Por volta de 2003, recém-formado e com sonhos de grandeza jornalística, embarquei na profissão com a empolgação de um calouro que acredita que palavras podem mudar o mundo. E talvez até possam, mas só se forem patrocinadas, pagas em dia e não boicotadas pela concorrência. O que, no meu caso, nunca aconteceu.
Minha primeira experiência foi em uma revista pequena, que me pagava com promessas e patrocínios fantasmas. Nunca vi um centavo, mas ganhei experiência—aquele eufemismo para “exploração”. Depois, fui parar em uma publicação bancada por um dos bancos mais ricos do Brasil. Parecia promissor, até perceber que eles bancavam tudo, menos os repórteres. Trabalhei de graça, mas pelo menos pude dizer que já tinha um nome publicado. Pequeno, no rodapé, mas publicado. Por ironia do destino, depois que me mudei para a Holanda, eles enviavam edições para mim gratuitamente como forma de agradecimento. Recebi mais de cinco exemplares e depois do nada, parei de receber.
Bem, a terceira revista era mais conhecida e me colocou para cobrir pautas na Baixada da Santista. Essa área é gigante, entretanto eu ficava apenas na cidade de Santos com foco na áreas portuária, metalúrgica e turísticas (no qual muitos dizem que é brega pacas, segundo meu falecido amigo e compositor Gilberto Mendes). Era um trabalho digno? As vezes. Era pago? Raras vezes. Um exemplo emblemático foi a cobertura da greve dos funcionários da Petrobras em 2006. Achei que daria o algum furo de reportagem, primeira página ou coisa do gênero. Fiz as fotos e a greve, para ser franco, foi um fiasco. Quase ninguém nas ruas ou no auditório do Sesc Santos, onde estava sendo organizadaa confusão. Meu colega de redação disse: “essa greve não vai dar em nada e olhe lá se vão te pagar”. De fato, precisei ligar incansavelmente para garantir míseros R$ 200. Fui chato, insuportável, mas funcionou. Uma pequena vitória no jornalismo de guerrilha (puff).
Ainda nessa revista, entrevistei e fotografei uma companhia de teatro japonesa. Seria uma ÚNICA apresentação nacional e, aparentemente, eu era a unica pessoa combrindo o evento, achava eu. Bem, matéria pronta, texto brilhante, fotos excelentes—mas na última hora, decidiram engavetá-la porque a revista concorrente já havia publicado algo. Sim, fizeram a entrevista por e-mail e nem colocaram os pés no local. Resultado? Os japoneses ficaram furiosos comigo, pois havia consumido o tempo sagrado deles. E isso, meu camarada, é uma ofensa a cultura japonesa. Nunca tome o tempo deles atoa. Em si ficou uma baita "bad vibe" e nem sei se, talvez, tenham achado que eu tinha alguma influência, o que, sejamos honestos, era um baita engano. Cara, eu era apenas um foca querendo um espaço ao sol, mas só levava bifa pra tudo quanto é lado.
O "grand finale" dessa época de Cidadão Kane do mundo inverso veio quando minha sogra foi convidada para uma entrevista no Cine Roxy, em Santos, para a emissora de TV Santa Cecília. Era a estreia do filme "Homem Aranha 3". Ela, especialista em quadrinhos, não pôde comparecer por conta de um problema familiar, e eu fui no lugar dela. O detalhe? Eu não era especialista em quadrinhos e até mesmo em nada. Eu era só fã do personagem. Honestamente nessa época era especialista em bolas na trave. Mas improvisei, falei bonito, e acabei parecendo um grande conhecedor. O melhor veio depois. Exatos uma semana depois, o jornal A Tribuna de Santos decidiu me entrevistar por causa do minutos de fama. Dedicou uma página inteira sobre o assunto. Aquele minuto inesperado de estrela, sem um centavo a mais no bolso, me fez perceber uma coisa: eu não tinha o "complexo de Clark Kent", como muitos jornalistas—aquele desejo de salvar o mundo com a verdade dos fatos. Meu problema era outro.
Meu verdadeiro complexo era o de Peter Parker. Sempre sem grana, cobrindo eventos importantes, mas vivendo como se cada centavo fosse arrancado à força. Assim como o Homem-Aranha vendia fotos do próprio herói para sobreviver, eu vendia minhas palavras para quem estivesse disposto a pagá-las—o que, na prática, quase nunca acontecia. Por causa dessas entrevistas, meu sobrinho na época achava que eu era o Homem Aranha, pode? Ele falou isso recentemente pra mim.
E assim, entre greves, cancelamentos, entrevistas furiosas e pautas fantasmas, fui entendendo que a realidade do jornalismo estava mais para uma revista em quadrinho do que para um grande romance épico. E, no fim das contas, se tem uma coisa que aprendi, foi isso: grandes poderes (ou grandes reportagens) nem sempre vêm com grandes salários.
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