Doorgaan naar hoofdcontent

Antônio e o eterno retorno [por Fred Ilek]

Antônio Diasruins sempre odiou seu sobrenome. Desde criança, sentia que carregava um peso insuportável, como se seu próprio nome fosse uma profecia de desgraça. E, de fato, tudo em sua vida parecia confirmar essa sensação. A mãe morreu quando ele era pequeno, o pai sumiu no mundo, os empregos nunca duravam, os amores sempre terminavam mal. Cada vez que achava que as coisas iam melhorar, algo o puxava de volta para o mesmo buraco escuro.

Foi num desses momentos de frustração que tomou uma decisão drástica: mudaria seu nome. Iria ao cartório e se tornaria Antônio Bom Homem. O nome novo traria novos ares, novas chances, um novo destino.

No dia marcado, vestiu sua melhor roupa, respirou fundo e foi. Ao se aproximar do cartório, porém, nuvens carregadas começaram a se formar no céu. “Só coincidência”, pensou, tentando ignorar o mau presságio. Entrou, entregou seus documentos e esperou. O atendente lhe explicou os trâmites burocráticos e pediu que aguardasse enquanto preparavam os papéis.

E então veio a enchente.

A tempestade desabou de repente. As ruas ficaram alagadas em minutos. A água invadiu o cartório, levando cadeiras, computadores, estantes, documentos. Quando Antônio conseguiu sair, estava encharcado, sem identidade, sem dinheiro, sem absolutamente nada. O destino, mais uma vez, ria da sua cara.

Nos anos seguintes, tentou refazer sua vida, mas algo estranho começou a acontecer. Pessoas que ele não via há tempos começaram a reaparecer. O primeiro foi Joaquim, um ex-colega de escola com quem teve uma briga feia. Depois, Clara, um amor antigo que desaparecera sem explicações. Em seguida, um primo distante que lhe devia dinheiro há tempos e que, por algum motivo, decidira agora quitá-la. Até mesmo o pai, sumido há décadas, ressurgiu de repente, como se nunca tivesse ido embora.

Mas não eram apenas pessoas. Problemas antigos também voltaram. Dívidas esquecidas começaram a ser cobradas. Pesadelos da infância reapareceram. O carro que vendera anos atrás foi encontrado batido e alguém alegava que ele ainda era responsável por aquilo. O tempo parecia andar em círculos, trazendo tudo de volta, repetindo-se como uma maldição.

Antônio percebeu então o que estava acontecendo: estava preso no eterno retorno. Nietzsche falava disso, os gregos já suspeitavam, mas agora ele vivia isso na pele. O universo era um disco arranhado, girando sempre sobre o mesmo sulco riscado.

Memento Mori

Um dia, depois de uma aula sobre o pensamento estoico e o conceito do eterno retorno, Antônio saiu para caminhar. Ele era professor de filosofia e, mesmo vivendo uma vida caótica, nunca deixou de buscar respostas nos livros e nos grandes pensadores. Andou sem rumo até entrar numa igreja antiga, onde nunca havia estado antes. No altar, viu uma inscrição gravada na madeira:

Memento Mori.

Ele conhecia bem essa frase em latim. Significava "Lembre-se de que você vai morrer." Era um lembrete da inevitabilidade da morte, um chamado à humildade e à aceitação da finitude. Os estoicos diziam que, diante da morte, tudo o mais era pequeno. As tristezas, os fracassos, os nomes, as dívidas e até os erros que pareciam eternos—tudo era reversível, menos a morte.

Ali, parado diante da inscrição, Antônio percebeu que estava tentando mudar a vida de fora para dentro. Acreditava que trocar o nome para Bom Homem o faria renascer, como se pudesse enganar o destino com uma assinatura num papel. Mas não era assim que funcionava. O verdadeiro renascimento vinha da aceitação, da compreensão de que tudo passava—menos o fim.

Foi então que decidiu tentar novamente.

O Novo Nome

Anos depois da enchente, encontrou outro cartório e fez todo o processo novamente. Mas, quando chegou o momento de assinar o novo nome, hesitou. Algo dentro dele sabia que Bom Homem não era o nome certo. Não era um título que ele precisava carregar, nem uma promessa de uma vida melhor.

Na última hora, pegou a caneta e escreveu outro nome no formulário:

Antônio Boa Morte.

Saiu do cartório sem esperar milagres, sem buscar um destino diferente. Apenas caminhou, sabendo que a vida ainda daria voltas, que o eterno retorno poderia continuar. Mas agora ele não fugia mais.

Porque tudo passa. Tudo pode ser refeito.

Menos a morte.

E, por isso, ele não temia mais viver.


Reacties

Populaire posts van deze blog

América Invertida: A Virada de Olhar que a América Latina [por Frederico Ileck]

Precisa Reflexões sobre identidade, ancestralidade indígena e a descolonização do olhar latino-americano a partir da obra de Joaquín Torres-García.  Obra " América Invertida ", de Joaquín Torres-García, 1943 Recentemente, fiz um teste de DNA e descobri algo que mexeu profundamente comigo: 4,5% do meu sangue é indígena. Parte dessa herança vem do norte da América do Sul (Venezuela, Colombia e Equador), outra parte do Chile. E no meio desses percentuais, de dados frios e distantes, existe uma mulher cuja presença ainda ecoa, mesmo que o silêncio tenha tentado apagá-la: minha bisavó, Dona Maria Ursula Andrade . Uma gigante silenciada pela história da minha família. Uma mulher invisível aos olhos dos que preferiram contar outras versões da nossa origem. Pois é a ela que eu dedico este texto. Durante muito tempo, minha família insistiu em uma identidade que não nos pertencia. Repetia-se, quase como mantra, que nossa origem era italiana, europeia, como se isso n...

KALL MALX E O PLANO INFALÍVEL DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS (por Frederico Ileck)

Meu caros leitores, confesso sem pudor nenhum: sou um cartunista frustrado. Não de hoje. Já tentei de tudo pra vingar nessa arte nobre e ingrata, mas o mercado, a vida e minha caligrafia, meus péssimos rascunhos conspiraram contra mim. Entretanto, tenho meus eurekas. Momentos em que o cosmo e o Walter Mercado (ligue giá) me sopra uma ideia e eu, humilde servo da inspiração, pego o lápis e faço merda! Minha especialidade — se é que posso chamar assim — é misturar figuras monstruosas, filosóficas ou simplesmente patéticas com personagens de desenho animado. Já produzi obras que a posteridade ainda não soube apreciar: Mickey Myers (Mike Myers + Mickey Mouse); Dolly Kroeger (Dollynho seu amiguinho + Freddy Krueger); e o clássico Kall Malx (Cebolinha + Karl Marx), um filósofo revolucionário de planos Infalíveis. Pois bem. Estava eu revisitando o passado glorioso desta república de meu deus chamada Brazilzil quando me deparei com uma pérola da Veja de outubro de 1987. Um sargento de ...

O Brasil se digitalizou antes de se alfabetizar (por Frederico Ileck)

Entre memes e desinformação, o país da internet rápida e da escola lenta tropeça no próprio atraso Em 2024, o Brasil contava com mais de 84% da população conectada à internet — mais de 181 milhões de pessoas com acesso à web, de acordo com o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Em contrapartida, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua ude Educação, cerca de 11 milhões de brasileiros ainda são analfabetos — o equivalente à população de Portugal. Pior: se considerarmos os semianalfabetos, que conseguem juntar letras mas não compreendem o que leem, o número salta para quase 38 milhões de pessoas, conforme estimativas do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional). A matemática é simples e assombrosa: temos mais brasileiros conectados do que alfabetizados. A frase, que pode parecer exagerada, é uma síntese cruel do Brasil contemporâneo: um país onde o acesso à internet precedeu o acesso à compreensão. Um país onde os dedos navegam a...