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Pierre Verger e Marcel Gautherot: Imagens de um Brasil Invisível aos brasileiros [por Frederico Ileck]

Por décadas, o Brasil foi visto e interpretado por olhos estrangeiros, fascinados por sua complexidade, sua miscelânea cultural e seus mistérios religiosos. Pierre Verger e Marcel Gautherot, dois franceses, desembarcaram aqui em meados do século XX e deixaram um legado visual e intelectual inestimável. Se um (Verger) abandonou o conforto do ocidente para se tornar iniciado no candomblé, o outro (Gautherot) se tornou o grande narrador visual do Brasil moderno. A interseção de suas trajetórias revela não apenas um país em transformação, mas também diferentes formas de olhar para ele.

Pierre Verger: O Nômade da Imagem e da Palavra

Pierre Fatumbi Verger (1902–1996) é um caso raro: um viajante incansável que se fez antropólogo, um fotógrafo que virou sacerdote. Nascido em Paris, iniciou sua carreira como fotógrafo na década de 1930 e, ao longo da vida, percorreu cerca de 50 países. Mas foi na Bahia que encontrou sua casa.
Suas principais viagens incluíram a Polinésia, a África Ocidental e a América Latina, sempre em busca de sociedades tradicionais que ainda não haviam sido tragadas pela modernidade industrial. Sua chegada ao Brasil, em 1946, transformou sua vida. Em Salvador, mergulhou na cultura afro-brasileira e foi iniciado no candomblé, recebendo o nome Fatumbi. Mais que um mero observador, Verger se tornou parte do universo que registrava.
Seus livros teóricos mais importantes são Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos (1968), no qual rastreia os movimentos transatlânticos da cultura iorubá, e Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo (1981), uma referência incontornável sobre a religiosidade afro-brasileira.
Já no campo da fotografia, suas obras principais incluem Recôncavo Baiano (1994), com imagens que capturam a vida cotidiana no interior da Bahia, e Dieux d'Afrique (1954), onde retrata a força e a estética dos cultos africanos. Sua câmera, longe de uma abordagem exótica ou distanciada, capta a dignidade dos retratados.

Marcel Gautherot: O Brasil Moderno em Preto e Branco

Se Verger olhava para a tradição, Marcel Gautherot (1910–1996) olhava para o futuro. Também francês, também fotógrafo, mas com outra sensibilidade. Formado em arquitetura, chegou ao Brasil em 1940 e imediatamente se encantou com a estética do país. Foi um dos principais fotógrafos do modernismo brasileiro e, por isso, seu nome se confunde com a construção de Brasília.
A pedido de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, Gautherot documentou a construção da nova capital entre os anos 1950 e 1960. O resultado é um dos registros mais impressionantes da arquitetura moderna, em que trabalhadores e estruturas monumentais se fundem em composições geométricas de luz e sombra.
Entre suas obras mais importantes estão Brasília (2010), um compêndio de suas fotos da cidade nascente, e Marcel Gautherot – Norte (2017), que reúne imagens da Amazônia e do interior do país, onde registrou festas populares e modos de vida ribeirinhos. Sua fotografia é rigorosa, de uma precisão arquitetônica que dialoga com seu olhar europeu para um Brasil em ebulição.
Dois Olhares, Um País

A comparação entre Verger e Gautherot revela a pluralidade do Brasil e de seus olhares estrangeiros. Se Verger se dissolveu na cultura que registrava, tornando-se parte dela, Gautherot manteve a distância do observador modernista, construindo imagens que, embora sensíveis, preservam um rigor formal.
Enquanto Verger documentava a resistência das culturas afro-brasileiras, Gautherot celebrava a invenção de um novo Brasil, urbanizado, progressista. Mas há um ponto de convergência: ambos encontraram no país uma obsessão visual e intelectual que os acompanharia por toda a vida. Dois franceses que, cada um à sua maneira, ajudaram a construir um Brasil que, sem suas imagens, talvez nunca tivéssemos visto.


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