Doorgaan naar hoofdcontent

O Gênio da Lâmpada sem Lampião [por Fred Ilek]

Era uma vez um sujeito chamado Geraldo. Ele era um homem inteligente, desses que resolvem equações de quinto grau de cabeça enquanto escovam os dentes. Sabia falar sete idiomas, incluindo o esperanto, que, convenhamos, só é útil se você quiser impressionar um esperantista. Mas nosso poliglota tinha um problema: ele sofria de um complexo de inferioridade tão grande que fazia um grão de areia se sentir como o Everest e o pico da Bandeira juntos.

Geraldo morava num apartamento minúsculo, onde a sala muito pequena com um sofá cama, uma geladeira e livros espalhados por todo lugar. Ele trabalhava como auxiliar de escritório numa empresa que fabricava clipes de papel. Era um trabalho modesto, mas nosso herói justificava: "Pelo menos não sou um fracasso completo. Afinal, alguém tem que saber mexer bem no excel, não é?"

Seus colegas de trabalho viviam sugerindo que ele tentasse uma promoção. "Geraldo, tu é inteligente para um c%ralho! Por que não se candidata a gerente?" Mas ele apenas balançava a cabeça e murmurava: "Ah, não sou tão bom assim. Além disso, gerentes têm que tomar decisões, enfrentar gente mal educada que não quer trabalhar. Não sei resolver isso... não sei mesmo. E se eu decidir algo errado? E se eu encafifar com a pessoa errada e mandá-la injustamente embora? Melhor ficar onde estou, fazendo formulas de excel e apresentações de PowerPoint. Aqui eu não erro", justificou com a sua ingênua sinceridade de sempre.

Geraldo tinha uma coleção de diplomas pendurados na parede do banheiro. Por quê? Porque era o único lugar onde cabiam. Um dia, um amigo visitou seu apartamento e, ao sair do banheiro, disse: "Geraldinho, você tem mais diplomas que a USP! Por que não usa isso para algo maior?" Nosso animado herói respondeu: "Ah, sabe como é... Diplomas são só papel. E papel, bem, papel a gente usa pra limpar... outras coisas. Por isso os diplomas estão simbolicamente pendurados lá",  respondeu com o orgulho de um time que perde de 7x1 em uma semifinal de mundial.


No fundo, Toupeira, apelido de Geraldo por causa de seus óculos fundo de garrafa e seus dentes para frente, sonhava em ser um grande inventor. Ele tinha ideias brilhantes, como uma máquina que transformava ar poluído em perfume de lavanda ou um aplicativo que dizia exatamente quantos minutos você poderia ficar na cama antes de se atrasar para o trabalho. Mas toda vez que pensava em colocar essas ideias em prática, sua autoestima aparecia como um balde de água fria. "Quem sou eu para inventar algo? Sou só um Geraldo, o cara das tabelas de excel."

Um dia, a empresa decidiu fazer um concurso de ideias inovadoras. O prêmio era uma promoção e um bônus generoso. Todos os seus colegas insistiram para que ele participasse. "Toupeira, é sua chance! Mostre que tu é o cara, cacete!" Ele relutou, mas acabou cedendo. Passou noites em claro desenvolvendo um projeto de clipes biodegradáveis que, ao serem descartados, viravam adubo para plantas.
No dia da apresentação, Toupeira estava tão nervoso que suava mais que um picolé no inferno. Quando chegou sua vez, ele começou a falar, mas a voz saía como um sussurro de mosquito. O chefe interrompeu: "Fala mais alto! Não estamos em um funeral!" Ele tentou, mas as palavras pareciam grudar na garganta. No final, o chefe disse: "A ideia parece ser boa, mas não dá pra entender nada. Que fórmulas são essas aí? A gente está em um concurso de matemática ou de inovações. Bora, quem é próximo?"

Geraldo saiu da sala com a sensação de que tinha confirmado o que sempre soube: ele não era bom o suficiente. Naquela noite, enquanto formulava mais um fórmula de excel, ele pensou: "Talvez eu devesse inventar um clipe que prenda minha autoestima no lugar. Assim, ela não escaparia tão fácil."

E assim seguia a vida nosso querido Toupeira, no qual nunca ousou em ser Geraldo Paez Campos de Albuquerque Tavares Filho de Alencar Pinto. Esse era nome cravados nos diplomas. Ele achava longo demais. Geraldo tava bom. Toupeira, melhor ainda. Um gênio que preferia ser um clipe: pequeno, discreto e sempre no mesmo lugar. Afinal, como ele mesmo dizia: "Melhor ser um clipe que segura papéis do que um papel que não segura nada." 

E, convenhamos, até que ele tinha razão. É melhor ser Zé que José? Mas que desperdício de vinho caro de boa safra, não?

E você... você aí que leu! És um Geraldo ou uma Toupeira? 

Reacties

Een reactie posten

Populaire posts van deze blog

O Brasil se digitalizou antes de se alfabetizar (por Frederico Ileck)

Entre memes e desinformação, o país da internet rápida e da escola lenta tropeça no próprio atraso Em 2024, o Brasil contava com mais de 84% da população conectada à internet — mais de 181 milhões de pessoas com acesso à web, de acordo com o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Em contrapartida, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua ude Educação, cerca de 11 milhões de brasileiros ainda são analfabetos — o equivalente à população de Portugal. Pior: se considerarmos os semianalfabetos, que conseguem juntar letras mas não compreendem o que leem, o número salta para quase 38 milhões de pessoas, conforme estimativas do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional). A matemática é simples e assombrosa: temos mais brasileiros conectados do que alfabetizados. A frase, que pode parecer exagerada, é uma síntese cruel do Brasil contemporâneo: um país onde o acesso à internet precedeu o acesso à compreensão. Um país onde os dedos navegam a...

Alli Willow e o ofício de existir em cena (por Frederico Ileck)

O Festival de Cinema de Rotterdam terminou esta semana e, entre tantos filmes, um trailer em especial me chamou a atenção: o de Yellow Cake. Em poucos segundos, a presença de Tânia Maria, com sua espontaneidade quase desarmante, já tornava o filme mais interessante do que o esperado. Logo depois, surge outra atriz, com um inglês polido, quase impecável. “Já vi esse rosto em algum lugar”, pensei. Fui aos créditos e lá estava: Alli Willow. Para minha surpresa, era a mesma atriz de Bacurau e de outras produções nacionais recentes — muitas delas, surpreendentemente boas. Foram poucos segundos de imagem, mas suficientes para reativar uma antiga paixão pelo cinema nacional. Fui atrás do contato da atriz e acabei conseguindo entrevistá-la. A impressão inicial se confirmou rapidamente: Alli Willow vem se consolidando como uma das presenças mais instigantes de sua geração. Ora, bastava digitar seu nome para que surgissem participações em séries e filmes — uma mais intere...

KALL MALX E O PLANO INFALÍVEL DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS (por Frederico Ileck)

Meu caros leitores, confesso sem pudor nenhum: sou um cartunista frustrado. Não de hoje. Já tentei de tudo pra vingar nessa arte nobre e ingrata, mas o mercado, a vida e minha caligrafia, meus péssimos rascunhos conspiraram contra mim. Entretanto, tenho meus eurekas. Momentos em que o cosmo e o Walter Mercado (ligue giá) me sopra uma ideia e eu, humilde servo da inspiração, pego o lápis e faço merda! Minha especialidade — se é que posso chamar assim — é misturar figuras monstruosas, filosóficas ou simplesmente patéticas com personagens de desenho animado. Já produzi obras que a posteridade ainda não soube apreciar: Mickey Myers (Mike Myers + Mickey Mouse); Dolly Kroeger (Dollynho seu amiguinho + Freddy Krueger); e o clássico Kall Malx (Cebolinha + Karl Marx), um filósofo revolucionário de planos Infalíveis. Pois bem. Estava eu revisitando o passado glorioso desta república de meu deus chamada Brazilzil quando me deparei com uma pérola da Veja de outubro de 1987. Um sargento de ...