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A Ditadura da Estética e o Desespero da Perfeição [por Fred Ilek]


I. O suposta perfeição como sintoma

“Lembre-se: a mina que está de biquini tomando água de cocô na praia está até mais fudida que você.” A frase surgiu como piada na minha cabeça. Parece até aquela suposta dor de cotovelos, dessas que circulam entre stories, grupos de WhatsApp e timelines exaltas. Essa guria que sempre se expõe esconde a suas inseguranças e carências vindas do lar dela. Ela joga a sua atenção  e foco as redes para ganhar aquilo que nunca teve. E para explicar melhor: em si há uma verdade incômoda, quase brutal. Por trás do bronzeado uniforme, do filtro cálido e da aparente leveza da água de cocô, pode morar uma vida em colapso — emocional, financeiro, existencial. Que drama, entretando você consegue viver o dia inteiro sem conflitos ou até mesmo sem ficar nervoso com nada? Se conseguir, parabéns! Tu és uma baita exceção!

Caso não,  vamos entar e pensar em alguns fatores. Numa era do hipercompartilhamento e hiper exposição, não é mais preciso ser feliz. Basta parecer. A selfie de biquíni, como símbolo, não é só uma imagem: é uma narrativa construída. Um roteiro de um ato só, onde o espectador acredita, ainda que por segundos, que a vida ali é leve, bonita e merecida. Mas por trás do sorriso plastificado e da barriga negativa pode haver um endividamento emocional sem precedentes.

II. A estética da ilusão

Guy Debord já havia nos advertido em A Sociedade do Espetáculo: tudo que era vivido se tornou representação. A imagem substituiu a experiência. Não vamos mais à praia para sentir o vento ou o sal; vamos para capturar a moldura perfeita, digna de feed. A vida é um banco de dados de pequenos delírios visuais, onde a estética suprime a verdade.

Byung-Chul Han, cirúrgico, escreve que vivemos num regime de positividade, onde a exposição se confunde com a existência. Nesse sistema, a tristeza real não cabe. A dor não pode ser compartilhada se não vier com legenda de superação e enquadramento solar. O feed é o novo confessionário — só que ali, o pecado é ser real demais.

A mina do biquininho, supostamente perfeita, talvez esteja em crise de identidade, com crise de pânico, em relações falidas e dívidas emocionais acumuladas. Numa tremenda insegurança. Mas seu corpo diz o contrário. E no mundo digital, o corpo fala mais alto que qualquer palavra.

III. A psicologia do colapso

Freud talvez não soubesse prever o Instagram, mas entenderia bem o que ele faz conosco: promove neuroses de comparação, recalques em HD, invejas em tempo real. Hoje, já não se reprime o desejo — expõe-se. E quanto mais se expõe, mais se esvazia. Na clínica contemporânea, proliferam transtornos diretamente ligados à lógica das redes: dismorfia corporal, burnout afetivo, depressão de comparação.

Winnicott falava do falso self como estrutura defensiva: aquela persona que você veste para sobreviver às demandas do mundo. No universo digital, essa defesa se tornou norma. Todo mundo é falso o tempo inteiro. Ninguém tem um dia ruim no Instagram — só “aprendizados”. Ninguém sofre — apenas “evolui”.

A mina do biquini não é exceção: ela é a regra. Um falso self com biquíni neon, um copo de água de cocô e um mar ao fundo que, por dentro, já secou.

IV. O elogio da imperfeição

Existe uma revolução possível: a da honestidade. Não a honestidade-clichê, feita de textões motivacionais, mas a que não tem medo de ser comum. A selfie feia. O dia sem post. O fracasso exposto sem o disfarce do storytelling. A volta ao real como forma de resistência.

Camus dizia que resistir ao absurdo é um ato de revolta. Pois bem — resistamos. À ditadura do sorriso, ao culto da estética, ao mito da felicidade permanente. Que tenhamos coragem de ser feios, tristes e invisíveis. Só assim talvez possamos, finalmente, ser livres.

Epílogo: A última selfie de Narciso

Narciso, hoje, não morre afogado no lago ao se apaixonar pelo próprio reflexo. Ele morre de tédio, deslizando o dedo no reflexo dos outros. Não se encanta, apenas se compara. Não se vê, se fragmenta. Está cercado de imagens — mas sem espelhos.

A mina do biquinho? Talvez ela exista. Talvez nem seja real. Talvez seja um conglomerado de algoritmos, marketing e carências ancestrais. O que importa é o que ela representa: o ideal inalcançável contra o qual você se mede e, invariavelmente, perde.

Mas aqui vai o segredo que ninguém posta: ninguém está vencendo. Todos estão apenas tentando parecer menos perdidos que o outro. A praia é só um fundo de tela. A água de coco, um copo meio vazio. E o biquinho? Um pedido mudo de socorro — com filtro Valencia.



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