine, por um instante, uma tarde sem conexão. E aconteceu recentemente isso. Na Espanha! O que fizeram? Sairam automaticamente de suas casas e foram as ruas CONVERSAR, isso mesmo.... BATER PAPO! As ruas ganharam mais vidas, o tempo voltou a ter cheiro. As pessoas voltariam a ter rosto. E por isso o mundo, talvez, voltasse a pulsar. Convido você a desinstalar suas mídias sociais, bloquear o YouTube via um web browser e assisti-lo na hora que você quiser e escolher assuntos que passam pela sua cabeça  e não uma coisa sugerida por um algoritmo qualquer? No passado, você escolhia um livro ou um filme pela sinopse dele ou pela atendente no qual voce estava afim? Eu pelos dois. E os dois, meu querido leitor, são escolhas analógicas!!! 

F$DA-SE AS BIGTECHS!!!!


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