(Sub)Celebridades que não consigo compreender: Lobão - o biruleibe do rock errou! [por Frederico Ileck]
Na vitrola empoeirada da cultura brasileira, poucos discos giram com tanta dissonância quanto os de Lobão. Músico, panfletário, incendiário ocasional — e, acima de tudo, um personagem irredutível à lógica binária que tanto assombra o debate nacional. João Luiz Woerdenbag Filho, nome que parece saído de um filme expressionista alemão ambientada no Leblon, é um daqueles casos em que o artista parece fugir à compreensão tanto do público quanto de si mesmo.
A biografia de Lobão é uma jam session permanente entre delírios ideológicos e invenções estéticas. Começou como baterista em bandas como o Vímana — uma curiosa união de talentos progressivos como Lulu Santos e Ritchie — que durou menos do que um solo de Moog. Passou rapidamente pela Blitz (expulso, segundo a lenda, por excesso de ego e volume). Mas foi nos anos 80, à frente de Lobão e os Ronaldos, que ele finalmente vestiu a pele do roqueiro indomável — um lobo solitário armado com guitarras, frases de efeito e uma pulsão autodestrutiva invejável.
Foi nessa época, mais precisamente em 1986, que entrei na casa do meu primo Marcelo — um garoto alguns anos mais novo, vidrado em guitarras, fitas K7 e slogans do rock nacional. Em cima da vitrola dele estava o vinil de O Rock Errou, cuja capa exibia uma mulher seminua numa pose que misturava rebeldia e sensualidade de banca de jornal. O primo achava aquilo o máximo. Eu achava amiga da capa uma gostosa, porém a musica era apenas um detalhe. Era bem apelativo, quase caricatural. Do mesmo nível da capa do primeiro disco da Xuxa! Aquilo sim, uma obra prima! O ápice do design gráfico tupiniquim. Cara... isso não vem ao caso.
Vamos voltar ao Lobão! Não tive qualquer curiosidade em ouvir o disco. Para mim, Lobão era só mais um babaca do rock carioca, perdido entre afetações e jaquetas de couro e uma escola de samba que colocou no palco do Rock'n Rio! Teve direito a saco de mijo voador, pilhas e, segundo um amigo que foi ao show, três oitão de baterista da Mangueira mostrado ao público (sem dó.. O cara entrou armado no palco hehehehee Brazilzilzil)
Ironicamente, só comecei a prestar atenção nele de verdade muitos anos depois — não por causa de um riff ou uma letra epifânica, mas quando decidiu enfrentar as gravadoras com um projeto editorial inusitado. O selo OutraCoisa, lançado nos anos 2000, revelou um Lobão editor, produtor, curador — papéis que lhe caíram surpreendentemente bem. Com a revista que encartava CDs de bandas novas, ele rompeu com a lógica das majors e deu palco a nomes como BNegão, Autoramas, Cachorro Grande e outros. Era, de certo modo, o mesmo roqueiro desbocado, mas agora armado de estratégia, visão e — veja só — algum bom senso.
Mas bom senso é volátil em se tratando de Lobão. Se o circuito independente o consagrou como visionário, a política foi seu palco de desatino. Na eleição de 1989, declarou apoio entusiasmado a Lula. Tempos depois, rasgou elogios ao MST. No entanto, já nos anos 2000, embarcou no movimento antipetista com um fervor quase religioso. Durante as manifestações de 2015 e 2016, lá estava ele: camisa preta, verborragia afiada, selfies com MBLs e demais criaturas do pântano político.
Em 2018, flertou com o bolsonarismo. Não apenas votou — fez campanha, gravou vídeos, chamou Bolsonaro de “última esperança contra o totalitarismo esquerdista”. Pouco depois, começou a reclamar do governo como se tivesse descoberto que o espeto do churrasqueiro era feito de pau. “Traíras”, “imbecis”, “autoritários de araque” — foram os adjetivos que Lobão disparou contra aqueles que, semanas antes, ovacionava.
Entre uma guinada e outra, apareceu Olavo de Carvalho. Uma amizade de ocasião, talvez uma identificação no caos. Lobão o definiu como “divertido, perspicaz e punk”, o que diz mais sobre Lobão do que sobre Olavo. A relação durou o suficiente para uma ou duas lives e uma sequência de comentários constrangedores no Twitter, até que o roqueiro voltou a girar a bússola ideológica e declarou que Olavo era “dodói mental” e “uma fraude”.
A impressão que fica é a de um homem que leva seus rompimentos tão a sério quanto seus engajamentos — isto é, até a próxima entrevista. Lobão opera por antagonismo: é contra a indústria fonográfica, contra os partidos, contra o sistema, contra os aliados de ontem. Sua coerência é a incoerência como estilo. Se o Brasil tivesse um Dadaísmo político, ele seria seu Hugo Ball — ou ao menos seu baterista.
Essa eterna performance de contradição confere a ele um lugar peculiar no imaginário nacional: o de alguém que nunca consegue permanecer quieto, mas que, às vezes, por pura insistência, acerta. Como no caso da OutraCoisa, quando deu voz a bandas esquecidas pelas rádios, ou quando previu, antes de muitos, a mediocridade embalada que se instalaria em Brasília pós-2018. O problema é que suas análises vêm sempre misturadas a acessos de ira, ressentimento e um vocabulário que beira o stand-up político involuntário.
Talvez por isso, falar de Lobão seja menos sobre entender um artista e mais sobre descrever um sintoma — de uma época, de um país, de uma intelligentsia que falhou em prever suas próprias caricaturas. E nesse espelho rachado da cultura brasileira, Lobão ainda se vê como protagonista — mesmo que o público já tenha virado a página.
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